Sábado, Setembro 24

Cinderela às avessas

Eu preciso parar de comer.
Eu preciso parar de comer.

1. Ontem à tardinha peguei uma nota, andei até a loja, comprei leite condensado, dois sacos de batata frita, coca cola, baked beans, uma lata de chilli com carne e dois happy hippos. Consumi tudo até hoje de manhã. Preciso me lembrar de que, apesar de EU estar organizando essas "festas-do-pijama-sem-marido-em-casa", os demais convidados são BONECAS e não comem. Seria possível alimentar metade da população faminta da África com os restos de comida desse meu fim de semana.

Hoje acordei com dor de barriga. E QUE barriga, por sinal.
Bem feito. Toma, infeliz. Aprende.

2. Marido adorando Kitzbuehl. Almoços com 5 pratos diferentes. Descida de rafting (!!). Paisagens de sonho, de comercial de chocolate Alpino. Cerveja. Vinhos. Comidas, doces e bolos divinos. Tudo de graça. Conta nos mínimos detalhes pelo celular, transpirando entusiasmo, e diz que vai trazer o memory card cheio de fotos maravilhosas... Eu acho que vou pedir o divórcio quando ele voltar.

3. Estava lendo o blog do menino e até gostando quando me deparo com um post que falava sobre a Cristiane de Andrade, a musa-do-lixão. Que foi encontrada pela Giovanna Antonelli nas gravações de uma novela. A atriz se impressionou com a beleza da mulata, deu-lhe um banho de loja e a recomendou para uma agência de modelos. A Mega, uma das maiores agências do país, provavelmente mais interessada na repercussão do assunto na mídia e na possibilidade de aparecer com a fama temporária da mocinha, se apressou a oferecer contrato.

Depois disso, no entanto, a história mudou. Um ano depois de dividir elenco com Isabeli Fontana, Ana Hickmann e Caroline Bittencourt, Cristiane não se adaptou ao mundinho fashion: "Deixei a agência há duas semanas. Não convivo com falsidade, meu mundo é o da verdade, da sinceridade. Na frente das câmeras, o pessoal da agência falava maravilhas de mim, depois me desprezava."

Esse foi um dos motivos para a jovem de 24 anos abrir mão da carreira. "Para lourinhas de olhos azuis, ofereciam book e lipoaspiração, dizendo que depois descontavam dos ganhos. Para mim, nunca ofereceram nada. Fiz tudo com meu dinheiro. Trabalhei três meses para pagar meu book. Achei tudo muito preconceituoso".

O autor do blog, no entanto, finalizou o post afirmando que a moça "não deve ter desistido por preconceito do mercado", e sim "por falta da educação que nunca pode ter". Peraí, peraí. Eu perdi alguma coisa? Então a pessoa sofre preconceito racial porque não teve educação? Ou o fato de não ter traquejo social (segundo o-padrão-zona-sul-carioca) justifica o preconceito? Alguém explica?

Eu não estava lá pra saber se ela realmente foi preterida pelo fato de ser negra. Mas sinceramente? Eu (ao contrário da elite brasileira que só abre os olhos para os problemas que a afetam diretamente) CONHEÇO o país onde nasci. Onde não basta ser bom, tem que ser branco e bonito. Tem que ter nascido em boa família. Tem que ter "perfil", seja lá o que isso signifique. Minto: eu sei o que significa. Ter um endereço privilegiado. Ter cultura geral (formada em bons colégios pagos com o dinheiro do papai). Ser viajado. Ter um tipo físico que comprove que "não tem só gente preta e feia no Brasil". Ter auto-estima, muita. Chegar para a entrevista sorrindo um sorriso perfeito, estendo uma mão confiante, cheirando a perfume caro e vestindo boas griffes. Isso é "perfil". Ou você tem, ou você tem um subemprego - basicamente isso.

Então, achei absurdo uma pessoa que, assim como eu, NÃO ESTAVA LÁ pra saber o que realmente aconteceu com Cristiane nos bastidores, venha afirmar que ela não deu certo porque é uma bronca, mal educada e pobre. Não por ser negra, claro, porque afinal, a elite-branca-zona-sul acredita piamente que preconceito racial no Brasil é lenda. Afinal eles são tão bonzinhos para as suas empregadas pretas. Até deixam ela comer na mesa junto com a família. Ok, estou sendo amarga. Mas é de propósito. Ou não.

Uma das leitoras (carioca zona sul, needless to say) comentou lá: "o fato é: ela não se enquadra nesse mundo porque se acha inferior, e acaba fazendo com que todos pensem assim, cortando qualquer possibilidade de dar certo, ficará sempre infeliz e achando que os outros a estão olhando torto... você faz seu mundo, enquanto pensar pequeno, ele será!!!"

Tem razão, Tia. A senhora sabe mesmo das coisas, sabe até o que é FATO e o que não é. Então, a partir de amanhã TODOS os negros brasileiros, apesar dos anos e anos de discriminação racial, social e salarial, passarão a ter auto estima e todos os seus problemas acabarão. Como num passe de mágica, eles serão aceitos, amados e virarão padrão de beleza nacional.

Socorro. Madame embasando suas opiniões de Revista Cláudia com filosofia de boteco é de embrulhar o estômago.

Eu já falei das minhas experiências com racismo aqui, não vou repeti-las. E olha que eu não precisei vir de um lixão para isso. Conhecendo a superficialidade do mundinho fashion (e PRECISA fazer parte dele pra isso??) e observando que 99,9% das modelos brasileiras não representam a mulher brasileira - são todas sulistas, de sobrenome e ascendência européia, loiras, olhos azuis e esqueléticas... Bom, não fica difícil INTUIR que o discurso da Cristiane MUITO provavelmente procede.

Com as pessoas que ousaram discordar do absurdo da "conclusão" do moço, ele foi rude. Ou deixou que os comentários caíssem no vácuo. A maioria dos que se pronunciaram concordou com o dono do blog, é claro. Panelinha é panelinha, e se você não quer se indispor e/ou ser expulso, melhor fingir que concorda. Meu medo é que eles estejam concordando porque, de fato, concordam.

A seguir, um dos comments e a sua triste, vergonhosa resposta:

XXX disse...
"Rapaz, você não pode falar isso dela sem averiguar. Você não está na pele dela pra saber o que de fato a fez desistir. Pode ser verdade o que ela falou. Não é correto de sua parte dizer que ela perdeu a oportunidade "por falta da educação que nunca pôde ter". Ao invés de dizer que ela culpou quem tentou ajudá-la, deverias era dissertar sobre o fato de ela não ter a educação que deveria ter tido, culpa dos sucessivos governos que não investem na educação. Me senti indignado quando li este post."

YYY disse...
"Faça isso no seu blog, XXX. Culpe os governos e faça de coitadinhas essas garotas como ela. Direito seu ficar indignado. Ela não teve educação, e como toda pessoa assim, fala mal de quem tenta ajudar. Pobre de espírito, entende? Voltou pro lixão."

Estou seriamente na dúvida com relação a QUEM seria o pobre de espírito, aqui.
Ou melhor, não estou não.

E, quanto à Cristiane, melhor mesmo ter voltado pro lixão. Pelo menos lá o "lixo" é inanimado e não faz mal desde que ela trabalhe protegida. Não há proteção possível contra o LIXO HUMANO que Cristiane encontrou debaixo do tapete e atrás das portas do seu castelo de conto-de-fadas.

Um país cuja "elite" não enxerga ou admite seus problemas, nunca vai se livrar deles.
E não estou falando só do Brasil.

Sexta-feira, Setembro 23

Comer ou não comer, eis a questão

Marido em Kitzbuehl.
O dia em que ele for visitar um lugar cujo nome eu consiga pronunciar, prometo que vou junto.
Mesmo que meu nome não esteja na lista de convidados.

Depois que vim morar aqui, peguei aversãozinha leve a sotaque americano.
Não consigo ouvir as notícias sobre os furacões, aquela gente puxando os "r". Argh-ê. Quem me conhece sabe que sou sensível a sotaques. O carioca, por exemplo, é nojento, mas charmosinho. Sotaque paulista não é nojento, mas em compensação é jeca.

Faça um stalker feliz - responda a um comentário anônimo. (Marie LaStrange)
*suspiro*

Eu até gostaria de ser vegetariana. Não gosto muito de vegetais, é verdade. Tenho horror a alface, abobrinha e pepino. Abomino repolho, beterraba e quiabo. Não suporto a visão de um inhame, grito de medo de cenouras. Admitamos: fica difícil.

Suporto bem pimentões, tomate, couve (refogada), brócolis, couve-flor, abóbora, chuchu, berinjela... e batata. Amo batata. Frita, assada, cozida, amassadinha.

Gosto de carboidratos. Bolos. Massas. Arroz-feijão-batata-frita. Carne é legal, mas não tenho paixão. Sou do tipo que vai à churrascaria pensando na farofa, batata frita e feijãozinho. Dou vergonha em rodízio, no segundo round já estou satisfeita e peço o chapéu - desperdício de dinheiro.

Só que carboidratos me engordam. Me deixam inchada, com gases e infeliz. Não posso basear minha vida neles. E como eu não gosto muito de legumes, ia ser muito difícil passar também sem ovos e leite. Já que, se eu fosse virar vegetariana por amor aos animais, eu teria que abrir mão desses dois também. A menos que só comesse ovos free-range e bebesse leite de vaquinhas felizes e livres.

Aqui em casa a gente só compra ovos orgânicos. Não necessariamente em protesto contra a vida lastimável que as galinhas poedeiras têm nas granjas, mas porque obviamente galinhas que vivem livres, ciscando a terra, comendo minhocas e sendo felizes produzem ovos MUITO melhores e mais gostosos. Custam o dobro do preço (que aqui em Jersey já não é barato, duas vezes mais do que na big island), mas dane-se.

Vi isso postado no blog da Marina e me arrepiei:

Gay: O que eu mais gosto no javali são as presas, tenho talheres lindos!
Eu: Jamais comeria um javali.
Gay: Vocês podem acreditar que eu conheço uma mulher que nun-ca come coisas vivas?
Mulher esnobe: Então não come verduras.
(mania que certas pessoas têm de comparar alface com boi)
Eu: Mas é diferente, não é?
Gay: Eu fico tão impressionado, uma pessoa nun-ca comer carne!
Eu: Conheço várias pessoas que não comem, muitas. Eu nunca como no meu dia a dia mas confesso que infelizmente às vezes não resisto a uma picanha.*
Mulher esnobe: Eu não como saladas porque não gosto de capim.
Eu: Me sinto muito mal comendo bichos, sou da Sociedade Protetora dos Animais
Mulher esnobe: Não estou nem aí pros bichos, por mim podem matar todos. Estou me lixando pros protetores dos animais.

Socorro, né.

Eu como carne, me alivia a consciência pensar que estou no topo da cadeia alimentar e que assim é a vida. Só me questiono às vezes porque a) como eu posso mastigar um bicho que acho fofo, como porquinhos? e b) eu nem gosto tanto assim de carne. Aplaudo quem tem coragem de ser vegetariano, desde que não tentem me doutrinar. Odeio discursinho panfletário, não importa a causa. Acho que mudanças internas consideráveis (virar vegan, passar a tolerar negros e homossexuais, mudar de opinião sobre aborto, etc) vêm de DENTRO, são fruto de observação e auto-reflexão. Não é um idiota segurando uma plaquinha e gritando palavras de ordem que vai mudar o mundo.

Por isso acho legal a estratégia do Greenpeace, por exemplo. Eles não conversam, eles AGEM. Mas até pra isso tem limite. Alguns militantes perdem a linha, infernizam a vida de pessoas, cometem atos de vandalismo contra quem, na concepção deles, comete atos de crueldade contra animais.

Matar 150 minks pra fazer um casaco de pele e botar numa vitrine eu acho estúpido. Mas usar em estudos científicos para o desenvolvimento de remédios... eu não sei. Será que eles são *realmente* desnecessários? Dissecar cachorro em faculdade de Medicina é besteira - basta oferecer serviços veterinários a preços baixos à população carente da área, que logo vão aparecer mil casos de bichinhos que precisam ser operados de verdade - quer melhor chance de demonstrar procedimentos aos alunos do que essa? Mas não sei até que ponto vacinas e remédios de que dispomos hoje, e que aliviam a nossa dor e a de tantas pessoas, precisaram ou não ser testados em animais. Como não tenho a resposta certa a essa pergunta, prefiro não me posicionar.

E continuar roendo meu queijo.

Quinta-feira, Setembro 22

Druggie babe

Marido escafedido. Vou dormir três noites sozinha.
Dormir? Nah. Vou fazer a farra do boi. Cerveja, batata frita, bolo e chá pra Marie e as bonecas. Música alta (eis a vantagem de não ter vizinhos próximos), geral pulando no sofá (bonecas também), gritaria, euforia e muito carboidrato.

O fantasma do Dr. Atkins pode vir puxar o meu pé.
Se ele topar sair da dieta por três noites, está convidado pra festa também.

E a Kate Moss, hein... Nunca fui com a cara. Da mesma forma que nunca gostei da Giselle Bucho - acho um porre a simpatia forçada da nariguda. Com relação à Kate, eu não gostava da aparência anoréxica dela na época do "heroine chic". Acho um desserviço prestado ao sexo feminino subir numa passarela pesando 30 quilos, configurando um padrão esquelético de beleza para jovens mulheres (as idiotas e até mesmo as nem tanto).



Até porque isso NÃO É NECESSÁRIO, ninguém precisa aparentar desnutrição pra sair bem na foto. Aliás, um corpo magro porém saudável fica muito mais bonito dentro de qualquer roupa. Mostrar costelas nunca foi sexy. E mulheres magérrimas geralmente têm pés e pernas horríveis - assim como os da Kate.

Agora, jogar pro alto contratos milionários pelo prazer de cheirar uma carreirinha? Jogar uma carreira (uia!) de sucesso no lixo por causa de um barato? Que idiota. Que fosse cheirar no banheiro de casa, trancada e sozinha. Devia saber que poucas pessoas nesse "drug environment" em ela que circula são de fato confiáveis. Dividindo a mesma sala, a mocinha famosa, role-model das patricinhas britânicas, comendo pó com o nariz + o fotógrafo oportunista. Apenas um clique, uma foto pouco nítida de celular e pronto. Vai demorar muito pra ela limpar a imagem e reconquistar credibilidade - se é que vai conseguir.

Mais tarde abro o jornal e me deparo com um jornalistazinho querendo aparecer às custas do incidente. Correspondente britânico na América Central durante dois anos, o cara lamentou que drogadinhos de primeiro mundo como a Kate, seu namoradinho junkie Doherty e tantos outros que conhecemos, ajudam a financiar o tráfico nos países pobres, matando inocentes. Ok, tio. Agora conta uma novidade, vai...

Acho que a Kate tem todo o direito de se encharcar de drogas. Vai perder contratos e ficar mais pobre, mas a mancada foi dela e ninguém é obrigado a coadunar com isso. Porque as empresas também têm todo o direito de contratar quem seja adequado à imagem que elas pretendam passar - o dinheiro é delas. Segundo minha teoria boazinha, que dá a todo mundo o direito de fazer o que bem entende, por que não legalizar de uma vez, deixar em paz quem queira cheirar, injetar, fumar, comer com farinha...

Assim, se alguém tiver que se danar, perder trabalho, namorado, dinheiro, saúde, a vida, que sejam ELES, que optaram por essa vida espontaneamente, e não pessoas que nunca sequer chegaram perto de uma guimba de maconha na vida... A velhinha que é assaltada por um viciado no ponto de ônibus, o rapaz que é rendido e tem o carro levado na porta de casa, a criança que joga bola na favela e é baleada na guerra do tráfico, o pai-de-família que é morto durante um tiroteio no ônibus, a mãe que vê o filho se transformar num bandido para poder sustentar o vício.

Vendam heroína, cocaína, maconha e similares em saquinhos coloridos a um real na padaria. Tiro certeiro no coração do tráfico, lucro líquido revertido integralmente para financiar clínicas de reabilitação e campanhas de informação sobre os malefícios das drogas. "Ah, mas isso não funciona...". Reprimir também não está funcionando.

Outra coisa importante: esteriliza-me. Você é contra ou a favor de esterilizar animais? Impossível ser contra, tendo consciência do tamanho do problema e da crueldade que se pratica contra bichos sem lar. Leia, se informe, e for God's sake, mude de idéia.

Quarta-feira, Setembro 21

Então é natal

O postzinho polêmico anterior não tratava diretamente da questão citada e pouca gente entendeu isso. Mas valeu e muito a discussão, civilizada, sem ataques e xingamentos. Estou orgulhosíssima da minha friend list. O livejournal é mil vezes melhor que o Orkut. Aguardem mais posts polêmicos. :)

Marido vai se escafeder pra Áustria amanhã.
Festa oferecida por um cliente. E eu não fui convidada.
Nem eu, nem nenhum outro acompanhante. Hm, isso tá me cheirando a despedida de solteiro, HAHA.

Mas OK, estou puta porque não vou poder comer aqueles deliciosos doces austríacos.
Mas vou fazer a farra do boi de batata frita aqui em casa sozinha.

Coisas que ele me trouxe da Alemanha. Pedi coisinhas cafonas pra turista e olha o que ganhei:


Caixas de chocolate, uma "latinha de música" (que toca Die Berliner Luft"), muffins, um postal com um pedaço do Muro de Berlim, uma réplica de cartaz da antiga Alemanha.



É, o Muro. Me pergunto quanto mais tempo ele vai durar (ok, tem MUITO muro!).



Vaca "I LOVE YOU". Sim, óculos de coraçãozinho, awww.



Cartão que eu fiz pra ele nesse site aqui. Você cuida do design, eles imprimem e postam pra você. Recomendo (but it's UK only, sorry folks).



Presentinhos do fim-de-semana passado:
Smoke and Mirrors do Neil Gaiman. FODA.



E ISSO. O primeiro livro da série Sandman. Procurei isso feito doida, fiquei chateada quando soube que estava fora de catálogo - mas adivinha o que achamos na livraria da De Gruchy's? E ele comprou pra mim.



Eu estava reclamando por ter perdido a Tori aqui na Inglaterra, e ele me pergunta se eu já tinha o CD novo. "Ainda não", respondi - mas naquela tarde ele trouxe isso aí pra mim + uma camiseta do Led Zeppelin (1977 tour).



Ok, esse daí fui eu mesma que comprei. Nunca pensei que fosse pagar tanto na vida por um pedaço de pano - ok, é lã e cahsmere, mas foda-se. Eu precisava de algo quente e decente. Não é nada caro pros padrões britânicos, mas quando converto pra Reais eu piro. Bom, já era. Já paguei. Ainda bem que é aconchegante, confortável e lindo.


Sábado, Setembro 17

Two Tones

Tentei fazer o testezinho-do-dia-do-aniversário que todo mundo está fazendo.
Primeira linha: "you are inclined to work well with people and enjoy them."
Fechei o browser.

"Lembrei agora de uma outra modalidade que é muito comum nas entrevistas da Caras, de qualquer artista, modelo ou manequim que acabou de ter filho. Na vida real também é meio de praxe. "Quando olhei o bebê minha visão do mundo mudou". As frases mudam, uma letra aqui, outra ali, mas resumindo é isso. Eu cheguei a falar para a minha analista: "Eu acho que sou anormal. Porque quando meu filhos nasceram minha visão do mundo permanceu a mesma". Ao que ela respondeu "As pessoas mentem, Marina" - Marina W

Da próxima vez que eu ouvir alguém dizendo "aborto eu sou contra, é assassinato! tem que proibir, a não ser em caso de estupro", eu juro que tiro o saquinho de vômito do bolso e despejo meu café-da-manhã inteiro dentro. Afirmação leviana feita por pessoas que querem ter uma opinião mas se esqueceram de PENSAR antes para embasá-la.

Seguinte: quem é contra o aborto defende acima de *qualquer outra coisa* a vida do feto. Acima dos interesses da mãe ou de quem quer que seja. Contrariando essa lógica, então, um bebê concebido "com amor" (ou SEM, quem pode afirmar, não é mesmo?) tem direito à vida, e um bebê concebido através de um estupro deve ser morto? Por acaso ele teve CULPA de ter sido fruto de um ato violento?

Não quero enganar ninguém, mas o pequeno feto filhote-de-estuprador vai crescer na barriga da mamãe como qualquer outro bebê filhote-de-classe-média-que-paga-impostos. Se tudo correr bem, como felizmente acontece na maioria das vezes, ele terá dois bracinhos, duas perninhas, dois olhinhos, vai chorar quando nascer, aprender a sorrir e beijar bochechas e a escrever "mamãe, eu te amo" no cartãozinho de aniversário.

Não quero também minimizar o trauma das estupradas, nem obrigá-las a conviver com alguém que vai eternamente lembrá-las de algo que elas gostariam de jamais ter vivido. Apesar de eu conhecer uma pessoa que encarou a barra e hoje é apaixonada pela filha. Mas ninguém é obrigado a ser santo. Não quer criar o filhotinho-de-estuprador? Dê pra adoção assim que nascer. Mas, se aborto é "assassinato", não pretenda remediar as consequências de um crime cometendo OUTRO.

Sabe, é que tem horas que me cansa a beleza ouvir gente me chamando de "assassina" porque sou pró-escolha e ao mesmo tempo estufar o peito para emitir uma "opinião" que só mostra que eles não têm opinião alguma.

Dois: Outra coisa que me aborrece horrores: homem falando "saí com ela uma vez, mas o cabelo estava tão maltratado... mulher que não se cuida eu não tolero". Não comprem essa, garotas. Homem em geral não dá a mínima se o seu perfume é Dior ou desodorante de supermercado, se você passou na manicure antes do encontro ou se rói as unhas, se depilou as pernocas ou se é adepta do "porco-espinho-style". A menos, é claro, que se trate de um metrossexual. Desse tipo, no entanto, meninas devem fugir correndo. Quem quer um cara que vai demorar uma hora a mais pra se vestir do que nós, usar todo o nosso hidratante e estourar o limite do cartão do casal comprando roupas de grife? Acho que sofreria menos se meu marido chegasse em casa tarde por causa de uma amante, e muito mais se atrasasse porque estava na esteticista.

Quando conheci o Alaric, eu havia trabalhado o dia todo, verão, correndo de um lado a outro, banheiro do trabalho interditado. Não havia desodorante que segurasse tamanha barra. Eu estava cheirando mal sim, ele notou e eu, embaraçadíssima, tive que ouvir isso dele bem mais tarde... Ele contando às gargalhadas e eu sem saber onde meter a cara. Perguntei: "como foi que você encontrou motivação pra me ligar no dia seguinte??", e ele: "achei você legal, bonita, o papo estava agradabilíssimo, por que raios eu não ligaria??"

É mais ou menos isso. Se o cara gostou de você, pequenos detalhes estéticos não contam tanto assim. Isso é coisa de mulherzinha. Se ele te deu um pé na bunda e justificou pros amigos (ou pras reportagens da revista NOVA) que foi porque você "esqueceu de fazer as sobrancelhas", meu conselho é: esqueça as sobrancelhas e tente ser menos CHATA da próxima vez.

Pronto, desabafei.
Agora vou ali comer minhas madeleines e bater perna na rua.

Quinta-feira, Setembro 15

O Fabuloso Destino de Marie LaStrange

Layout novo. Menos pesado, mais amigável para com browsers alternativos.
Esqueci de comentar sobre Taunton. Na verdade, esqueci dos detalhes.
Sem fotos, no entanto. Estávamos com tanta pressa que a câmera passou o fim de semana descansando pacificamente no porta-luvas da van.

Acho que os dois anfitriões (vou evitar nomes aqui por razões óbvias) são boa gente. Mesmo. O maninho é brincalhão e bobo (embora ninguém consiga vencer o respectivo nesses quesitos). Sua esposa é animada, extrovertida e falante (meio curiosa, mas podia ser pior, não?). Os meninos são... bem. São meninos. E são dois. Muito novinhos pra se comportar mas nem tão novinhos para serem afetuosos. Levei três dias para fazer o mais velho me sorrir e o mais novo ousar me olhar na cara. Não que eu estivesse efetivamente tentando.

Mas eu preferia ter ficado em um hotel. Primeiro porque amo hotéis. Depois, pela privacidade (dormimos num sofá cama no escritório do maninho, com uma janela imensa que dava pros jardins). E por último porque, como hóspede, me sinto na obrigação moral de socializar. Jantar junto (quando eu preferiria estar me encharcando de bitter no pub local), conversinhas amenas sobre assuntos gerais, ser perguntada "qual é a população do Brasil?" e me sentir uma debilóide por não saber a resposta - corretamente dada pelo meu marido inglês... Consigo entender cerca de 70% do que está sendo dito(maninho e esposa falam rápido e com um certo sotaque), mas quando algo importante cai nos 30% ininteligíveis, me sinto uma criança retardada.

São boa gente, mas eu não escolheria passar tempo com eles.
Mas isso é porque eles são LEGAIS e eu sou BIZARRA.

Então me apareceram com essa mulher brasileira, há 18 anos na Inglaterra. Só atentei para a nacionalidade quando ela me pegou pelo braço e perguntou "como vai?" num português sem sotaque. Então ela se pôs a cacarejar feito galinha poedeira, o que a maioria dos brasileiros faz quando encontram conterrâneos no exterior. Não sinto mais tanta necessidade de falar português. Acho mais fácil, é verdade. Mas eu queria mesmo era me expressar em inglês fluentemente - não ligo pro sotaque, ele pode ficar, é parte do que eu sou. E eu me sinto estranha quando estou entre ingleses e brasileiros e esses últimos passam a falar apenas em português. Acho meio desrespeitoso. Mesmo que os gringos falem português o tempo todo no Brasil. Acho que nós brasileiros temos uma opção, eles não.

A tal mulher me deu email, telefone e anunciou que ia me ensinar a socializar com os ingleses... A cunhadinha me disse que ela tem mais amigos do que qualquer outra pessoa no mundo. Well... Muito gentil mesmo de sua parte, moça, mas acho que você bateu na porta errada. Socializar não está entre os meus projetos de vida. Nem no Brasil, nem aqui. Tenho amigos o bastante, não bastante tempo pra me dedicar a eles, e me sinto culpada. Mas você é legal, eu marco um ponto no seu caderninho. :)

Eu e o respectivo fomos à Ikea duas vezes. No café da loja, comemos aquelas deliciosas almôndegas suecas com um molho-dos-céus que eu não consegui identificar, e as melhores batatas fritas de todo o Reino Unido com um purêzinho doce de frutinhas vermelhas. Tão gostoso, como "comida de praça de alimentação de shopping", que eu adoro - cheia de sal, calorias vazias e apetitosas. Pena-que-não-tinha-coca-cola. Compramos uma cozinha inteira, linda com painéis brancos em tongue-and-grove. Uma cama de ferro fofa pro meu quarto rosa, guarda roupas diferentes pro closet, mesinhas de cabeceira, um monte de coisas pra cozinha, vasos, peças decorativas, pratos e copos... Muito mais barato do que em Jersey. Da Laura Ashley trouxemos cortinas, abajures, lustres, candelabro, almofadas... Na Homebase compramos luzes para as paredes, para o jardim e a frente da casa, ferros para prender as cortinas, torneiras...

A casa está virando realidade. A casa em que eu sempre sonhei viver. Móveis escuros, tapetes pesados e quentes, janelas sobre jardins bucólicos com vista para as chaminés distantes das velhas cottages de granito nas redondezas, um quarto só pra mim + minhas bonecas + papéis + inutilidades preciosas, um banheiro todo azul e branco com uma banheira antiga onde eu possa submergir nas tardes frias de inverno, silenciosa, longe do resto do mundo frenético, barulhento e mau, com um menino que me ama e compreende cada vão estranho, sombrio e desagradável da minha alma. E tudo isso na Inglaterra, land of my dreams.

Às vezes acho que é demais pra mim. E que vou morrer antes que essas coisas se realizem totalmente.
Não importa. O simples fato de pensar nesses pequenos prazeres + o que eu já tenho (ou seja, ELE) é o bastante para justificar minha existência até aqui.
Eu realmente não *preciso* viver muito mais, nem realizar muito mais.
ESSE é o meu momento.
E estou feliz de ainda ter meus olhos abertos para presenciar todas essas coisas e meu coração batendo para amá-las.

Segunda-feira, Setembro 12

back home

Chegamos de Taunton.
O ferry atrasou uma hora na ida e uma hora e MEIA hoje, na volta.
Esgotei meu estoque de musiquinhas escrotas para cantar mentalmente quando estou entediada.

Compramos exatamente toda a Ikea, toda a Laura Ashley e toda a Homebase.
A van foi pesada na volta e continha exatamente duas toneladas e meia a mais de carga.
Temos geladeira. Temos fogão. Temos cozinha, cortinas, luzes. Temos coisinhas fofas e coloridas e cheirosas.

Tenho também um corte na nuca causado por um moleque que me arremessou um carrinho de plástico na cabeça. Devia ter uns cinco, seis anos. E a força de um rinoceronte raivoso. E os pulmões mais poderosos do universo, porque gritou durante oito horas ininterruptas, ida e volta, sem que seus pais mexessem UM dedo para fazer com que ele calasse a boca e parasse de importunar os outros passageiros (que queriam dormir, que estavam cansados e estressados com a demora, que pagaram suas passagens e não mereciam ter seus tímpanos impiedosamente explodidos).

Nunca quis ter filhos, e a Inglaterra está acabando de enterrar qualquer resquício de instinto maternal que eu pudesse vir a desenvolver.
As crianças desse reino são simplesmente insuportáveis. Também, não se pode culpá-las. Se eu tivesse tido pais cuja vida revolvesse em torno do meu umbiguinho de lactente, eu também teria me transformado num pequeno anticristo tirano.

Eu podia falar horas sobre o assunto, mas vou me abster de fazê-lo porque tenho amigos e amigas que têm filhos e não quero aborrecer ninguém com a *minha* visão de mundo. Mas ninguém é obrigado a arcar com as consequências da inabilidade de certas pessoas de educar sua própria prole.

Depois eu reclamo mais.
A lista é grande.

Quarta-feira, Setembro 7

Reasons to love him

Ganhei ontem.


E não, eu não lembrava que estávamos fazendo aniversário de casamento.
Ok, mesversário.

Pelo visto eu vou esquecer todos os anos.
Curioso é que, quando estava com o ex, nunca esquecia. Mas também, ele repetia tanto a data que era impossível não lembrar. Até hoje sei: 5 de Maio.

Droga. Queria ter memória seletiva.

Estou me mandando pra Taunton hoje à noite, e de lá so saio no final do domingo. Vamos comprar coisas interessantes como fogão, geladeira, trilhos de cortina, luminárias de parede, abajur. E isso nem é a "melhor" parte. Vamos ficar hospedados com o mano dele + cunhada + dois pestinhas. Alguém avise que não, eu não ajudo na cozinha. Que não, eu não converso sobre fraldas. E não, eu não sou sociável e meu charme latino ainda está esperando pra nascer, assim como os meus dentes sisos.

Tem um pub a 200 metros da casa, no entanto. E que tem London Pride.
Nem tudo está perdido.

Quinta-feira, Setembro 1

vamos a la playa

La Corbière Lighthouse

Prosseguindo com a série "Conheça Jersey", eis as fotos do feriadão. As do domingo. As de segunda feira eu posto qualquer dia desses.

Resolvi que queria "ir à praia" (ver o mar seria uma descrição mais exata). Fomos a St. Ouen, que tem a maior praia de Jersey (St. Ouen's Bay). O pessoa costuma brincar que St. Ouen é o "fim do mundo", "longe" de tudo, o que não deixa de ser engraçado numa ilha tão pequena. Eu acho o lugar com uma cara meio "desértica", plano demais, extremamente exposto aos ventos oceânicos... Pessoas, VENTA HORRORES.

Bretões curtindo o veranico.



"oh, we do like to live beside the seaside..."



Outra vista, de onde se pode avistar o farol (La Corbière Lighthouse).



Aqui, chegando em St. Brelade, para visitar o farol. A gaivota já estava a postos, curtindo a vista...



Belo lugar pra namorar e/ou fazer piquenique.



O oceano nos concede algumas horas de maré baixa para que possamos brincar sem perigo. Nesse mesmo local, há mais de 100 anos, um dos antigos operadores do farol morreu tentando salvar um turista que havia "perdido a hora de voltar" e estava se afogando. Atualmente o farol emite um radar sonoro sempre que maré começa a subir, mas dispositivos como esse podem falhar, então recomenda-se ter CUIDADO. Os faróis não têm mais operadores, também - todos funcionam eletronicamente.

Quando eu cheguei, pelo menos, o mar estava acabando de deixar o caminho livre. A água é impressionantemente limpa, além de absurdamente fria. A partir desse ponto, a "terra à vista" mais próxima fica em outro continente - a América... :)

"Under the sea... under the sea..."



Chove aqui. Coisa boa.
Vou fazer mais FBs.