Estou dando um pause nessa coisinha aqui. Não por não ter o que escrever, mas por não querer escrever sobre o que eu teria pra escrever.
Às vezes é melhor esquecer.
Está oficialmente aberta a temporada de "Posts Antigos de Blogs Defuntos".
12 novembro 2003 - ficcionalEu estava de costas para um dos pilares do coreto. A tarde ia embora rápido demais, mas ia esquecendo acesas a luz das estrelas. O vento me dava tapinhas na cara, como se irado com a minha bobice. Ele estava ali, eu estava lá, nos braços dele, eu sentia a ponta dos seus dedos nas minhas costas. Minha boca a centímetros da pele do seu pescoço. E eu estava em pânico. Um pânico tão grande que eu não conseguia me lembrar de que devia estar feliz.
De repente os lábios dele desceram e tocaram a minha testa. Nem vou falar no efeito de descargas elétricas que isso causou, porque eu acho que é um clichê, mas são descargas elétricas, ora bolas... Não direi que foram cócegas em todas as células do meu corpo porque não foram. Ou melhor, foram também. Mas as descargas elétricas... Quem descreveu primeiro dessa forma o efeito do toque dos lábios do seu Deus Particular em sua testa, estava com a razão. E nunca será desmentido.
- Eu quero aquele beijo agora.
“Não, você não está dizendo isso”. Eu pensei enquanto sentia os lábios dele se moverem colados à minha pele. Frio na barriga, calor no peito, eu estava num estado de multi-temperaturas. O pé estava morno. A boca havia secado, desértica. Um rolo compressor me amassava os membros, eu não podia me mover, e meu cérebro tinha virado vitamina de banana. Que devia estar fervendo, pois minha cabeça derretia. Tive até medo de queimar os lábios dele que, sempre colados à minha pele, falavam coisas que eu não era mais capaz de ouvir. E eu tinha certeza que o meu coração batia tão forte que tamborilava no peito dele. E ele era um idiota se não percebia. Os braços que envolviam a minha cintura machucavam, desacostumada que eu sou de carinhos. Não, ele não pode estar me pedindo um beijo. Porque eu não posso negar, mas eu preciso negar.
- Eu não posso.
- Eu peço. Melhor, eu imploro.
Não implore. Mas ele não ouviu meu pensamento. Soltou meu corpo, tomou minhas mãos geladas-quentes e ajoelhou-se aos meus pés. E pediu teatralmente, sorriso nos lábios que estariam nos meus tão logo que eu permitisse, mas algo na respiração dele traía nervosismo. Eu estava aprendendo a ler a respiração dele, os sinais do seu corpo. Bom.
Só que não ia ter beijo. Ora Diabos, eu sou uma menina triste. Eu ouço músicas tristes em dias chuvosos, eu moro com uma avó rústica, eu passo tardes lendo Byron em cemitérios, eu não me lembro do rosto da minha mãe, eu troquei amigos por um diário e eu choro em comédias porque elas me lembram de que eu não sei rir. Meninas como eu não beijam na boca. Meninas como eu não recebem na boca outra língua que não seja a sua própria. Meninas como eu não deixam que apalpem seus seios. Meninas como eu não sentem “coisas”. Ok, eu sinto “coisas”, e eu continuo sendo EU apesar disso. Quem sabe se eu fizesse as outras coisas, não poderia continuar sendo EU, também?
Não. Não vale a pena arriscar. Eu não vou trair o “movimento das meninas tristes que não têm namorado”, nem o “movimento das meninas mal-amadas porque não podem amar”. Eu não vou cruzar a faixa. Não vou ultrapassar a linha amarela. Não vou dar uma reviravolta de não-sei-quantos graus na minha vida. Não cabem reviravoltas na minha vida. Só as que me jogam no chão. E ele não era o chão. Ele era o céu, o paraíso, o firmamento com luzinhas de estrelas histéricas faiscando. Em suma, ele era tudo o que eu não podia tocar.
Eu não vou destruir com um beijo real a mágica que é fantasiar beijos improváveis, noites a fio. Eu não vou trocar as noites que ardi enrodilhada num travesseiro fervendo de desejo por noites enroscada num homem que me fará sentir outra pessoa. Eu não sei se quero ser outra pessoa. Não sei se quero evoluir, feito um Pokémon. Eu não vou renegar meu lado loser. Até porque ele é o único que tenho.
- Era melhor que a gente fosse só amigos...
E ele se ergueu devagar. Ia me dizer alguma coisa crucial, mas eu nunca saberei o que era, pois idiotamente o interrompi com uma afirmação estúpida:
- Seus olhos estão tristes.
E estavam. Era como se alguma das múltiplas luzinhas que piscavam desde sempre dentro deles tivesse queimado, e em efeito cascata, todas as outras fossem se apagando. Isso. Havia um curto circuito dentro dos olhos dele. Sem incêndios farfalhantes, só o apagar melancólico das luzes que iam morrendo.
- Estranho. Eu estou sentindo uma bigorna dentro do peito. Meu coração está pesando mil toneladas.
“Sinal de que está cheio”, eu respondi. Nossa. Naquela tarde eu havia pedido para ser idiota e estava abusando da permissão.
- Não. Corações vazios é que pesam.
- Corações desafiam as leis da física? (burra, burra, burra, MORDA A LÍNGUA!)
E então ele sorriu. Mas eu podia jurar que não estava feliz.
- E existe ALGUMA lei a que eles obedeçam?
Eu não sei. Eu só obedeço às minhas.
Por mais estúpidas que elas possam parecer.