Sexta-feira, Janeiro 26

Hannover.

Oito graus negativos.
A cidade é uma gracinha e nevou um pouco essa manhã. Estou reunindo coragem para sair e fazer fotos, mas está difícil. Afinal, no quarto do hotel tem internet wireless e chocolate quentinho, hmmm.

Volto já.

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Sábado, Janeiro 20

Shit.

"Querido Papai Noel,

No Natal, quando eu pedi para viajar bastante em 2007, eu quis dizer pelo menos umas duas viagens legais no ano (além da tradicional visitinha ao patropi). Eu definitivamente NÃO QUIS DIZER que queria viajar duas vezes por mês, todo mês, por conta do trabalho do Respectivo. Seu velho gagá. Enche a cara de Sherry quando vai deixar os presentinhos debaixo da árvore alheia (alheia, porque debaixo da MINHA não deixou nada!), fica de porre, entende mal os pedidos e dá nisso.

Eu (pissed off)."

Bem, se não deu pra entender, explico.
Estou arrumando as malas de novo. Dessa vez pra Alemanha; Respectivo vai passar uma semana por lá a trabalho. O que por um lado será legal (adicionar outro país à minha lista de "visitados"), por outro vai quebrar minha rotina quando estou cheia de projetos e planos que, para serem levados adiante, exigiriam que eu ficasse aqui.

E pelo visto essas visitas à Alemanha serão constantes, a ponto de ele estar pensando em ficar por lá por muitos meses. O que por um lado seria útil (a chance de trazer a Chantilly para a Europa e com despesas pagas), por outro vai me deixar triste. Eu demorei para me sentir realmente em casa, aqui. Foi um processo contínuo que se intensificou quando voltamos pra casa semana passada. Reencontrei minhas coisas e me encontrei. E pela primeira vez, a viagem de volta pra casa foi melhor e mais cheia de expectativas do que a de ida.

E agora, eu vou ter que "ir" de novo. Quando tudo o que eu queria era ficar.

Não estou reclamando de uma viagem que, por enquanto, vai durar menos de dez dias. Eu sequer me sinto numa posição confortável para reclamar. "Colé pessoa", diz o anjo-diabo sentado no meu ombro direito. "reclamando de viagem ao exterior, com tudo pago, direito a passear em Paris (de novo), comer cassoulet (de novo), engordar (mais um pouco), cruzar três países diferentes?? Ô, não sabe brincar, sai do parquinho!". Mas o outro anjo-diabo, sentado no ombro esquerdo, me dirige um olhar compreensivo e, juntos, começamos a praguejar.

Sim, anjos-diabos. Eu não acredito em nada 100% bom ou 100% ruim.
E essa frase exprime de forma sucinta tudo o que eu queria dizer nesse momento.


Só pra não dizer que não falei das flores (no caso, Paris), eis a melhor foto que tenho da tal da torre. Foto by English Boy.

Outras coisas me deprimindo: a necessidade de lavar o cabelo às oito da noite nesse frio e a perspectiva de aturar de novo aquela travessia maldita do canal da mancha (e enjoar por uma hora direto) + horas e horas dentro de um carro cruzando auto estradas. How exciting. "Mas por que vocês não pegam um vôo?". Eu bem que gostaria. Só que ele precisa carregar tanta coisa que ir de carro é a melhor opção.

Cabelos deviam ser auto limpantes... Eu já disse que odeio lavar o cabelo? Não? Pois eu odeio lavar o cabelo!

Nem tive tempo de lavar a roupa suja da viagem anterior.
E em Hannover, previsão de temperaturas abaixo de zero.

Espero que pelo menos caia um pouco de neve, pra me fazer feliz.
OUVIU DESSA VEZ, PAPAI NOEL?
Tsc.

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Quinta-feira, Janeiro 18

Feliz cumpleanos

Amiga do respectivo, questionando a minha sanidade mental ao ficar sabendo que eu iria festejar meu aniversário num pub: "mas POR QUÊ num pub?". *leia a palavra "pub" em tom derrogatório*

Sei lá, anjo. Talvez porque eu goste?



Le Moulin de Lecq, funcionando num moinho desativado no final de um vale e às margens da baía de Grève de Lecq.







Interessante essa variedade de porcarias pra se jogar em cima da comida que a gente só acha em pubs. E, em consideração às amigas vegetarianas que lêem o blog, vou me abster de mencionar o que comi. Mas, dedicando às mesmas amigas vegetarias que lêem o blog (e que adoram booze), mencionarei a sobremesa: uma dose dupla de Bailey's Irish Cream dentro de um copinho de chocolate.*hic*





É oficial - enchi o saco de todo mundo tirando fotos desse moinho.

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Domingo, Janeiro 14

1,99 way of life

Cúmulo do Improvável.
Ir a Paris, saracotear na Rue du Rivoli, entrar numa H&M, pegar um vestido de seda pura, experimentar, caber nele, levar ao caixa e, ao fazer o English Boy pagar, descobrir o preço.

VINTE E CINCO REAIS.
(sim, eu disse reais).

Nem no camelódromo da Central do Brasil.
Respectivo saiu da loja com um sorriso laaargo, de orelha a orelha.
E eu, me sentindo a própria "cálega de subúrbio".

Vontade mesmo de conhecer Paris, eu nunca tive.
Podia enumerar as razões dadas pela irmandade de bêbados com quem eu sonhava sonhos não-realizáveis em mesas de bar. Porque é cheia de parisienses. E franceses, como todos sabem, não tomam banho. Tudo é muito caro. E não entendíamos como milhões de pessoas todos os anos esnobavam o Brasil pra ir tirar fotos de uma torre cafona.

Bem, quanto à torre, eu ainda não entendo.
Mas entendi que Paris não é só a Eiffel.
Mas também as gárgulas de Notre Damme.
Os crepes de Nutella com banana nos cafés do Marais.
O moço que alimenta pássaros em frente à Sorbonne.
O garçom brasileiro que me serviu cassoulet com sotaque carioca.
Os jardis de Tuileries.
As meninas magrinhas em botas lindas sem salto nenhum.
Sentir-se a própria turista clichê num passeio de Bateaux pelo Sena.
Sentar-se num café estiloso, tomar um café horrível e não ficar de mau humor.
Barganhar por cacarecos em francês capenga pelos mercadinhos de Saint-Ouen.

Um dia eu volto com mais calma.
Talvez até passe a entender qual é a daquela torre.

Hora de desfazer as malas e a árvore de Natal, entrar na dieta da água e em 2007.


Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Cora Coralina (Outubro, 1981)

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Domingo, Janeiro 7

fly me to the moon

"Eu sou como o menino de seis anos que quer ser astronauta.

Todos os dias ele olha para a lua e as estrelas e pensa "um dia eu estarei lá em cima também". Esse sonho o leva pela mão através dos dias difíceis, é nesse sonho que ele encontra esperanças para continuar. Ele será famoso. Ele será grande diante daqueles que pensaram que ele fosse qualquer coisa aquém de espetacular.

E então, aos 20 e poucos, ele percebe que não é bom em matemática. E que tem um problema cardíaco que o impede até mesmo de andar de montanha russa e que sua visão está falhando. Nada de foguetes para ele. Nem de estrelas. De fato, em cinco ou seis anos, ele provavelmente não vai conseguir nem mesmo enxergá-las muito bem."

Bela historinha triste traduzida de um antigo fanzine. Sinto falta de receber zines independentes pelo correio, de ler não apenas sobre o que as pessoas fazem, mas também sobre o que sentem. Hoje em dia fanzines são apenas sobre música ou cinema, e raros de encontrar. Nem mesmo os zines virtuais que eu costumava ler resistiram aos novos tempos e à época de informação excessiva e rápida dos fotologs, orkuts e youtubes. A internet virou um fast food de conhecimento. Em porções gigantes, cheias de calorias vazias...

Pena. Acho que havia espaço para coexistirem. Mas estamos ficando preguiçosos. E com uma certa razão. Para quê escrever para quem não está, necessariamente, interessado em ler? Pessoas às vezes são engraçadas. Você posta fotos e elas reclamam porque querem ler coisas. Você escreve sobre a sua vida e elas reclamam porque ela não é interessante. Você escreve sobre outras coisas e elas reclamam porque discordam. Resumo da ópera: elas querem que você escreva somente sobre o que elas concordam. Na verdade, é até engraçado. Só que assim não dá, né. A solução é deixar pra lá. E comer mais pão de queijo. :)

Indo viajar, uma semana fora.
Até lá e, pra quem merece, abraços.

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Quinta-feira, Janeiro 4

please allow me to introduce myself.

Minha mãe, desde que virou crente, pegou aversão ao capeta.
Ô falta de criatividade.


Eu adoro diabinhos. Adoro vermelho, adoro chifres (desde que não na minha testa, bien sur) e adoro tridentes (até tenho um, de plástico com purpurina, altamente Hell-Gay). Tenho uma pequena coleção de diabos que inclui o Brasinha, o Lusty (um Bad Taste Bear vestido de diabo), Le Canard du Diable (um pato de borracha vermelho, com chifres, comprado em um camelô em Camden), entre outros.

Mas é o Dikkens o orgulho da casa.





"Boo". Aw.
Eu quis um desses desde sempre. Achei no Ebay, vendedor nos Estados Unidos, paguei uma nota de correio - mas valeu cada centavo. Ele é japonês, saiu da fábrica da Kamar há 39 anos atrás (mas a carinha é de 18, juro) e tem uma etiquetinha que diz: "My Name is Dikkens. I am made of love". Aw.

Minha mãe é cheia de paradoxos. Implica com meus capetas mas já frequentou terreiros de umbanda (hoje ela bate os pezinhos no chão e jura que é mentira, claro...). Eu ainda me lembro da tarde em que cheguei da faculdade, morta de cansaço e fome e, ao abrir a porta do quarto, três pombos pretos saíram voando, asas pela minha cara. "Que P-O-R-R-A é essa????". Mãe: "Cale a boca. É pra eu fazer um trabalho pra ajudar o seu padrasto".

A coisa ficou mais preta que os pombos quando ameacei chamar o Ibama.

Certa vez fui passear num cemitério (não sou gótica) e me deparei com um anjinho, desses de decorar sepultura, caído no chão. Tinha uma asa quebrada. Joguei asa e anjo na mochila, em casa colei com durepóxi e ficou como novo. Prateleira do quarto. Quando minha mãe descobriu a procedência da coisa, exigiu que eu jogasse no lixo. Gargalhei. Mas um dia cheguei em casa e o lugar do anjo na prateleira estava vazio. "Quebrou quando fui limpar seu quarto", disse ela. Men-ti-ro-sa. "Coisas de cemitério trazem má sorte", ela tentou justificar. Mas a minha vida pós-anjo-de-cemitério não havia piorado em nada, e depois que ele se foi não melhorou nem um pouco. Nem ganhei na loto, sabe.

Dikkens e seus amigos ficam aqui, na escrivaninha, o tempo todo do meu lado. Me fazem companhia. Não fazem mal a ninguém.

Dona Maria não pode saber da existência do Dikkens, nem do quanto somos amigos. Minha mãe, compreensivelmente, morre de medo de capetas. E os meus capetas, mais compreensivelmente ainda, morrem de medo da minha mãe.

E fogem dela, literalmente, "como o diabo da cruz".
"toc, toc, toc", faz o Dikkens, e pisca pra mim.
"hahaha", faço eu.
E pisco de volta.

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Terça-feira, Janeiro 2

neil gaiman.

"Ela é uma dicotomia de coisas porque está dividida - quando pais se separam, se tentam fazer uma criança se voltar contra um deles, estarão dividindo essa criança ao meio.

Há uma centena de coisas de que ela tentou se livrar, coisas de que não irá se recordar e que nem mesmo se permite pensar sobre, porque é quando então os pássaros gritam e os vermes se arrastam. E em algum lugar de sua mente chove uma lenta e eterna chuva.

Você irá ouvir que ela saiu do país, que existe um presente que ela quis lhe deixar, mas ele vai se perder antes de chegar a você. Uma noite, já tarde, o telefone irá tocar e uma voz que pode ser a dela dirá algo que você não vai conseguir compreender antes que a linha ruim caia.

Vários anos depois, de dentro de um taxi, você verá alguém, de pé num vão de porta, que se parece com ela, mas que terá desaparecido quando você finalmente consegue convencer o motorista a parar. Você nunca mais vai vê-la novamente.

Sempre que chover, você pensará nela."

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Segunda-feira, Janeiro 1

Back on track.

Troféu bostinha para 2006.
Marromeno. Mas poderia ter sido infinitamente pior (eu poderia ter estado doente, poderia ter perdido alguém querido, poderia ter ficado muito pobre, poderia ter arrumado um empreg... OPS, erm, poderia ter engordado 30 quilos, etcétera, etcétera, etcétera). Nesse caso, serei uma boa menina e agradecerei sorridente minha saúde e a daqueles que amo, ter conseguido realizar meus pequenos sonhos materiais e terminar o ano cabendo nas minhas calças.

Fora isso, o ano foi meio vazio de acontecimentos. Não viajei muito, nem fiz muitas coisas interessantes, o que me deixou meio entediada. Entendam: eu moro numa ilha pequena (apesar de nem mesmo English Boy, que mora aqui há mais de 20 anos, conhecê-la por inteiro), não dirijo e o sistema de transportes deixa muito a desejar. Há dias em que me sinto presa na clausura, como uma Madre Carmelita Descalça (eu admito usar meias de lã com estampa de porquinhos). No verão sempre há a possibilidade de pegar a bike, jogar uma câmera na mochila, a mochila nas costas e sair por aí. Mas no inverno minha disposição enfraquece consideravelmente. Então, passo os dias na frente do micro/assistindo DVDs/passando MP3 para o iPod/comendo. How exciting - NOT.

Resolvi encarar o frio na manhã de Natal e me ausentar do casulo quentinho providenciado pelo aquecimento central, amém. Do lado de fora da porta, DOIS GRAUS. Luvas, cachecol, suéter, casaco de inverno. E eu tremendo. E babando. Tive A_Visão do Natal, pela primeira vez. Lâmpadas acesas na semi escuridão do interior das casas enormes, as luzes das christmas trees cintilando, famílias perfeitinhas sentando-se à mesa para o almoço de Natal. Aqui em casa resolvemos celebrar à brasileira e fazer a ceia no dia 24. O que me deixou livre no dia seguinte à tarde para fotografar o Natal dos outros. Para embaçar as janelas alheias com o meu bafo, pegar carona nos Christmas Carols dos vizinhos. Mágico. Lá do Haiti de onde eu vim, a gente não vê essas coisas todo dia, não.

A passagem do ano foi sacal. Alguém aí me lembre daqui a 12 meses da única resolução que fiz
para 2007: não passar o ano novo em Jersey. Como moramos no campo, não dá pra ir celebrar longe de casa - como fazer pra voltar depois, dirigindo depois de encher a cara? O jeito é passar a virada num hotel e dormir por lá mesmo. Mas se for pra ficar num hotel, que seja FORA da ilhota. Perto de casa, só tem pub. Passar a noite do dia 31 cercada de seres com idade pra ser meus bisavós e ouvindo o hit parade do Natal de 1965 não se encaixa no meu conceito de diversão.

Não, não fomos pro pub esse ano. Porque nem pro pub conseguimos ingresso. Respectivo deixou para se decidir no último segundo e todas as espeluncas da ilha já estavam com lotação esgotada. Decidimos pedir comida por telefone. Mas o que estaria funcionando na última noite do ano? Comida CHINESA, é claro (lembre-se que o ano novo deles é em outro dia). Comi egg fried rice, black beans duck e salt and pepper king prawns em frente à TV - lembre-se também que nós não temos TV a cabo... Sorte que tínhamos muita cerveja no freezer e vinho na adega. Só bêbada pra aturar o festival de futilidade que é a TV britânica na noite de ano novo. Mas ter visto um cartoon da Madonna correndo loucamente numa esteira, segurando um bebezinho preto chorão com 890562371 paparazzi atrás valeu o ingresso (aquele que eu não consegui comprar pra passar a noite no pub). Muitas risadas depois da meia noite, fui dormir feliz com o meu melhor amigo e meu amor.

Enfim. Reclamar é um hobby, mas no fundo sabemos a sorte que temos.
Afinal de contas, contra todas as possibilidades, ainda estamos aqui.
Bora tocar a vida pra frente. :)





Fotos do meu casulo brasileiro.
Se o medo dos 40 graus à sombra e de ônibus sendo queimados não me aparafusar aqui, esse ano estaremos lá de novo, enchendo a cara de Skol com as pessoas queridas. :)

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