Ser filha deve ser padecer no
inferno.
Até agora eis uma das poucas coisas boas de ter vindo pra cá.
E olha que eu acho que ela não se lembra mais de mim.
Essa vai ser, sem dúvida, a última vez que venho ao Brasil para ficar na casa da minha mãe. De repente todas as nossas inconciliáveis diferenças, que sempre me jogaram pra longe daqui, reapareceram para me lembrar de que o mais saudável é mesmo manter distância.
No aeroporto devo dizer que ela me deu um susto. Magérrima, abatida... E aqueles sonhos sobre morte que eu tive passaram a fazer sentido por alguns instantes. Depois de me abraçar comentou que eu estava gorda (de fato; só aqui a ficha caiu e os espelhos me mostraram a criatura pálida e inchada em que eu nem sabia que havia me transformado... Bom, paciência; agora é recomeçar do zero).
Em casa, tudo estava mudado. Móveis novos, a disposição dos antigos, e o novo hobby de mamãe (
decoupage) espalhado por todos os cantos: caixas para TUDO (esmaltes, maquiagem, jóias, garrafas, correspondência, até baralho...), relógios, móveis, vasos, porta-chaves, etc. Tudo muito coloridinho e em excesso – gosto altamente duvidoso, mas eu não estava (e não estou) no clima pra implicar com isso.
O que me incomodou mesmo foram os porta-retratos.
Não por causa da decoupage cafona enfeitando a madeira, mas sim pelo fato de TODAS as fotos que eles exibiam serem minhas e do Alaric. As fotos do casamento que eu mandei para ela pelo correio. As fotos da última vez em que nós dóis estivemos juntos no Brasil.
Sinceramente, a coisa estava meio assustadora, creepy. Parecia que minha mãe havia transformado a casa numa espécie de altar, templo erguido em homenagem aos dois deuses. Horrível. Vou ter que conversar com ela e pedir que tire algumas fotos, troque por fotos DELA ou da família dela. Porque, além de estranho, é um tantinho ridículo. Passa para as outras pessoas a idéia de que ela está deslumbrada com a “filha morando no estrangeiro” e querendo se exibir. EU sei que essa tese procede, mas ninguém mais precisa saber. Além dos que já sabem, é claro. Sim, porque minha mãe andou esnobando algumas pessoas por conta da minha mudança para a Inglaterra e perdeu algumas amizades – compreensível.
Por falar em pessoas... Elas sempre foram motivo de discórdia entre nós duas. Minha mãe é uma pessoa carente, que estabelece relações simbióticas sem as quais não sobrevive. Talvez por ter sempre assistido de camarote as humilhações que ela sofria por conta disso, eu cresci aversa a qualquer tipo de interdependência excessiva e doentia entre seres humanos. Pessoas muito ciumentas, muito carentes ou muito inseguras me dão pena – não estou sendo sarcástica, arrogante ou agressiva aqui... Falo de uma piedade genuína, que gostaria de estender auxílio mas sabe-se impotente. Então, voltando à minha genitora, eu sempre odiei o fato de a nossa casa parecer a Central do Brasil ou a Rua da Passagem aqui no Rio. Um entra-e-sai eterno de pessoas que “estavam passando e resolveram dar uma paradinha” e passar umas boas horas alugando o ouvindo da minha mãe com seus problemas... As mesmas pessoas que invariavelmente lhe darão as costas quando ELA precisar, mas então ela vai preferir praguejar e depois aceitar a amizade de volta e se prestar ao mesmo papel ridículo do que simplesmente CORTAR o contato, como EU faria.
Enfim. Ela fala TANTO de mim para a “amiga da vez”, uma tal de Sara que frequenta a mesma igreja, que a mulher já mandou recado de que “precisa conhecer a filha importada da Maria”. A filha dela “sonha” em me encontrar e o marido velho e doente dela diz que “me ama”.
Estarei eu bancando a adolescentezinha anti social OU isso tudo é um pouco demais (assustador demais, ridículo demais, triste demais)?? Eu aposto na segunda opção, não importa o que vocês pensem, e nem que sim, eu SAIBA que no fundo eu sou mesmo uma teen emburrada que se esconde no quarto pra não ter que ser apresentada às visitas - que lhe apertarão as bochechas e dirão “Nossa, mas como você cresceu! Já está namorando??”.
Eu não quero ser vista como o bicho raro da vizinhança. Em breve minha mãe terá a idéia de tornar tudo mais prático me trancando numa jaula e cobrando ingressos dos amigos, que virão me jogar bananas, fotografar e perguntar se na Inglaterra todos têm mordomos em suas mansões e tomam chá das cinco lendo novelas de Conan Doyle.
Eu não quero ser apalpada por estranhos, eu não quero o “amor” de gente que nunca me viu mais gorda (literalmente...), eu não quero a simpatia de pessoas que não significam absolutamente nada pra mim. Eu quero ter esse direito e que minha mãe não se sinta ofendida, que não grite comigo me deixando nervosa como HÁ UM ANO eu não ficava. Eu quero ter o direito de não querer ver certas pessoas, de escolher os meus amigos, de não querer dividir os meus com ela (desde que eles também não tenham interesse nessa proximidade). Sim, porque eu fui a adolescente que detestava trazer amigos em casa, por saber que a mãe ia sentar no sofá no meio deles, monopolizado a atenção e me deixando com a bacia de pipoca no colo encarando a TV e perguntando QUANDO ela ia se tocar de que eles estavam ali NÃO APENAS pra bater papo com ela.
Outro problema são as reclamações repetitivas. Porque “a conta de luz vai vir uma fortuna agora que eu estou em casa”. “O computador vai passar o dia ligado na linha telefônica e ela não vai pagar por isso”. “As coisas estão pela hora da morte no supermercado”. E diz isso tudo mantendo um ar meio risonho (e falso como nota de 3 reais), para que, caso eu me insurja, ela possa se indignar e dizer que “só estava brincando”. Eu can-sei de dizer que me proponho a dividir despesas. Que não, o maldito computador não estava ligado na maldita internet – e que, se estivesse, eu pagaria a maldita conta. Que não, eu não quero que ela me traga quilos de comida do supermercado só pra depois reclamar da carestia. Eu não quero paparicos se eles vierem de alguém que tem uma mão gigantesca esticada na minha direção, aguardando paga.
Que ela quase nunca teve, diga-se a verdade. Ela sabe ser abnegada e nunca me deixou faltar coisa alguma quando precisei. Mas sempre havia aquele arzinho de reclamação e insatisfação no ar, que me levava a pensar, “se não quer ajudar, não ajude”.
Ou seja, se eu pudesse, hoje mesmo me mandava prum hotel.
Mas sairia caro passar 3 meses num lugar decente, por isso vou ter que abaixar a crista e me contentar com isso aqui. Nada de ar condicionado no meu quarto, e eu detesto dormir no quarto dela. Nada de internet decente. Nada de me pendurar no telefone para ter que ouvir piadinhas mesmo que eu pague a porra da conta. Estou de saco cheio, mas vou ter que furá-lo e não me indispor para não transformar minha estadia aqui num inferno astral atrasado – era pra ter sido no meu aniversário, não?
Entretanto, durante essa descrição me peguei por várias vezes rindo de certas frases. “Podia ser pior”, por mais Pollyana que isso possa parecer. Podia ser muito pior, eu podia ser dada a lamúrias. No entanto eu praguejo, acho graça do próprio praguejar e estou pronta pra outra.
A temperatura está agradável, meu cartão de banco não funciona fora do Reino Unido, mas o credit card está tinindo e o Alaric me mandou uns cobres extras, eu acho mais fácil fazer Atkins no Brasil e aqui as academias de ginástica são mais baratas, eu estou respirando, meu coração está batendo sem preguiça.
Tenho o dom da felicidade, o dedo no botão foda-se e ele nunca me falhou.
Agora eu me vou, porque estou num cyber e eu detesto cybers.
Falta de privacidade, barulho, testosterona adolescente por todos os cantos.
URGH.