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Quarta-feira, Março 30
tempo.

Lembrei que aquela calça que eu queria vestir hoje está dentro de uma caixa qualquer num depósito esperando pra ser enfiada num container e seguir atlântico afora.
Levaram tudo. Descobri que esqueci de pôr meus mangás nas caixas, bem como algumas fotos e CDs de software; eles vão ter que ser deixados aqui.
Estamos sem geladeira. Logo, EU, que só posso comer coisas perecíveis (carne, queijo, ovos, maionese), não tenho mais como me alimentar.
Não acho o chip inglês do meu celular.
Minha mãe está me pirando.
Eu não tenho assunto.

Terri Schiavo. Por favor, se você tiver problemas com esse tópico, pare de ler o post aqui. Obrigada.
Eu devo admitir que a lenga-lenga está me enchendo. Tive que parar de ver os noticiários, que tanto me interessam, porque cansei de ser bombardeada com a cara da moça, boca aberta, todo santo dia. O assunto diz respeito à família dela, e a quem estiver pagando pelo tratamento. E a mais ninguém. Os políticos escrotos, no entanto, resolveram montar um circo - assim eles podem se exibir no picadeiro e, de quebra, angariar votos dos simpatizantes de suas opiniões-que-ninguém-pediu. A "opinião pública" (sinônimo para desocupados-abelhudos) resolveu meter o dedo no meio, protestar, etc.

Todos os dias milhares de crianças morrem de fome em países pobres. E morrem conscientes, sentindo o estômago doer, vendo o próprio corpo definhar. Não dá ibope. Ninguém liga. Eu não me descabelo por elas. Você tambem não (e mesmo que se descabele, não faz nada pra ajudar, o que dá na mesma). E, nesse contexto, acho injusto, impróprio até, se descabelar pelo destino da Terri. Que nada vê, que nada sente, que não tem qualidade de vida e nem cura.

Não sou a favor da eutanásia. E nem contra. Eu prefiro não me envolver em discussões tão complexas, afinal elas não me dizem respeito até que algo do tipo venha eventualmente a acontecer na minha família. Aí sim eu terei condições de elaborar achismos e me posicionar, pois só então saberei como e SE dói desligar aparelhos. Até o presente momento, meu dever enquanto ser humano solidário é ficar calada.

O máximo que me permito opinar é que, independentemente de a vida dela valer meio centavo ou não, o Estado, os políticos, os manifestantes de merda devem sair de cena, e apenas os responsáveis por ela devem decidir o que querem - e podem - fazer. Porque, qualquer que tenha sido o desejo da Terri, isso agora não importa. Chato, mas agora a moça não passa de um Tamagoshi gigante. Cabe aos donos do brinquedo (e não a mim, nem a você) decidirem se vale a pena continuar a alimentá-lo, ou não.

Mas, nesse particular caso, não se pode acusar os americanos de burrice ou falta de bom-humor. Sim, Terri Schiavo tem um blog. E gostava de chocar pessoas em boate com seus passinhos de dança. Ah, você pegou o bonde andando e não sabe do que se trata? Leia um resuminho da história aqui. Favor NÃO CLICAR nos links se você for politicamente correto, não gosta de "sick jokes" e se acha que é de mau gosto "brincar com a desgraça alheia". Comentários raivosos serão ignorados. Obrigada.

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Terça-feira, Março 29
i should keep it down.

Sete e meia da manhã sou acordada pelo pessoal da mudança. Tenho dormido mal, e acordar com minha mãe socando a porta do quarto para avisar que "os caras chegaram" destrói os meus nervos.

Na maior parte do tempo, sou uma pessoa doentiamente calma. O mundo acabando-se em lava à minha volta, e eu tomando sorvete. Duas coisas, porém, me tiram do sério: coisas que dão errado repetidamente e sem explicação (nesse caso preciso quebrar algo para me acalmar) e pessoas que reclamam de tudo o tempo TODO (quebrar algo também resolve, mas só se for na cabeça de quem está reclamando). Eis o caso da minha mãe. Não está sendo fácil tirar a cabeça dela da mira.


Eu estou triste. Não por conta da mudança de país, e blablabla. Não tenho identificação com Brasil, nunca tive. Não gosto de sol, praia, samba, carnaval, futebol. Cerveja, eu prefiro a de lá. Não tenho muitos amigos a deixar pra trás. Minha família, honestamente, já deu. Eu não me grudo emocionalmente a pedaços de terra. Seria feliz aqui, na Patagônia, na Cochinchina, no Zimbabwe, em Luxemburgo. O problema é interno. Entre eu e ele. Estou chateada e com medo de estar descobrindo nele, a essa altura do campeonato, características que podem vir a torná-lo incompatível comigo. Nada grave, nenhuma falha de caráter. Aliás, pode até ser considerado virtude... para os outros. Para mim, que sou esquisita (ou nem tanto), é motivo de discórdia. Por isso acho que estou precipitando coisas, que não é hora de pegar vôo nem de levar tudo o que tenho para lá, só pra descobrir, dois meses depois, que fiz bobagem e ter que encaixotar tudo novamente (e pagar fortunas) para trazer de volta.

Todos os móveis foram embalados ontem. Em pequenas caixas, meus bens pessoais. Livros, roupas, meus queridos sapatos, velhos brinquedos, minhas agendas de uma vida toda. Eu estava tão feliz por ter a oportunidade de levar comigo todas essas coisinhas preciosas de um passado feliz (ou nem tanto, who cares). Agora, olho ao redor e sinto uma vontade enorme de voltar com tudo pra dentro das gavetas.

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Domingo, Março 20
chauvinismo.

Gozado ler nas revistas femininas esses "guias para mulheres casadas prenderem seus maridos". A impressão que fica é que a responsabilidade é toda nossa. Que eles são pássaros presos a contragosto numa gaiola dourada, e que passam a vida tentando achar uma brecha por entre as grades e escapar. E que nós temos que ser perfeitas, ter cabelos divinos, pele de pêssego, corpo em forma, conversa interessante na sala, delícias na mesa e criatividade na cama. Do contrário os príncipes se entediam, devolvem o beijo que os livrou da condição de sapos e saem pulando de volta por aí.

Não vejo matérias do tipo "aprenda a segurar sua esposa" na Playboy, na VIP... Sintomático? Será que para a mulher basta ter um marido para que ela dê graças a Deus por ter desencalhado, não importa a porcaria que ele seja?

Na Claudia a dica era trancar a porta ao entrar no banheiro e ligar as torneiras, porque "ninguém precisa ficar sabendo o que se está fazendo lá dentro". Ou seja, em outras palavras, as mulheres devem passar a impressão de que não peidam, não mijam e não cagam. Ora, vamos... O marido vai ouvir as torneiras ligadas todo aquele tempo e achar que estou tentando tomar banho de banheira na pia. Um amigo meu disse que a esposa jogava vários pedaços de papel higiênico na privada, para "abafar" o som do cocô caindo na água. Um dia, o vaso entupiu. Ele: "Porra, você come como todo mundo, será que dava pra você também assumir que caga?". Resultado: ela parou de usar a suíte e foi fazer as necessidades fisiológicas no banheiro da empregada. Mas assumir para o marido que fazia cocô, NUNCA.

Eu acho que trocar absorvente na frente do respectivo é desnecessário. Assim como fazer o nº2 enquanto ele faz a barba. Mas vamos combinar: apelar para subterfúgios estúpidos para fingir que cocô e xixi são coisas que não fazem parte da sua realidade de mocinha-rosinha-cheirosa é meio patético.

Já na Nova havia uma matéria sobre produtos de beleza. Kits de creminhos, para todos os gostos e bolsos, para a mulher moderna usar na viagem de férias com o namorado. Num deles, a maior vantagem do kit era ter "apenas" quatro potinhos. "Ele vai adorar esse kit, pois com apenas QUATRO produtos para aplicar antes de dormir, em apenas ALGUNS minutos você vai estar na cama ao lado dele".

É. Ela disse quatro. E eu me senti a criatura mais desleixada do mundo porque uso apenas UM, hidratante barato, e só quando lembro. E, confesso, muito mais pelo cheiro do que pelas propriedades emolientes. E aí me perguntei quantos cremes o tal namorado que estava lá, esperando na cama, tinha usado. Provavelmente nenhum. Homem pode ter pele áspera? A pele feminina fica áspera sem 1725302 cremes diários? E se ficar, será que eles têm o direito de reclamar ou nos chamar de desleixadas?

Lavar, passar, cozinhar, trabalhar fora, cuidar do cabelo, da pele do rosto, do corpo, das unhas, dos pés, das mãos, limpar/hidratar/tonificar/nutrir duas vezes por dia, beber 2 litros de água, fazer dieta dos pontos e contar tudo o que se come, fazer exercícios, dar atenção aos filhos, levantar de madrugada para amamentar, ter cólica menstrual, ser a total responsável pela contracepção (e aguentar as consequências caso ela falhe), celulite, estrias, câncer de mama, engravidar, parir, aturar competiçãozinha feminina, estar sempre bonita sem falhar um só dia, ser boa de cama para não ser traída (e se for, não fazer escândalo), não dar pra todo mundo para não virar galinha, dar para alguém para não virar encalhada, não falar palavrão nem beber demais (porque não é muito "feminino") e, no meio disso tudo, achar tempo para ser ela mesma e fazer o que gosta, e não somente o que precisa.

Se eu não gostasse tanto de homem, viria em versão testosterona na próxima encarnação.

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Sexta-feira, Março 18
gentalha.

Visto na mão, vôo confirmado, segunda-feira, 11 de Abril, 14:35h.

Coisas a fazer, muitas coisas:
01) Reconhecer firma, providenciar declaração e tirar as xerox;
02) Providenciar a papelada da mudança o mais rápido possível;
03) Empacotar todas as coisas que vão seguir via marítima;
04) Deixar bagagem de mão organizada;
05) Comprar as coisas que preciso levar porque nunca acho lá;
06) Limpeza de pele e depilação (porque lá é caro e ruim);
07) Vender toda a tralha inútil no Mercado Livre;
08) Ir ao consulado francês me informar sobre vistos;
09) Vacinar a Chantilly e pegar os comprovantes;
10) Dizer adeus.



Ontem à noite no supermercado, com a mãe. A mulher da frente quer passar 14 produtos no caixa rápido onde só podem passar dez. Dona Maria dá uma reclamada em voz baixa, e a tal mulher já se altera. Eu puxo a mãe pro lado: "Fica quieta... Não está vendo que ela ou é pobre ou tem espírito de? Não convém arrumar confusão com esse tipo de pessoa". Mamãe fechou a cara, mas segundos depois me deu razão quando outra senhora reclamou e a mulher então "se espalhou toda", rodou aquela baiana cujo know-how só gentalha possui. Eu bem que avisei.

Não tenho berço. Não nasci lady com sobrenome estrangeiro em Ipanema. Nasci na Baixada Fluminense, moro "mal" segundo certas concepções, mas aprendi sozinha (sim, porque meus pais são barraqueiros) a cultivar a fleuma. Nem sempre inabalável; já dei algumas mancadas, mas tenho o firme propósito de aprender com os meus erros e evitar descer do salto. Dá até pra falar palavrão perder o charme. Classe vem de berço ou do esforço. Mas pessoas como aquela mulher do supermercado nunca vão aprender.

Pena pra ela. Porque gritaria, lavação pública de roupa suja, nervos exaltados e afins nunca levaram ninguém longe. Só trazem stress, isolamento e má fama. Paguei as compras, sorri para a atendente e saí assobiando "Some Girls are Bigger than Others".

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Quinta-feira, Março 17
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

MEU VISTO SAIU!

Tô indo pegar agora.
Viajo em três semanas.
Sou o jerimum mais feliz do mundo.

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Quarta-feira, Março 16
Várias coisas.

A conta da mudança chegou ontem: um valor X, pra levar até a Inglaterra, ou o DOBRO até Jersey. Ficaremos com a primeira opção e vamos usar o caminhão dele pra levar os móveis e demais badulaques do porto de Felixstowe, na Inglaterra, até a ilha. Vamos enfiar a muamba toda dentro do caminhão, enfiar o caminhão num ferry e aturar 4 horas de navio até o porto de Jersey. Espero que dê pra fazer isso sem ter rolo com a alfândega.

A idéia de levar meu PC comigo mixou. São 600 dólares para transportar até 100kg via áerea, e com esse dinheiro eu compro um computador novo por lá, com garantia e compatível com a voltagem inglesa. Por que eu queria levar meu micro? Porque ele é novo, muito bom, o monitor é maravilhoso e o teclado é em português. Mas nesse caso os contras pesaram mais que os prós. Vou vender o micro e levar só o HD.

Vou precisar também tirar xerox autenticadas de TODAS as páginas do meu passaporte e de mais uma pá de documentos. Isso vai sair caro, já que UMA xerox autenticada está pela casa dos três reais. E depois não sei como farei isso, porque meu passaporte está preso no consulado, junto com o resto da papelada do visto. Ai, ai. A temporada de stress pré-mudança está oficialmente aberta.

Acho que estou desenvolvendo uma síndrome do pânico versão light. Não aguento mais sair de casa, estar no meio da multidão. Barulho, então... Ontem quase tive um ataque porque a porta do ônibus rangia assustadoramente, e eu estava sentada bem perto. Thaísa me chamou de fresca, e eu quase a chutei para fora da condução pela janela. Só me sinto bem em casa, de preferência sozinha e trancada no quarto. Mas terapia eu não faço.

Os gatinhos continuam aqui. Consegui casa para um, os outros três estão brincando lá no quintal. Dois deles se acidentaram e se recuperaram rapidamente. Eu tenho oferta de lar para um deles, minha mãe vai ficar com outro. Sobra um. Estive pensando em levá-lo comigo na mudança, mas estou quase desistindo de levar a Chantilly, tamanha é a dificuldade. Houve gente na internet que se ofereceu para ajudar mas que acabou desistindo. Minha casa não é abrigo de gatos, infelizmente não tenho espaço nem autonomia para isso (o imóvel é da minha mãe e não muito grande). Agora, depois de mais de um mês de carinho e gasto com ração e remédios, não posso simplesmente colocá-los de volta na rua. Chato, mas da próxima vez que eu ver um bichinho abandonado, vou fechar os olhos, engolir a tristeza profunda que isso me causa e fingir que não vi nada.

Porque aqueles que são contra a castração acham muito lindo deixar o bichinho "transar e ser feliz" (como se os animais copulassem porque "é gostoso" e não por instinto...), mas quando vêem filhotes abandonados na rua, olham para o outro lado ou mudam de calçada. São as mesmas pessoas que preferem entupir o animal de hormônios cancerígenos para que não procriem, porque acham que a castração é uma "violência" (violência é ter que sacrificar o bicho mais tarde por causa do câncer). Ou então as que dizem que o animal muda de personalidade. Bem, a minha não mudou na-da, mas ainda que tivesse ficado mais quietinha e caseira, isso ainda seria melhor do que escapar para a rua durante o cio e acabar atropelada ou perdida (fora aqueles que se atiram do oitavo andar). E, uma vez na rua, procriar e abandonar mais filhotes, num círculo vicioso infinito, que teria sido evitado com uma micro incisão cirúrgica - que nos machos nem precisa de anestésico.

Só quem sente o peito fechar ao ver um cachorro sarnento e famélico abandonado no sol, sem água e comida, ao ouvir um gatinho ainda não desmamado miar de fome, sabe que a castração é um "mal" necessário.

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Domingo, Março 13
geografia.

- Alô?
- Oi, aqui é a XXXXXX da empresa YYYYYY... Você poderia me informar novamente qual o destino da sua mudança? É que eu não estou conseguindo localizar, no mapa...

Tudo bem que Jersey não é nenhuma Rússia, mas só existem cinco ilhas no canal, e Jersey é a maior delas.



Fizeram uma pesquisa "nas europa" para saber "que música você gostaria que tocasse no seu velório?". Resultados: 1) The Show Must Go On, do Queen (tremenda cafonice, vamos combinar); 2) Stairway to Heaven, Led Zeppelin (aêêêê!!!) e por fim 3) Highway to Hell, do AC/DC (não conheço e nem pretendo, já que eu simplesmente abomino a voz de "pato donald resfriado" do vocalista dessa banda). Aqui no Brasil deu Encontros e Despedidas, cantada pela cafoninha da Maria Rita, filha da Elis. Não por acaso, tema de abertura da novela Senhora do Destino, que esteve no ar até ontem à noite. Arre.

Eu deixaria o The Final Cut do Pink Floyd tocando inteiro, com direito a repeat, até encher o saco dos presentes e forçá-los a me enterrar antes da hora prevista para acabar com aquela tortura. E vocês, que disco ou música faria sucesso em seus respectivos enterros? Hã? Mórbida, eu? Fala sério... ;o)

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Sexta-feira, Março 11
loo.






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Quarta-feira, Março 9
1 ano.

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Terça-feira, Março 8
women's day.



Que bonitinho. Muito obrigada!

Ele não se lembrou do dia 8 de Março. Pra ser honesta, nem eu - foi só o abraço da minha mãe na cozinha que fez a ficha cair. Acho que na Inglaterra as mulheres já não "precisam" mais de um dia delas, e nem devem gostar muito do significado meio paternalista dessa data, já que saem no tapa para se equiparar à homarada - e estão sem dúvida um passo à frente das brasileiras, nesse aspecto. Talvez os homens de lá estejam meio assustados com as poderosas executivas bretãs, e daqui a pouco vão ser eles a precisar de um "Dia dos Homens". :o)

Sempre que ouço um inglês reclamando das conterrâneas, lembro do Nomarriage.com, um dos sites mais hilários que já vi nos últimos tempos, e que deixou as feministas meio putas da vida. Ora bolas, esse povo não tem senso de humor? Eu rolei de rir no carpete, mostrei pro Alaric que ficou tão abismado com as descrições que não desgrudou do laptop até ler o site de cabo a rabo. Concordou com praticamente tudo. A mesma coisa se dá com alguns meninos do Brasil (atenção: não estou generalizando nem as inglesas e nem os brasileiros). Outro dia li um blog onde um camarada, bem longe dos padrões de beleza, se queixava de que a namorada tinha ganho uns "três quilos" e fazia altas críticas às mulheres que "descuidam da aparência" quando arrumam namorado fixo. Claro, a barriga de chopp proeminente que ele próprio ostentava não foi posta em discussão.

Certa vez fui falar disso aqui, um dos meus leitores homens ficou furioso, escreveu um discurso pró-macho-latino nos comments e sumiu. Oh well. Fica parecendo que enfiei o dedo na ferida... Antes de atacar quem acusa os brasileiros de fúteis, não é melhor fazer um mea culpa antes e tentar se perguntar por que será que todas as mulheres reclamam? Acho os ingleses mais democráticos com relação à beleza feminina. Aqui, uma atriz cinco quilos acima do peso tem que ir correndo pra clínica do Dr. Serfaty senão perde o papel na novela (a Karla, do BBB, ganhou uns quilos na casa e já virou motivo de chacota).

Lá, uma gordinha como Nigella Lawson é símbolo sexual.

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Domingo, Março 6
sobre mães e filhos.

Mais da metade dos meus questionamentos quanto à maternidade vem do fato de que eu não agüento a minha própria mãe. Nossa relação, que era boa na infância, veio se deteriorando desde a adolescência. Normal, aborrescente é um porre mesmo e contesta tudo, até aquilo a que nem cabe contestação. Mas os primeiros fios brancos já me nasceram e eu prossigo batendo portas na cara dela e gritando pela casa, como se os hormônios dos 14 anos continuassem dando festa aqui dentro.

Não saberia esperar amor incondicional nem paciência de um filho, porque não tenho nenhuma dessas coisas para dar à minha mãe. Não entendo como uma pessoa que pode levar uma vida tranquila escolhe se martirizar a troco de porra nenhuma. Ela passa o dia inteiro reclamando. O dia inteiro. De mim, do meu pai, da falta de grana, dos gatos, das "amigas", da casa que dá muito trabalho... Vive fazendo pelos outros o que ninguém pediu que ela fizesse, e depois reclama de ter feito. Diz uma coisa, cinco minutos depois diz outra e se aborrece quando apontamos a contradição. Não posso chegar perto um só minuto sem que a metralhadora giratória de reclamações dispare apontada para a minha testa. E quando digo que é injustiça, ela reclama mais ainda. Aí eu perco a paciência e é quando ela se faz de vítima. ODEIO coitadinhos artificiais. Gente que cava a própria cova, se deita nela e depois acha ruim quando lhe jogam a primeira pá de areia em cima.

Eu disse e repito: não sou generosa. Com pessoa alguma. Nem com meu noivo, nem com meus pais, nem com meus "amigos" (na improvável hipótese de eu ter algum). Ensaiei uma mudança de atitude com o ex-namorado, a quem dei a mão e ele retribuiu com um puxão no braço, quase me levando junto para o buraco onde ele se encontra. Aprendida a lição, hoje em dia só quero saber de mim. Amigos de carne e osso ou de internet só me procuram quando esgotaram todos as outras possibilidades de companhia. E eu acho isso ótimo, porque me livra de toda e qualquer obrigação que eu possa ter com eles. Amiguinho é o meu unicórnio de pelúcia. Ou, como já dizia a D. Anita, velha vizinha já falecida, amigo é o meu c..., que atura literalmente todas as minhas cagadas e mesmo assim está sempre do meu lado.

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Sexta-feira, Março 4
feliz cumpleanos.

Esse blog está fazendo aniversário, hoje. Batam palminhas, por favor.
Mas baixo, porque ele só tem um aninho, acabou de mamar e agora vai dormir.

Eu até podia tentar escrever um texto emocionante sobre isso. Sobre o quanto minha vida mudou desde aquele 4 de Março de 2004. De como eu voltei a escrever motivada por uma desesperança e desencanto pela vida que não queriam mais ficar confinados à minha garganta. Não o farei, mas isso não significa que eu queira esquecer esse período negro. Eu quero tê-lo sempre à mão na minha gaveta de memórias cruciais, para que nunca mais esqueça de que, por pior que uma fase pareça, ela tem grandes chances de não ser eterna. De que há vantagens em se estar no fundo do poço: dali não há mais como descer, o único caminho possível é para cima. De que sim, raios caem duas vezes no mesmo lugar, e que sim, é possível ter-se dado inteiro, ter sido tomado inteiro, se refazer a partir do NADA e voltar a se dar, completo, mais uma vez.

Mas eu não vou escrever nada disso, não. A pessoa que começou esse diário online (pela 53428304 desde que criou o primeiro em 2001, que durou menos de duas semanas e foi sucedido por 5 outros, todos exterminados) não existe mais. Ainda bem. Porque a pessoa que escreve aqui hoje aprendeu que para viver é preciso relativizar sempre. E isso tem feito a experiência dela nesse planeta incrivelmente menos traumática e muito mais feliz. Você devia experimentar.

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Quinta-feira, Março 3
umbigo.

Ele vai pra Londres, hoje, e eu sempre ficou nervosa quando ele tem que pegar avião. Como ele viaja quase toda semana, acho que vou passar o resto da vida roendo unhas. E o pior é que minhas unhas são duras.
Vou perder os dentes cedo.

Eu não sou das pessoas mais generosas e dedicadas do planeta.
Nunca consegui criar Tamagoshis. Tive saco para duas tentativas, apenas; as duas resultando na morte do bicho (como morreram, fiquei sem saber se iam virar gatinho ou dinossauro). Não tenho saco nem pra cuidar de celular. Volta e meia surpreendo o meu sem bateria, ou o deixo em casa como se fosse parte da decoração. Simplesmente não consigo ter em mente que devo cuidar dessa ou daquela coisa, lembrar de recarregar, de regar as plantinhas, de renovar a água na vasilha da gata, de fechar a janela porque começou a chover e fechar a porta porque está entrando mosquito, essas coisinhas de quem é regrado e sabe se apegar a rotinas e deveres.

Eu sou 100% umbigo. Sou tão umbigo que não raro me faltam braços e pernas para outras atividades. Me faltam cérebro para outros pensamentos e coração para outras pessoas. É por isso que havia banido desde sempre do meu futuro o projeto maternidade. Não sou fã de crianças, não as acho "geniais e mágicas" como dizem os child lovers (na verdade as acho meio burrinhas e chatas), e se eu sou assim tão incapaz de me dar, daria uma péssima mãe. Não acho que maternidade mude ninguém para melhor. Não acho que meu lado doador e abnegado vá aflorar, até porque ele não existe.

Eu não sei se estou disposta a abandonar todas as coisas que faço por prazer e que consomem tempo para estar 100% à disposição de outra pessoa. Não sei se quero deixar de ser eu para virar "a mãe de alguém". Egoísmo? É, sim. Eu disse que não era generosa.

A gente vê por aí mães maltratando e negligenciando filhos e se pergunta "oh, como é possível?". É claro que é possível. Existem sim mulheres sem instinto maternal algum, que têm filhos para salvar relacionamentos ou porque acham que esse é o papel da mulher ou simplesmente porque faltou coragem ou dinheiro para um aborto. Essas sempre serão péssimas mães, e não se deve culpá-las pelas chineladas ou desinteresse. Deve-se culpá-las por terem engravidado.

Tenho medo de incorrer nesse erro e me arrepender quando o arrependimento deixar de ser uma opção.

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Terça-feira, Março 1
Fred.

Eu sou uma idiota que chora ao ver um cavalo morrendo. Vi um, hoje. Estava deitado e parecia muito fraco, debilitado. Cavalos não podem ficar deitados mais do que algumas horas, ou seus órgãos internos paralisam. Aquele ali não parecia que se levantaria tão cedo.

Ontem vi outro cavalo doente, estava de pé, mas mancava muito. Uma pata parecia estar quebrada, sua expressão transparecia dor, mas mesmo assim "criancinhas" jogavam pedras nele. Fui andando a seu lado, as lágrimas caindo nos sapatos, e eu estalava os lábios fazendo aquele som característico que, sei lá porquê, atrai a atenção dos cavalos. Quis poder fazer um afago na crina, no lombo castigado pelas chicotadas dos carroceiros e ferido pela dureza dos estribos, e tentar fazê-lo entender que pelo menos uma criatura daquela raça detestável que o escravizara realmente se importava.

Quando digo que prefiro bichos a pessoas, me chamam de misantropa. Quando digo que adoro animais e mesmo assim como carne, me chamam de hipócrita. Quando digo que ver um menor abandonado, uma pessoa morta, me causa comoção MUITO menor do que ver um cachorro abandonado ou um gato atropelado, me chamam de doente. Dizem que tenho "problemas". Eu não tenho problemas. O resto da humanidade é que tem: eles continuam respirando.

Um dia estava indo pra faculdade e vi um cãozinho no meio de uma rodovia. Perdido no meio dos carros que iam e vinham, sem saber para onde correr e nem se devia correr. Sem dúvida em breve seria atropelado. Me desesperei. Pedi pra descer no ponto seguinte, voltei a pé até onde o cãozinho estava, me enfiei no meio do tráfego, fui chamada por todos os termos escrotos conhecidos e utilizados pelo homem moderno, mas resgatei o bicho.

Não fui à faculdade, naquele dia. Levei o cachorro pra casa. Perdi um ônibus, pois o motorista disse que "com cachorro eu não entrava". Eu pensei que vários bandidos adentram ônibus todos os dias no Rio de Janeiro, para assaltar gente humilde, matar inocentes, e ninguém tem coragem de impedi-los. Quando cheguei em casa, banhei-o e batizei-o. No domingo seguinte, amarrei um laço azul ao pescoço do Fred e levei-o à feirinha de animais da cidade. Um garotinho perambulava entre os vendedores, olhando esperançoso dentro de cada caixa, junto de um pai já cansado e com cara de pouco dinheiro. A cada pergunta: "quanto é?", os olhos do guri se acendiam, só pra depois apagarem novamente quando o preço do outro lado vinha além das posses e o pai ruminava um "tá legal, brigado" e se afastava. Peguei o garoto pela mão e fiz voz de cachorrinho: "Ei, eu também sou au au, sou bonitinho, carinhoso e quero um amiguinho... Você quer ser meu amiguinho?". O garoto sorriu, acariciou a cabeça do Fred mas depois lançou ao pai um olhar de quase temor. "Isso aí é vira lata, é?" perguntou o cara, ríspido. Eu, respondendo pelo Fred: "não tenho pedigree, mas sou bem mais barato do que os outros e o seu filho vai gostar de mim".

O homem então repetiu a pergunta que vinha fazendo automaticamente: "quanto é?". Respondi: "Eu custo uma dose de vacinas, carinho e responsabilidade. Eu não sou de pelúcia, sabe, eu faço cocô e xixi e às vezes vou ficar doente. Mas se eu ganhar muito amor prometo retribuir fazendo esse menininho aqui muito feliz". O menininho em questão, já abraçado ao pequeno Fred, olhava radiante para o pai. Talvez porque até aquele momento ele não tivesse dito a fatídica frase "tá legal, brigado".

O homem sorriu. "Tem uma caixa?". Eu tinha. E lá se foi o Fred dentro da caixa, nas mãos do saltitante menininho que eu nunca soube o nome e o pai dele, que talvez tenha aprendido naquele dia que amor e felicidade são coisas que não se compram com dinheiro e estão sempre à disposição de quem procura por elas.

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