Fim de semana enoooorme, tão bom estar de volta.
Ver Jersey surgindo linda no meio do oceano, mas claro,
errar várias vezes antes e apontar Guernsey, Sark, Alderney, e até mesmo a costa da França dizendo "casa" com um ar retardado.
Me peguei pensando que essa talvez não fosse a casa para onde eu deveria estar voltando. No fundo, apesar de adorar a Inglaterra, continuo ligando minha idéia de "lar" ao quartinho azul de paredes sujas em Duque de Caxias. Na minha cabeça é pra ele que eu devia estar retornando. Pra caminha grudada na parede, o armário com estrelinhas-que-brilham-no-escuro coladas na porta. Pro barulho pacificador do ar condicionado. Pra mãe batendo na porta invariavelmente fechada. Pra minha bolha.
Here is not my bubble, penso que se trata de uma parada temporária, um pit stop. E que logo estarei desembarcando no Galeão, e que meu pai barrigudo vai estar lá se fazendo de durão e minha mãe aos prantos, e vamos entrar num táxi e descer em casa, na calçada onde a amendoeira gigante fincou-se no chão com ar de propriedade e se ergue projetando no jardim a sombra que não deixa as roseiras florescerem.

Quase adiamos a ida. Ele atolado de trabalho, ralou até às duas da manhã. Acordamos cedo, eu toda excited, de saco cheio de ficar enfurnada nessa maldita cottage a semana inteira. Tão a fim de me mandar pra Ilhona que ignorei o torcicolo que quase estragou a viagem. Eu estava literalmente imprestável na quinta feira, não conseguia ficar em pé, sentada ou deitada. O pescoço doído me transformou numa tetraplégica funcional. Enjoei no ferry, claro. E comecei lá mesmo a encher a cara de cerveja. Ganhei danish pastries pra comer de graça (bela merda, pagar assento vip pra ganhar essa mixaria) e almocei lasanha com pão de alho. A farra dos carboidratos (também conhecida como VÁ SE FODER, ATKINS) começava ali.

Desembarcamos em Poole e tocamos pra Olney. Umas quatro horas no carro. Notei que cada região da Inglaterra tem uma arquitetura própria (apesar de algumas cidades parecerem cemitérios de concreto), e isso é muito legal. O que dói nessas viagens são as estações de rádio. Mil horas aturando palhaçada de locutor metido a engraçadinho e meio segundo de música - quase sempre RUIM. Se eu quisesse ouvir onanismo verborrágico de comediante wannabe, ia pra Broadway. HANG THE DJ. Sorte eu ter à mão minha coleção de CDs de música brega do Daily Mail.

Fomos pra Olney, onde dormimos no Queen Hotel. Aliás, no Queen Hotel o cacete. A dona do muquifo (a típica inglesa antipática com sobrepeso e cara de quem tem sérios problemas de ordem sexual) disse que o hotel estava "full" (em OLNEY? morde aqui, vai...) e nos alojou num quarto dentro de uma indústria abandonada que acabou virando um conjunto de flats. Um calor dos diabos, a janela virada pra rua recebendo o sol escaldante da tarde e os olhares dos transeuntes. Fechei a cortina e praguejei, óbvio. À noite fomos pra um dos pubs locais (Two Brewers) onde enchemos a cara de novo e eu comi fish and chips. Arrout.
Next morning fomos fazer fotos no cemitério da Igreja de Olney e resolvi ligar pra
Alê. Ela veio me encontrar na
Ecurie Bertelli, onde tínhamos ido pegar os carros. Fiquei conhecendo os outros "bebês de metal" do noivo: o Pontiac e o Aston Martin International - além da Alê, é claro, que é uma fofa. :) Fomos passear em Milton Keynes e fui até à casa dela. Depois eu e o Alaric levamos os carros pra Donington e dormimos em outro hotel, BEM melhor que o Queens, chamado
Thistle e eu passei o fim de semana todo tentando pronunciar o nome dessa porra, sem sucesso. Fomos jantar em Belton, uma cidade próxima, com uma igreja linda e fodíssima de 800 aninhos de idade. Infelizmente nessa tarde/noite eu tinha deixado a câmera em casa. Retard.

Dia seguinte, corrida. Ele enfiou o macacão azul surrado na bolsa e eu fiquei apreensiva - sempre fico. Tínhamos convidado a Alê e marido, e eu estava lá, esperando pelos dois e assistindo à segunda corrida do dia, primeira em que ele ia correr com o Pontiac. Começou muito bem, um dos poucos amigos LEGAIS que ele tem estava lá cronometrando e me passando os resultados, animado com o desempenho do carro.
Mas depois da terceira volta, no entanto, o Pontiac não apareceu mais. Os veículos se repetiam, surgindo na pista, e nada dele. Comecei a panicar. O carro era rápido demais. Imagens do Alaric ensanguentado, aos pedaços na pista, começavam a dançar ciranda na minha mente. Gordon tentava me acalmar, dizendo que na certa o carro havia enguiçado, e que se algo de mais grave tivesse acontecido, eles teriam interrompido a corrida. Mas não havia espaço para ponderar o razoável, eu só queria saber se ele estava bem e porque diabos não traziam ele logo pra perto de mim.
A notícia que chegou em seguida era que o carro havia patinado na pista molhada (justo no sábado o tempo resolveu virar-se em merda) e ele havia batido no guard rail. Caralho. Me imaginei viúva, voltando pro Brasil e cometendo suicídio. Voltei pro estacionamento com o pessoal dele, que conversava animadamente e fazia piadinhas. E eu lá querendo morrer. Nessa hora chega a Alê e o marido e eu mal conseguia falar pra explicar a eles o que havia acontecido. Dali a minutos chega o Pontiac, trazido pelo guincho. Com a frente toda amassada. E NADA DO ALARIC. Fiquei procurando freneticamente por manchas de sangue no vidro e na lataria. Gordon disse que ele estava bem, fazendo a consulta de praxe (e obrigatória) no centro médico. Fomos andando até lá e no caminho as pessoas nos olhavam com ar interrogativo e preocupado. Eu pensava que, se ele estivesse vivo,
eu mesma iria matá-lo pra impedir que me desse sustos assim outra vez. Na metade do caminho o vejo vindo em nossa direção, risonho e pulante. Puta merda, que
alívio.
Foto aí embaixo, à tarde, eu mais calminha + Alessandra + Stuart, her hubby. As outras, onde a minha peruca está escorregando pra cima e por isso eu estou parecendo um ogro cabeçudo, no livejournal dela (aliás, estou roubando um pouquinho da sua bandwidth, viu? Obrigada! XD)
Ele participou ainda de mais duas corridas no dia, numa delas um bagulho do International quebrou, deixando o carro mais lento (adorei isso) e na última ele correu com o Pontiac todo amassado e cheio de fita adesiva preta pra colar o capô
Almoçamos de penetra numa festinha particular de um dos corredores, e no fim do dia rolou churrasco de grátis patrocinado pela AMOC (Aston Martin Owners Club). Dois porcos inteiros rodando no espeto, um monte de gatinhos (que eu NÃO HAVIA VISTO ANTES) enchendo a cara de cerveja, um frio dos infernos e eu mal aguentava ficar de pé na fila pra pegar minha carne + sausage + galinha + salada de batatas básica. Bebi duas pints por conta da casa e ainda encarei uma torta de morango e cream cheese na sequência. Começou a rolar música, umas luzes meio cabaré anos 70 e resolvemos sair fora de lá e ir terminar de encher a cara no bar do hotel cujo nome eu não sei falar direito.

No domingo, como ele havia cancelado as corridas daquele dia (iam terminar muito tarde) aproveitamos para visitar Woodstock, uma cidadezinha linda com cottages fantásticas. Pena que cheia de turistas. Entramos numa tea house e eu comi tanto bolo que fiquei até com vergonha da minha gulodice (fiquei porra nenhuma, a quem eu estou tentando enganar com esse discursinho de boa moça?). À tarde/noite fomos largar os carros na Ecurie Bertelli e ele ficou lá discutindo com o Andy o preço do conserto. Ugh.
Dormimos no Queen Hotel e no dia seguinte marchamos pra Bedford. Deixamos o carro com o Gordon, porque sim, vamos voltar pra Inglaterra depois do casamento, dia 06. Pegamos um trem pro aeroporto do Gatwick e desembarcamos na ilha numa tarde linda, ensolarada, como se nos dando as boas vindas. Fiquei meio azeda porque não chegou nenhuma das Blythes que eu estava esperando e me mandaram as Pinkys erradas.
As fotos dessa farra toda estão
aqui (qualquer dia desses eu as coloco num album decente, prometo!!)