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ABOUT.
Sexta-feira, Abril 29

(Post editado para remover erros imbecis, já que o Blogger está brincando de esconder, hoje. Puto.)
Marie e Alaric no restaurante. Eu boquiaberta com a simpatia e gentileza com que ele se dirige ao staff. Coisa rara de se ver no Brasil, onde na maioria dos casos funcionários e empregados são tratados como se o salário que recebem compensasse a arrogância e grosseria que recebem dos clientes.

Marie: A sua educação é um charme.
Alaric: Como assim?
Marie: "Muito obrigado" pra cá, "Por favor" pra lá, sempre sorrindo.
Alaric: Bem... a quem você acha que eles vão atender melhor? A um cliente chato e mal humorado ou a alguém que sorri, dá bom dia e agradece? Geralmente quem trabalha em lojas e restaurantes, trabalha duro e o dia todo de pé, e é sempre mais humano tratá-los com delicadeza e simpatia. E isso acaba se revertendo para o tipo de atendimento que você recebe deles.

Ele é um fofo, certo?

E volta hoje de Hannover. Não fui junto porque viagem de trabalho é um porre, e ele ia ficar hospedado na casa de amigos, numa cidade vizinha. Eu obviamente não ia visitar nenhum lugar interessante, e sim ficar enfiada em casa, tendo que ser sociável e simpática com a anfitriã, que está aprendendo a falar inglês. Já basta EU falando errado. E depois, eu não sei se tenho assunto para tratar com uma stay-at-home mum. Esse provavelmente será meu destino também, mas eu serei uma stay-at-home mum fora dos padrões convencionais (ouvirei Black Sabbath no volume dez, comprarei DVD de anime e terei mais brinquedos que os meus filhos). Papo de fralda, culinária e jardinagem passam longe.

Fiquei dois dias sozinha, enchendo os pulmões com o ar puro (e gelado), passeando no jardim (aka matagal) pisando a grama (aka mato) molhada e me dei conta do quanto adoro este lugar, do quanto estou feliz por ter me decidido a vir ficar com ele. Gosto do clima, do qual os nativos vivem reclamando. Da gritaria das gaivotas, até dos piolhos de madeira que passeiam pelo chão. Só falta buscar a Chantilly para completar o cenário idílico de uma vida feliz em família. :)

Ontem passei o dia sob casacos e comi uma caixa inteira de cocktail sausages com refrigerante diet de framboesa, cuja cor é algo assim, bem "desenho japonês":



Quando fui olhar a quantidade de carboidratos das sausages, paniquei: 1,5g por UNIDADE! Já que a dieta estava perdida, mesmo, abri garrafinhas de Stella Artois. O resultado hoje de manhã foi uma barriga roliça me dando bom dia, mas what the hell. A gente tem que viver, de vez em quando.

Ah, sim. Outra coisa a se agradecer aos céus e comer de joelhos, estando aqui:



O bom é que nem preciso lavar pratos, depois. Basta comer na latinha... :) E sim, acostumem-se. Gordo a-do-ra falar de comida.



Bacon + scrambled eggs para fechar o post "engordo-só-de-olhar". Bom fim de semana (e bom feriadão pra essas bandas).

Quarta-feira, Abril 27

Rápidas:
1. O blog ficou fora do ar por excesso de tráfego. Não, eu não tenho tantas visitas assim; o que aconteceu é que, no ano passado, eu salvei uma foto com o nome "fuck" (falta de criatividade + pressa), hospedei-a no Photobucket e a linkei num post aqui do blog suicida. O Google Images, no entanto, "achou" a imagem, e se você for até lá e digitar "fuck", essa foto é uma das primeiras que aparecem. Resultado: uma pequena legião de internet wankers vinha parar aqui no blog em busca de "mais fotos de fuck".

Legal, não? Tive que pagar mais ao servidor para o blog voltar. Valeu, Google. Eis a prova de que nada é perfeito - pelo menos uma vez na vida você, que já me livrou de impasses angustiantes, tinha que cagar comigo. Da próxima vez que clicarem numa imagem do Google, pessoas, saibam que podem estar comendo a bandwidth de um inocente. E, acima de tudo: jamais salvem fotos com nomes do tipo sex, pussy, fuck, arse, girls, etc. A internet está cheia de taradinhos de 12 a 120 anos que, na impossibilidade de comer outra coisa, come a sua banda. Eu disse BANDA. Obrigada.

2. Estou insossa e sem vontade de postar. Eu até gosto de gente Pollyana, que vê o lado bom das coisas, mas sinceramente há coisas que NÃO TÊM um lado bom, ponto final. Pagamos cinco mil dólares para a empresa de mudança trazer cacarecos do Brasil pra cá e a digníssima mocinha não é capaz de informar com exatidão quantos dias o navio leva pra aportar em Felixstowe. Imagino que ela já deva ter feito o itinerário Rio-Inglaterra mais vezes do que o necessário para ter essa informação na ponta da língua. No entanto, da primeira vez que perguntei eram 27 dias, e agora ela me informa que são 18. Outra: recebo vários emails pedindo coisas, fazendo requisições de documentos, mas em nenhum deles fui informada de que meus móveis e objetos pessoais AINDA estão no porto do Rio de Janeiro, e que de lá só sairão no dia 1º de Maio (que se não me engano é feriado). Tive que perguntar para saber - e será que vão sair nessa data mesmo? Não sei se é a minha "Síndrome Classe C" atacando, mas pelo menos pra mim cinco mil doletas é, tipo, MUITO dinheiro para que eu receba em troca um tratamento de quinta.

Comentando sobre isso com um dos principais interessados (meu noivo), sou gentilmente informada de que "é assim mesmo, não liga não", "ficar estressada não vai resolver as coisas". Eu não estava estressada. Estava em vias de; mas segurando bravamente a onda, em nome de pagar uma de "pessoa razoável". Pro cacete com a razão: depois desse papo "jogue o jogo do contente" eu agora ESTOU, oficialmente, estressada.

Estou sem photoshop e também sem um monte de coisas de uso pessoal que não caberiam na bagagem, e que eu sinceramente esperava receber no prazo. Podia ter ido pra internet e comprado tudo de novo por causa do atraso, mas sabe como é, vamos economizar o dinheiro do coitado. Mudei de idéia. Já que "estou me estressando à toa" e "é assim mesmo", vou agora abrir o sitezinho do Ebay e fazer a farra do boi.

Minha ambição é espalhar o pessimismo à minha volta, porque pessimistas sofrem menos e nunca são pegos de surpresa pelos acontecimentos. Você chega lá, meu querido.

3. E agora, para aliviar os ânimos: entre nesse site e passe a manhã inteira me xingando porque, com esse link, eu não deixei você trabalhar. Ou para as minhas leitoras expatriadas que morrem de saudade do Brasil (e do Rio de Janeiro, em particular), vão babar litros nesse blog aqui. Confesso que até EU fiquei com saudade, e porra, isso é uma GRANDE COISA.

Segunda-feira, Abril 25

A pedidos, fotos da casa aqui. Comi horrores e bebi à beça nesse weekend. Amo o hambúrguer gigante do Rozel Inn (meu pub preferido do mês), um dia eu conseguirei comer um inteiro, tenho fé. Adoro bitter beer. Adoro a Shepperd's Pie que ele fez ontem, e que não tive tempo de fotografar antes de esvaziar o tabuleiro. Só não adorei a chuva, que melou o meu domingo e me fez passar o dia todo enfiada em casa.

Sorte que eu tinha o que fazer. Comprei um bolo de aniversário e comi inteiro. Viva a Marks & Spencer:





Comprei uma casa de bonecas linda por uma relativa pechincha (acredite se quiser, isso ainda é possível por essas bandas) e fiquei igual à criança que sou, decorando os cômodos. Ele foi ver corrida de F1 e em seguida um daqueles documentários de guerra chatos. Ele, que adora tudo relativo a História e às guerras mundiais, atualmente divide o teto com uma pacifista alienada, que prefere ficar lendo aquelas seções do tipo "Fala que eu te escuto" das revistas femininas e rir histericamente de tópicos como "Minha filha é um vegetal, mas eu ainda a levo para fazer compras".

Estou assumindo a minha futilidade e isso é muito bom. Fico preocupada ao ver amigos dizendo que não sabem escrever e queriam ter um blog mais opinativo, culto... Querem mesmo? Ou será que esbarraram com um site desses por acaso, bateu um sentimento de inferioridade momentâneo e se perguntaram se estavam sendo fúteis demais? Eu gosto de blogs "de opinião", leio alguns – principalmente quando o estilo de quem o escreve me diverte. Há blogs opinativos divertidíssimos e outros muito sérios, pretensiosos e chatos. Eu, pessoalmente, não perderia meu tempo escrevendo um. Não faz parte do meu rol de interesses debater assuntos, seja lá quais forem.

Meu blog é meu diário, não é uma democracia (encarem o link para os comments como uma gentileza minha, não como um direito de vocês). Tem o propósito de deixar meus amigos a par do que me acontece sem que eu tenha que redigir 200 emails por semana “contando as novidades”, e para que eu saiba o que acontece com eles sem precisar receber 200 emails para isso. E só. Minhas opiniões existem, mas não sinto necessidade de estampá-las numa camiseta, escrevê-las na testa, andar com uma plaquinha, subir num caixote para gritá-las aos ventos. São minhas e certamente não interessariam muito a quem já tenha as suas próprias.

Semana que vem tem feriado bancário na segunda (é, inglês também tem feriadão, tá pensando o quê?). Ele sugeriu viagem, mas eu prefiro ficar por aqui, mesmo. Tem muita coisa nessa ilha que eu ainda não vi, muitos pubs e restaurantes para conhecer e re-visitar. Comprei sapatos para fazer caminhadas (os sapatos daqui são horríveis, esses que comprei parecem duas bolas de futebol enfiadas nos meus pés, absolutamente ENORMES) e vamos procurar uma boa trilha, se o clima e a temperatura ajudarem. Nunca pensei que fosse dizer isso na vida, mas... que venha o verão!

Sexta-feira, Abril 22
accent

O sotaque britânico não é foda como eu pensava.
Ou, pelo menos, nem tão foda (eu consigo entender as sitcoms inglesas; já as americanas...). Enfim. Ouvir um inglês falando "please", "fantastic" e "sorry" pode ser deveras nauseabundo, principalmente se o sotaque for londrino e a voz for de mulher.

Ontem assisti Eurotrash; pena que acaba rapidinho.
Por outro lado, não aguento mais ver programas sobre "crianças gordas tentando perder peso". Confesso que ver aquelas avalanches de banha em forma de meninos e meninas de 10, 12 anos (eles chegam a pesar 150 quilos com essa idade!) me assusta. Deviam era pôr os pais num cursinho para aprender a ter pulso com os próprios filhos. "Ah, eu compro chocolates e batata frita porque ele não come os vegetais...". Experimente deixar o filhote rotundo morrendo de fome por cinco dias (não temam, papais - ali tem banha pra sustentar um camelo cruzando o deserto, imagine se não sustentaria o seu obesinho sedentário?) para ver se ele não vai cair matando em cima de cenouras, brócolis e melancias... Se não cair matando, cai morto.

Não sei se aceito esse papo de "ah, eu não consigo". Eu era viciada em coca cola, pão, arroz, feijão, batata frita e biscoito. Passei três meses sem tocar nessas coisas, e dez quilos foram embora. Hoje eu eventualmente as como nos finais de semana.
Não é difícil. Basta um pouquinho de força de vontade.
Ou a ameaça de um ataque cardíaco, vocês escolhem.

Milky coffee!


Para evitar os carboidratos, você pode "fazer" leite a partir de creme de leite dissolvido em água morna. Como eu só uso um pouquinho de leite no café, uso o comum mesmo, que é muito mais gostoso. E lembram da abóbora que eu descasquei dia desses? Olha no que ela se transformou:


Couve-flor e vagem picadinhas (cozidas no leite) no fundo da fôrma. Em seguida uma camada de mackerel (um peixe conhecido no Brasil como cavalinha) defumado e desfiado, uma camada de cheddar ralado + uma de purê de abóbora + uma última camada generosa de cheddar. Forno até o queijo de cima começar a borbulhar, e pode comer de colher. :)

Agora bye porque hoje é dia da faxineira (nem sei o que ela vem fazer aqui, limpei a casa toda... Ah, sim - passar a roupa!) e eu tenho que me esconder debaixo da cama.

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Quarta-feira, Abril 20
my dear diary

A casa está um brinco e estou me sentindo útil.

Obrigada pelas dicas culinárias, meninas, mas paira sobre mim um grande problema: total, completo e irrestrito desinteresse por tudo o que diga respeito à cozinha. Tenho primas e amigas (e, por que não? PrimOs e amigOs também) que adoram dialogar com as panelas, fazer bolos, fritar batatas, experimentar receitas. Tudo isso sempre me causou um grande tédio. Culpa da mamãe, que mantinha a filha única afastada da cozinha, mas também falta de inclinação pessoal, já que não me lembro de alguma vez ter sentido a menor curiosidade pela alquimia dos alimentos. Questão de natureza, não me levem a mal nem me acusem de preguiçosa. Eu prefiro lavar a louça a fazer o almoço.

Ele é o oposto. Dá idéias, cria receitas instantâneas com o que tem na geladeira e realmente sabe como temperos reagem entre si, como infusionar a carne no vinho para amaciá-la, enfim. Leva jeito. Eu consigo me aborrecer com o simples ato de pôr a comida no prato. A cozinha pra mim nunca foi nada além de um corredor entre o quarto (onde eu vivo) e o banheiro (onde, a contragosto, preciso ir, às vezes). Ah, sim - na cozinha existe a geladeira, que só perde para o ar condicionado na minha lista de eletrodomésticos essenciais. Isso no Brasil, porque aqui o aquecedor virou top.

E, como o meu fotolog está sendo lentamente assassinado pela minha desmotivação (quem se importa com um bagulho que só atualiza quando quer e vive dando pau?), lá vai a sessão fotográfica de hoje aqui mesmo.

Computador. Agora só falta a mesa chegar:



Pimentões recheados. Os amarelos são quase doces.



Wallpapers by me:
O primeiro é uma foto feita atrás da casa, e o segundo é a vista da janela onde passo o dia nerdeando (as Pinkys me fazem companhia).





"Jardim" dos fundos.






Acabei de receber um telefonema do mal. Fui incumbida da tarefa de descascar, picar, ferver e amassar a metade de uma abóbora para o jantar dessa noite. Foi só falar e fui castigada pelas circunstâncias.
Coragem, garota - e aproveita pra pegar uma Cherryade Low Carb na geladeira.

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Segunda-feira, Abril 18
lerê lerê

A casa está uma bagunça. Ele faz todas aquelas comidas maravilhosas, mas obviamente a louça e a sujeira que ficam é comigo - mas não estou reclamando. Ele cozinha chilli e faz pipoca e não reclama da infantilidade implícita dos meus acessos de impaciência. Nunca vi alguém com tamanha vocação para a felicidade, com tanta inclinação para ser amável com as outras pessoas. Eu desconfio de todo mundo até que se provem decentes. Já ele adora todo mundo, distribui sorrisos, "thank you" e apertos de mão. No quesito vida social somos água e óleo.

Na maior parte do tempo enquanto ele estiver viajando, o meu menu será basicamente composto por comida enlatada, porque eu sou um fracasso na cozinha.
Mas não estou reclamando.


No sábado, pela primeira vez peguei um ônibus aqui na ilha. O sol brilhava, mas o vento gelado castigava a minha pele. Ele me ensinou a andar pela cidade (detalhe: já esqueci tudo), comi bolo com chocolate quente no restaurante da De Gruchy's (loja de departamentos), compramos legumes com o John no mercado central e muita carne no açougue. Abaixo, algumas mancadas arquitetônicas de Jersey (isso aí é um pub):




À noite fomos andando até Rozel, e a descida do Rozel Valley é a visão mais assustadoramente linda que já tive na vida. Paramos no Rozel Inn e comi um hambúrguer do meu tamanho. Na volta para casa tive uma crise histérica por causa do 1) vento frio cortante às onze e meia da noite, que transformou minha cara numa lixa esbranquiçada e 2) escuridão absoluta no vale e o medo de ser assaltada, estuprada, morta (uma vez brasileira, sempre com medo).

No domingo instalamos meu computador. Perto da janela, vista para a paisagem invernal do backyard. Estou sem photoshop, me virando com o JASC PSP, uma merda que tem lá suas vantagens. Tenho mil e quinhentas fotos pra redimensionar e postar, but I'm not in the mood right now.

Not in the mood
... Na verdade é a pia de louça (ainda não temos lavadora) que me aguarda.

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Quinta-feira, Abril 14
em casa.

Adiantando a volta, porque não sei se vou poder passar aqui amanhã.
Enfim. O avião não caiu. Aliás, foi um vôo ótimo, sem turbulências ou atrasos. O único probleminha foi o fato de que, ainda no Galeão, a Polícia Federal me convocou para abrir uma das malas. Acho que eles pensaram que meus pacotes de tintura para cabelo fossem cocaína, e a cara de DESAPONTADO que o policial fez ao constatar que aquilo não passava de "coisa de menina" foi impagável.

Aterrisamos em Heathrow sete minutos antes do horário previsto, mas tivemos que aguardar cerca de meia hora até que que o tráfego de aeronaves nos deixasse "estacionar".

Eu toda relax, achando que meu visto garantiria uma entrada sem problemas e o palhaço do oficial da Imigração me encheu o saco com um extenso questionário, tudo num sotaque francês (tinha que ser...) muito nojous. No fim das contas, ele deu um risinho e avisou que "só queria saber com certeza se eu tinha consciência que aquele visto ali só valia por seis meses, e que eu teria que me casar OU deixar o país naquele prazo". DUH.

É diferente chegar com o bilhete de volta comprado. Dessa vez não há retorno previsto para mim, e fiquei com a sensação de estar me exilando por vontade própria. A felicidade do Neném era contagiante, mas não o suficiente para me distanciar da cara de choro da minha mãe no aeroporto. Espero que meus pais fiquem bem. Não quero passar o resto da vida sentindo culpa por tê-los deixado para trás.

Jersey está linda, coberta pelos daffodils amarelos e brancos que anunciam a partida do inverno. Estamos alojados temporariamente na cottage, porque a casa principal está em obras. Odeio os pedreiros que passam o dia cantando. Não ponho a cara sequer na janela; eles devem achar que a "noiva brasileira" do Alaric é imaginária. Bem, nesse caso, devo ser uma espécie de alucinação coletiva, já que meu nome está em todos os cartões de Natal que ele recebeu dos amigos, esse ano. Achei bizarro. Fui recortada do cenário da minha vida original e colada no cenário da vida, dos amigos e da família de outra pessoa, a milhas de distância. E cá está meu nome escrito por caligrafias alienígenas de quem nunca sequer vi/ouvi falar. Acabei rindo, porque nada consegue me derrubar por mais do que dois ou três segundos.

Esse laptop destrói minhas costas, por isso não vou ficar online muito tempo. Lamento falta de visitas, emails não respondidos, mas sim, eu recebi todas as mensagens carinhosas de boa sorte, todos os SMS no celular, todos os cartõezinhos meigos. I love you all, obrigada por me provarem que ainda existe amizade desinteressada e que eu não estou sozinha aqui. Respondo tudo assim que meu próprio computador estiver instalado e meu celular parar de se comportar como um adolescente rebelde.


As roupas que deixei aqui, com ele, na minha última visita, encontrei geladas e meio úmidas; lavar todas. Achei uma barata na cottage e fiquei apavorada. Comi todo o cereal matinal dele de uma vez só e semana que vem recomeço a passar fome, em penitência. Compramos a anteninha wireless para ligar meu micro à rede aqui de casa e ele será montado nesse fim de semana. A casa está uma bagunça, como era de se esperar, e a pia NÃO mistura água quente e fria, então ou queimo meus dedos ou os congelo. Sinto falta do calor da Aga esquentando a cozinha, e só voltaremos a ter uma quando conseguirmos mudar para a casa principal, o que deverá acontecer daqui a uns mil e trezentos anos. Voltei a dormir com ele, acordar com ele, cantar com ele, cozinhar com ele (ok, vê-lo cozinhar seria uma descrição mais honesta), ouvir o "Oi! Amoreeeeenha!" quando ele chega do trabalho.
Estou feliz. Espero que signifique algo para vocês, porque para mim significa tudo.

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Sexta-feira, Abril 8
nada de importante.

I think it's kinda funny I think it's kinda sad
The dreams in which I'm dying are the best I've ever had

Não devia tentar escrever nada aqui hoje, não estou bem e serei seca. Mas precisava vir dizer que amanhã o comprador do micro vem buscá-lo, ele será, portanto, desligado e não vou aparecer por aqui até o fim da próxima semana. Sejam bonzinhos uns com os outros (mas não muito), não façam bagunça nos comments alheios, e só me mandem emails para o misstourette at yahoo dot com - os que forem para o suicidal poderão ser perdidos.

Dor-de-cabeça.



O melhor desenho animado EVER. Depois tem Caverna do Dragão, que eu queria MUITO que tivesse tido o final demoníaco que alguém inventou - na verdade Caverna do Dragão foi um projeto interrompido e seu final nunca foi escrito. Ok, tinha também Super Aventuras, que transformava fábulas chatas em episódios emocionantes.

Dia chato, desentendimento sério com a mãe. O velho clichê do "carinho não se impõe, se conquista" continua valendo. Minhas malas estão pesando mil quilos cada. das outras vezes, elas foram leves até demais. Agora parece que toda a minha expectativa se instalou dentro delas. Medo? Conscientemente, não. Mas é isso, daqui a três dias e algumas horas eu vou estar completa de novo, e não essa fração que aqui se encontra e que mal consegue juntar as palavras. Desculpem, e até a volta.

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Quinta-feira, Abril 7
nightmares.

Tenho tido sonhos bizarros.
No primeiro, tinha um aviãozinho de papel boiando numa poça d'água, e ele foi então sugado pelo bueiro da rua. Ontem sonhei com meus pais, e minha mãe me olhava fixamente dizendo "um dos três aqui vai morrer em breve". E então ela me dava dinheiro e eu ia comprar... carvão pra fazer churrasco. Significativo. E meu hobby agora é ficar buscando mais coincidências mórbidas, como o fato de que, se o avião cair, provavelmente será na decolagem e então eu terei morrido numa segunda feira, às duas e meia da tarde e enquanto rola na TV a reprise de uma novela do Manoel Carlos - exatamente como o meu padrasto.

E ao invés de pensar em mim, que estarei sendo fritada em meio às chamas, eu só consigo me comover pelas pessoas que ficam. O desespero da minha mãe e a tristeza do Alaric, ao voltar pra casa depois da trágica notícia e encontrar meus brinquedos nas caixas, e Blossom e Bluebell sentadas no sofá esperando a mãe que nunca vão conhecer.

E por falar na Bluebell, ela chegou ontem. E ele também.

E também ontem o carro do vizinho foi levado, bem na porta de casa. Tudo bem que o veículo estava no seguro, mas não há dinheiro que reembolse a "maravilhosa" sensação de se ter uma arma apontada para a sua cabeça. Ele podia ter morrido, inclusive. Contou que os bandidos gritavam o tempo todo que iam matá-lo. E muitos matam. É indigno dizer, mas dadas as circunstâncias, ele teve sorte.

Por isso eu me calo quando ouço pessoas que vivem fora dizendo morrer de saudade do lindo Rio de Janeiro. Até entendo. Mas quando lembro que lá em Jersey eu pendurava uma câmera de 400 libras no pescoço e saía sozinha fazendo fotos embrenhada no mato, aí sim eu sinto falta. Beleza nenhuma me faria ter saudades de viver num lugar onde eu me sentisse insegura.

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Terça-feira, Abril 5
Dollie Talk

Eu não lembro qual foi a minha primeira boneca, mas lembro com clareza qual foi a primeira que minha mãe fez pra mim.
Ela costurava algo em sua Singer 70's no começo dos 80's, e eu, 3 ou 4 anos, pendurada no gabinete da máquina, queria ver o que saía dali. Acabei machucando o dedo e, como toda criança, fiz um escândalo. Para me acalmar, minha mãe pegou um retalho do pano que estava costurando e fez uma espécie de "mini-almofada", com braços e pernas em forma de salsicha, tudo recheado de estopa macia. Pregou dois pequenos botões pretos no lugar dos olhos, outro maior e vermelho para fazer a boca e um punhado de sobras de lã virou cabelo. Pronto, lá estava a minha primeira boneca customizada; a primeira das muitas que minha mãe fez na vida. Parei de chorar e fui brincar toda feliz com meu monstrinho de trapo colorido.

Sempre adorei brinquedos em geral, especialmente bonecas. Tive várias Barbies, e elas sempre eram atrizes, modelos e empresárias de sucesso, com guarda-roupas fabulosos (tudo costurado pela minha mãe, que mais tarde me ensinou a arte de transformar retalhos de pano em roupas da moda). Nunca gostei muito de "bonecas bebê", apesar de ter tido algumas - falta de instinto maternal? Gostava era de comprar móveis, montar casinhas, criar histórias, personalidade e passado para as bonecas. Me recusava a acreditar que, só porque tinha mais de 10 anos, ou "ficado mocinha", fosse obrigada a fingir interesses que eu não tinha (namorado, roupa de marca, etc.) para não virar piada entre as amiguinhas. Sim, eu continuava pedindo bonecas no Natal e Aniversário, enquanto as "mini-adultas" queriam aparelhos eletrônicos e viagens (mas que depois ficavam babando nas minhas Barbies e que guardavam as suas escondidas no fundo do armário). Eu realmente gostava de bonecas, para mim sempre foram mais do que entretenimento de infância.

Tanto é que, tantos anos depois da minha primeira bruxinha de pano, feita com amor para me secar as lágrimas, eu continuo sendo fã dessas tentativas humanas de se repetir, se recriar em forma de vinil, pano, porcelana... de atingir a perfeição que nem sempre é possível em carne-e-osso. Minhas bonecas, para mim, são perfeitas.



Tranquilizei-me. As inquietações existenciais da semana passada se foram. A coisa menos sábia que se pode fazer é teorizar a respeito de relacionamentos e tentar projetar o futuro. Deixa rolar, Marie LaStrange.

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