Da série "
Posts (muito) velhos que soam atuais":
Fui convidada para um programinha noturno (nesta fase "meu quarto, meu casulo", falar "programa noturno" me soa cafona) e descobri que minhas roupas não têm mais cara de náite. A menos que calças cargo + casaquinhos coloridos não façam feio em boates. Fazem? Tanto tempo que não vou a uma que nem lembro como o povo se veste.
Ter um namorado que não sabe dançar ajuda. Com ele ando fazendo programas de velha, como passar a noite inteira sentada numa mesa onde garrafas de cerveja rodeiam pratos de comida, esvaziando os recipientes sem nem olhar pros lados. Não por acaso ganhei uma bunda mais mole e dois quilos nesses sete anos. Vai ver é por isso que agora tenho tantas calças cargo nas gavetas.
Mas o Marcos não é o único motivo para eu ter virado notívaga às avessas. Nem o trabalho, nem a internerde, nem nada que que meu dedo possa apontar. Sei lá. Estranho porque eu não era assim. A palavra "uma boa noite de sono" era conversa de avó. Eu trocava fácil essa idéia por "uma boa noite de farra". Noites acordada, na rua, eram ótimas ainda que fossem péssimas. E eu então, do alto da sabedoria suprema que a gente só tem uma vez na vida (aos 13, 14 anos) eu teria PENA sincera das pessoas que se declarassem "caseiras". Abriria para elas meu catecismo de regras e dizia que iam se arrepender mais tarde, que a juventude não ia voltar, e cochichava com meus parceiros de esbórnia: "mas que merda de vida ele(a) tem!".
Depois de muitas noites vomitando em banheiros estranhos e sujos, de muitas madrugadas sentada em calçadas, congelando enquanto esperava um ônibus ou táxi (que àquela hora não viriam MESMO), de muitas festinhas-roubada, de muitos caras grosseiros, imbecis e torpes querendo me convencer (às vezes, quase a tapa) de que beijar suas bocas era um privilégio, de medo de ser assaltada/estuprada na Lapa assistindo a mendigos/drogados se engalfinharem a troco de meia garrafa de cachaça (que depois seria quebrada e usada como arma, a meio metro de onde eu estava), eu simplesmente DESCOBRI por que as pessoas se vestem, deixam suas casas, gastam dinheiro, passam a madrugada acordadas, sacudindo-se numa pista de dança lotada e fedendo a suor e cerveja: elas querem encontrar alguém. Só por isso.
E eu não quero mais. Não que o que eu tenha me satisfaça plenamente. Só que agora a relação custo-benefício não me parece tentadora. O que mais vou querer com um pafúncio (vestindo calça social OU camiseta da Cavalera; tanto faz a embalagem, a má qualidade do produto é a mesma), além de esperar que ele me pague cerveja?
Isso o Marcos faz. E ele não é um pafúncio. E beijá-lo, para que me pague a cerveja, não me será sacrificante. E não preciso comprar roupas novas para agradá-lo, nem gastar 30 contos de consumação, nem fingir que gosto de suar a noite inteira dentro de uma casa noturna cheia de gente querendo se arrumar a TODO custo. Antes, ver pessoas frenéticas me dava a idéia de vida, agitação, movimento. Seus olhares inquietos, varrendo o ambiente feito radares, eram (mal) interpretados como sendo excitação. E são. Como também ansiedade, angústia, desespero... Hoje tenho pena do medo infundado que elas têm da solidão. Da carência que as fazem aceitar qualquer coisa, qualquer um. Da percepção torta que elas têm de que só podem se achar alguma coisa SE alguém validar o que elas acham de si próprias. E é isso o que elas saem para buscar, toda sexta, todo sábado, todo santo dia se isso for possível. Eu tenho medo de como elas reagirão ao perceber que nunca vão encontrar.
A bem da verdade, nunca conheci ninguém legal na noite. Todos os meus "past loved ones" vieram de outros cenários, quase sempre diurnos. E quanto mais distante esse cenário dos esquemas da "náite", mais sucesso no relacionamento. A "náite" só me trouxe pafúncios. Por isso prefiro dançar no meu quarto. Aqui não fede, aqui eu sou a DJ, aqui a cerveja está sempre gelada, aqui eu não esbarro no cigarro aceso de patricinhas encalhadas nem tenho o braço puxado por algum playbaca "querendo me conhecer". E tenho certeza de que, se a "náite" não fosse O lugar de escolha para engatilhar trepadas, 100% das pessoas que de FATO gostam de dançar prefeririam fazê-lo em seus respectivos dormitórios.
Mas não me arrependo de não saber disso aos 14 anos. Tudo o que vivi valeu sim, e muito. Para uma menina de 14 anos. E foi o bastante - não quero mais.
(Tá. Ainda tem um pretinho decotado no estilão "vem cá meu puto" aqui na gaveta. Vai ser ele mesmo).