Update longo porém rápido e sem fotos, já que vocês teriam uma crise de riso histérica se soubessem tudo o que eu tenho por fazer.
Bonfire night foi cool. Literalmente - frio do caralho. Eu não esperava uma queima de fogos daquela magnitude numa ilhota de 80 mil habitantes. Grosso modo, botou Copacabana no chinelo (respeitadas as devidas proporções). E a comemoração daqui de St. Martin foi apenas uma das quatro promovidas em Jersey (sendo St. Martin countryside, a festa de St. Helier, centro comercial da ilha, deve ter sido muito maior).
Festa entre aspas. Nada de mais: uma fogueira imensa, música de FM, um monte de famílias no melhor esquema nojentinho "papai-mamãe-vovó-e-dois-filhinhos", poucos adolescentes (deve ser programa de índio na concepção deles, e talvez estejam certos), muitos carros no estacionamento e várias ruas fechadas a troco de nada. Não consegui comer o maldito bean crock (prato típico, basicamente uma feijoada de feijões brancos) porque acabou assim que entramos na tenda. Tive que me contentar com um hambúrguer que me deixou o estômago pesado e acabou com minhas pretensões de encher o rabo de batata frita no pub. Ao contrário do que eu esperava, não havia muita variedade em termos de comida. Três tendas apenas: uma vendia bebida, a outra comida (hot dog, burgers e o tal crock) e uma última vendia uns bastões com líquido colorido dentro que brilhava no escuro. TODAS as 162839473839 crianças presentes traziam uma bosta daquelas penduradas no pescoço, e ficavam girando, girando... Muito bonito, exceto pelo meu medo de um deles se soltar e ir parar na cabeça de alguém. Como eu esperava, o lugar parecia uma nursery. CHEIO de pirralhos (até bebezinhos de colo, um absurdo). Esse pessoal não deve saber o que é contracepção, não é possível.
Fora isso, a única luz vinha das tais três tendinhas e da fogueira. Acho essa escuridão um pé no saco - tudo bem que aqui um céu estrelado é um espetáculo digno de ser assistido com roupa de gala e comendo pipoca, e que uma noite de lua cheia é clara feito um entardecer. Mas o fato de a ilha virar um cemitério depois do horário comercial me entedia de morte. Sábado à noite e as ruas estão escuras e mortas, o único sinal de vida são as luzes das residências esparsas. Pleno centro da cidade: nada. O povo ou está enfiado num pub bebendo ou assistindo soaps pastelão em casa. B-o-r-e-d-o-m.
Assim que os fogos acabaram, TODO MUNDO foi embora. E eram oito e vinte da noite. Alaric (quando reclamei): "It's November, and it's windy!". Ok, se o clima is that much of a problem, que fiquem em casa vendo Emmerdale. Aliás, Emmerdale não, que era sábado. Enfim, não sei se passa Emmerdale no sábado ou não, porque eu nunca assisti Emmerdale.
Saímos de lá e fomos pro Rozel Inn. Pra beber, é claro, porque a comida de lá não rola. Não consegui esvaziar meu copo por dois motivos: 1) já tinha bebido uma lata de John Smith na bonfire e 2) estava com raiva. Pela enésima vez que eu mencionava o assunto MINHA GATA com o Alaric, ele fazia ouvidos moucos. Sentada na mesa encarando uma pint de bitter que não acabava nunca, soltei a bomba: "você ou não QUER ou não PODE trazer a gata, não é?". E fui brindada com a envergonhada resposta que ele vinha se esquivando de dar há milênios, talvez pra não me aborrecer, talvez pra evitar que eu fosse embora ou talvez pra aliviar a culpa.
Estou com muita, muita raiva. Minha maior vontade, nesse preciso instante, é de pôr minhas bonecas e meia dúzia de trapos numa mala e embarcar para longas férias no inferno, digo, Brasil. Eu sei que devia estar sendo compreensiva, que essa maldita obra que se arrasta há quase um ano sugou as reservas financeiras dele, que depois da saída de uma das sócias, da perda de um cliente grande e da iminente falência do segundo maior, a empresa não está rendendo tanto quanto no ano retrasado, e vai levar pelo menos mais um ano para que a situação se estabilize e que os clientes novos passem a render dividendos que compensem as perdas - isso é, hopefully. Eu sei que isso tudo veio ao mesmo tempo, mais os gastos com a mudança, os móveis, etc. Mas porra. A Chantilly era a ÚNICA condição que eu impus para vir para cá, assim que fui informada sobre a lei estúpida desse país pseudo comunista imbecil (que morram todos de bird flu). Eu aceitei várias coisas que jamais aceitaria em estado normal, (até a presença da mãe dele aqui - sorrio e espero pelos acontecimentos, mas no fundo estou ODIANDO LOUCAMENTE essa idéia). Estou me sentindo enganada, porque o assunto vem sendo delicadamente evitado há MUITO tempo, e ainda assim promessas e planos foram feitos, anúncios de imóveis na França recortados do jornal (mas ele nunca ligou para checar ou marcar visita... não posso fazer isso porque não falo francês), dinheiro enviado para os meus pais pagarem as despesas dos exames, minha mãe se deslocou a vários lugares para fazer tudo o que era necessário... E agora essa pseudo-negativa, que para mim nada tem de pseudo - o discurso macio é apenas MAIS UMA tentativa de ganhar tempo e me enganar.
Só que EU não vou me enganar. Minha gata vai ficar para trás.
Entretanto nessa casa outras coisas também ficarão para trás.
Que a lei "não se pode ter tudo na vida" se aplique de forma igualitária.
Haha, on a lighter note, acabo de ler no jornal que cerca de 30% das crianças questionadas aqui não sabiam que batatas fritas são feitas de... batata. Gênios, esses inglesinhos. Também, em se levando em conta a qualidade das escolas do Reino Unido, isso nem me surpreende. O ensino de História é "editado" porque os professores comunistas têm vergonha do Imperialismo, sem se dar conta que o que eles pensam ou deixam de pensar é irrelevante: a História é MUITO maior que os pruridos socialistas dessa gentinha e as crianças têm o DIREITO de conhecer o passado da nação onde nasceram. Por causa disso criança nenhuma sabe que diabos está sendo celebrado na Bonfire Night de 5 de Novembro - pra eles é só uma espécie de festa junina britânica. Não se ensina a soletrar porque isso "limita" a criatividade dos alunos (e a falta de pulso se reflete em redações risíveis, num país onde a população não sabe mais a diferença entre it's e its - sério, isso - e comete mais erros de grafia do que eu). Eu VI minha cunhada ajudando o filho mais velho a fazer o dever de casa, e pelo que entendi, o moleque tem SETE anos e AINDA NÃO SABE LER.
Eu estava escrevendo pequenos contos e letras de música com essa idade.
God Save minha professora primária.