Segunda-feira, Fevereiro 28

snow.

Ele me mandou fotos da neve.
Jersey tem temperaturas em geral mais amenas do que na Inglaterra. Não é sempre que neva, e em geral não é muito. Claro que já houve invernos rigorosos, e um dia eu espero abrir a janela pela manhã e acreditar que estou dentro de um freezer gigante.
Ontem à noite nevou bastante pros padrões da ilha:


Quando eu era criança, o equivalente invernal da neve era a neblina. Era uma delícia acordar e abrir a janela para um mundo inteiramente branco, onde não se enxergava nada a uma distância maior que alguns poucos metros, e onde tínhamos a impressão de estarmos dentro de uma nuvem gigante.

Cartaz visto sexta-feira colado a um poste no centro da cidade: "Precisa-se: moças com boa aparência, de 18 a 25 anos, para cargo de recepisionista". É vitória da forma sobre o conteúdo, da cara bonita sobre o intelecto. Isso me fez lembrar certa vez em que eu estive numa entrevista de emprego. O infame "boa aparência" era requisito no anúncio, mas fui lá assim mesmo, achando que, para um emprego de 400 reais por mês, eles não estariam querendo um clone da Ana Hickmann.

A sala estava entulhada de meninas. A imensa maioria negras. Curioso o fenômeno. Todo mundo querendo trabalhar mas ignorando o racismo implícito no anúncio. Cheguei a rir por dentro com a cara de decepção que o entrevistador fez ao adentrar a sala e dar de cara com o BRASIL, sabe, quando ele talvez estivesse esperando a Suécia. De novo: mas por 400 reais??

Tá. Ele, já meio enfezado, resolveu mandar ver na eliminatória cruel: "alguém aqui tem mais de 25 anos?". Apenas uma corajosa ergueu a mão. O algoz, friamente: "18 a 25. Lamento". A menina tentou um protesto, disse que havia acabado de fazer 26 e que em nada era inferior a uma de 25 e 11 meses, mas... "regras são regras, ordens são ordens". A infeliz enfiou o rabo entre as pernas, abraçou o currículo e se retirou. Abaixei a cabeça. Aquela humilhação era tão triste, tão desnecessária. Será que aquelas pessoas lá na frente não sabiam que estavam lidando com seres humanos desesperados para conseguir o sustento? Não era bem o meu caso, que só queria um trabalho perto de casa pra ganhar alguma experiência em carteira e uns trocados mensais. Mas aposto que havia muitas mães solteiras ali, rezando para conquistar o direito de levar o leite das crianças pra casa. Estar nessa situação e ainda ser submetido a dinâmicas de grupo inúteis e se sujeitar a eliminações com base em critérios obscuros/injustos é foda.

Óbvio que eu não ia ser chamada. O "entraremos em contato" mecânico repetido a todas nós não convenceu a ninguém. Eles iam continuar procurando a top-model que desejavam para a vaga. Na saída, conversei um pouco com uma das recepcionistas. Loira, alta e bastante simpática. Não era a Ana Hickmann, mas provavelmente dava graças a Deus todos os dias por não ter nascido mulatinha e de cabelo pixaim num país que quer a todo custo aparentar o que não é. E estava certa; fosse negra, CERTAMENTE não estaria empregada ali. Ela me disse que talvez eles estivessem procurando uma menina "com aquele perfil lá", e apontou uma outra loira, de cabelo chanel, bem mais bonita, dando informações a um senhor grisalho e barrigudo, provavelmente muito feliz por estar sendo atendido por aquela gata. Eu dei uma risadinha e repeti pergunta que chacoalhava na minha cabeça: "mas, por 400 reais??", e ela repetiu o risinho e acrescentou: "é, e para trabalhar até mais tarde quase todo dia, às vezes até à noite, quando tem recepção para fornecedores".

Ok. Eu poderia dizer que era melhor ser puta de luxo então, mas não vou entrar nessa discussão que dá pano pra manga. Mas olhei para a loira de corte chanel quando estava indo embora, ela percebeu meu olhar e retribuiu com um sorriso cansado. Vai ver achou que eu a conhecia e ela não estava se lembrando de mim. As mulatinhas rejeitadas reclamavam no ponto de ônibus: "Eu vou é parar de procurar emprego, gasto uma grana com currículo e foto colorida, deixo em todos os lugares e nunca sou chamada!! É melhor trabalhar na zona!" e caíam na risada.

Fiquei pensando que, aqui no Brasil, só mesmo no puteiro elas iam conseguir ganhar mais que as recepcionistas loiras da concessionária.

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Quinta-feira, Fevereiro 24

mirror mirror



Danto um tempo até segunda feira.
Tenho que tratar da saúde e outras pendências.
See ya around.

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Terça-feira, Fevereiro 22

Pft.

Você sabe quando a dieta está indo pro saco quando até a comida do gato parece melhor do que a sua.

E essas edições-paredão de BBB da Globo são as_mais_tendenciosas e eu me divirto. Pintaram a orelhuda cearense como a patty acéfala que ela é e o viado baiano como o coitadinho que ele não é. Mas, como eu não gosto de puta burra, quero que o gay chantagista fique. E ficou, com todo mundo no Brasil levantando a placa "Eu já sabia".

A história de Cay e Jake. Queria entender como essas garotas que deixam o namorado fazer "filminho caseiro erótico" têm coragem de lhes dar um pé-na-bunda... Depois aparecem na internet quicando em cima do ex e começam o corinho "oh-my-god-homem-não-presta". Que me desculpem as defensoras do sexo frágil, mas cérebro é item de fábrica, nem pesa tanto assim e é super útil - desde que a gente aprenda a usá-lo. Stupid bitches têm mais é que se danar, sorry.

Leio no Glamurama que Giselle Bundchen é a personalidade mais famosa do Brasil, dado o frisson que causou no Fashion Rio. É a prova cabal da inversão de valores mundial. Quem vai se ocupar de cuidar do cérebro se sendo bonito já resolve? Tem horas que eu acho que o mundo não passa de um grande fotolog.

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Segunda-feira, Fevereiro 21

all is well in the world.

A gatinha Frances está toda serelepe de novo, estou ouvindo Zooropa do U2, a Chantilly está se lambendo na minha cama, estou vendendo toda a minha coleção de papéis de carta no Mercado Livre, meu noivo se lembra de comprar minhas revistas semanalmente, eu perdi três quilos, minhas roupas/sapatos já estão todos empacotados e chove lá fora.



O Audi é preto. Tremendo clichê.

Faz um sol dos demônios, um calor dos infernos na ponte Rio-Niterói, três e meia da tarde. Dentro do carro, três velhos com a indefectível camisa social clara pra dentro da calça, a barriga caída sobre o cinto, a conversa animada. Vidro fechado = ar condicionado. Vislumbra-se que o som tenha CD player. Um dos velhos grudado no celular, pequenino e chique, claro; o arremate perfeito da ceninha yuppie geriátrica. Engulhos. Mas as duas garotas no banco alto à minha frente, os olhos enfiados dentro do Audi, sussurram uma para a outra:

- Ah, se um velho assim me desse mole...

"Mas é claro que dá!", penso eu sem ser chamada, "ele é TODO MOLE. Qualquer coisa que ele te der será mole!". Cala a boca, Marie. Você não entende das coisas. Vai mamando seu guaravita aí enquanto as meninas no banco alto sonham em subir também na vida. O caminho é em constante aclive: primeiro elas sobem em cima do velho. Depois sobem no carro. Depois, sobem no altar. E aí, finalmente, sobem na vida. E, por último, quando o velho sobe no telhado, elas vão subir nas tamancas de ódio quando descobrirem que, pelo pacto pré-nupcial, não terão direito a um centavo da herança dos Albuquerque Motta Guimarães Vasconcelos.

Up we go, up we go.

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Sábado, Fevereiro 19

Camwhore.

Ontem fiquei fazendo palhaçada na webcam pro meu noivo e a amiga dele, que veio da capital da terra da rainha passar uns dias na ilha (as provas da moça estão aí e ela veio pedir um help ao Sr Eu-Sou-Foda-Com-Números). Ela, trêbada, ficou impressionada com as novas tecnologias ao saber que eu a estava vendo pela webcam do MSN. Daí tentou fazer strip no sofá e caiu.

Quebrou um copo de vinho e bebeu da garrafa. Gritava que o Alaric era um insensível que não queria levá-la pra se divertir e que estava passando fome na casa dele (hahaha). Foi fazer xixi e voltou gritando: "tem alguma coisa falando comigo lá dentro do banheiro!!". Chorou de medo quando ele lhe mostrou Blossom (minha quarta Pullip que também chegou lá esses dias). Aproveitei e fiz um monte de print screens toscas. Afinal, já falaram que "c* de bêbado não tem dono". Well, CARA também não. E só não posto aqui porque ela tem o endereço desse site. ;o)

Soube que ela está planejando uma despedida de solteira pra mim. Idéia inicial: me levar para um night club, curtir um showzinho tipo "clube das mulheres" com as amigas dela, beber até cair, acordar no meio da tarde do dia seguinte, encarar cabeleireiro, massagem, depilação, comprar roupa nova, tudo na faixa, por conta da madame.
Parece bom, mas.
Sinceramente? Eu tenho medo dessas coisas. Não quero ir não.

Miaus
Os filhotes estão encontrando lares. O pretinho, que eu acreditava ser o último a achar um dono (sabe como é, preconceito + crendices tolas), foi o primeiro a ser adotado. A dona de uma pet shop aqui perto de casa queria um gato macho, e ele era o único menino da tropa. Fiquei FELIZ, a mulher tem toda a cara de "cat lover" e o bichano será muito bem tratado. Curioso é que na Europa gato preto é símbolo de BOA sorte; vá entender essas idiossincrasias supersticiosas...

Os outros três têm destino certo. A Marina me indicou o Mario. Minha mãe se comprometeu a ficar com um deles; afinal, vou levar a Chantilly pra Jersey. A Manoelita, amiga nossa, ficaria com o que sobrasse. O Alaric disse que, caso o pretinho não fosse adotado, eu devia levá-lo para a Inglaterra também. Se a Chantilly fosse, eu podia ficar com os dois na "quarentena francesa" até que eles pudessem entrar no Reino Unido.

Infelizmente ontem a gatinha mais serelepe sofreu um acidente. Fui fechar a porta do banheiro do terraço, onde os gatinhos ficam, e ela tentou passar ao mesmo tempo. Esmaguei a bicha. E tudo por causa da minha mãe, que se recusou a me ajudar a recolher os quatro gatos de uma vez só, todos pequenos e muito rápidos. Pensei que ela fosse morrer. Acordei hoje pela manhã, queria subir para dar a mamadeira dos outros, mas estava com medo de encontrá-la morta. Minha mãe pediu a uma vizinha pra ir averiguar e, caso a gata tivesse mesmo batido as botas, colocá-la num plástico e levar, porque nós não queríamos nem ver. A menina desceu trazendo a boa notícia de que todos os miaus estavam vivos e miantes. Os olhinhos dela hoje estão mais vivos, ela voltou a miar alto e a andar, mas logo se cansa e deita. Não está comendo bem, recusa o leite e eu tenho que empurrar goelinha abaixo.

Agora à tarde é que ela comeu mais um pouco. Se não estiver melhor amanhã, vou levar ao veterinário. Estou tentando não me culpar porque, afinal, como disse o meu Neném, se não fosse por eu tê-los resgatado da rua, todos estariam mortos. De qualquer forma, todo mundo aí rezando pela pequena Frances (ganhou o nome porque minha mãe, que nem em santos acredita, está rezando pra São Francisco de Assis salvar a bichinha).

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Quinta-feira, Fevereiro 17

Packing,

Fui empacotar algumas coisas. Vi uma parte do armário vazia, os cabides desnudos, a caixa sendo fechada com durex grosso e um número feito de hidrocor, do lado.

Minha mãe chorou. Minhas costas doeram. Tossi com a poeira dos sapatos que há muito tempo eu não tirava da gaveta. Quebrei uma bonequinha de porcelana. Achei meus headphones antigos. E dez reais no bolso do jeans. Não sei onde foram parar meus anéis da Hello Kitty. Vou ter que deixar muita coisa para trás. Coisas que não sei se um dia serão substituídas.


Fiquei triste.
Perdas e ganhos, assim é a vida.

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Quarta-feira, Fevereiro 16

moar kitties!!

Então nós achamos mais DOIS gatos abandonados, aparentemente da mesma ninhada.
Há inúmeras versões para o fato, mas o que realmente conta é que eles foram largados à própria sorte antes mesmo do desmame e não podem ficar na rua.

Muita gente ajudando, como a Leila do SOS Gatinhos, que faz um trabalho fantástico e ainda encontra tempo de ajudar a quem está longe. Consegui alguns contatos e estou fazendo o que posso. Seria bem mais fácil se eles se alimentassem sozinhos, mas se levar em conta o entusiasmo com o qual eles vêm mamando esses dias, creio que aprender a usar o pires é questão de pouco tempo:


Uma pena que as pessoas não entendam que ter um animal significa ter responsabilidade. Porque eles ficam doentes, porque precisam de cuidados, eles têm filhotes. Mais triste (e revoltante) ainda é ver pessoas criticando a castração, dizendo que é arriscado e violento. Preferem deixar o bicho procriar à vontade, gerando dezenas de crias indesejadas (que no fim acabam abandonados à morte, como esses aí de cima), ou então trancafiar o animal gritando num cubículo nos períodos de cio, causando um stress desnecessário. Tudo poderia ser resolvido com uma intervenção simples e barata. Então, pessoal, façam esse favor ao seu bicho e ESTERILIZE-O. A menos que você porventura faça parte dessa máfia de revenda de filhotes. Aí, babes, burn in hell.

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Segunda-feira, Fevereiro 14

LOL

EDITANDO: Se alguém no RIO quiser adotar gatinhos, achei dois na frente da minha casa há uma hora atrás. Não posso ficar com eles por causa da minha mãe e da Chantilly, mas não posso colocá-los de volta na rua, que é movimentada e eles seriam esmagados por veículos ou comidos por cachorros. Fora que aqui muita gente tem o simpático hobby de torturar até a morte filhotes de gatos abandonados. Já vi isso acontecer uma vez e não quero ver de novo.

Por isso, se alguém quiser ficar com os gatinhos, por favor email-me até amanhã de manhã. Deixei-os na casa de uma amiga, que não pôde/não quis ficar com eles. Posso entregar. São muito bonitos e dóceis, não estou certa quanto ao sexo:


Então, hoje foi dia de entregar a papelada do visto. A mesma paquiderme sonolenta que sempre me atende estava lá; eu não dou sorte. Felizmente não rolou nenhum stress, ela aceitou meus documentos, minhas fotos, confiscou meu passaporte até sabe-se lá quando e me assaltou em R$1.430,00 em espécie. Daqui a um ou dois meses eu devo ser convidada a ir lá retirar o meu "green card britânico". Hahaha.

Por falar em green card, ontem à noite liga aqui pra casa uma prima. Aliás, ex-prima, porque a infeliz é tão casca-grossa e desgraçada que eu fiz questão de desatar meus laços familiares com ela. Há uns cinco anos, pelo menos, não tenho o desprazer de ouvir-lhe a voz. Ela era daquela turma de primos, bonitinhos, riquinhos, loirinhos e fofinhos, que me ridicularizavam na infância por eu não ser nada daquilo e ainda ter a insolência de fazer parte da família.

Pois ontem ela vem, com vozinha melíflua, perguntar como eu ia, se tinha uns "livros de segundo grau pra emprestar" porque ela ia fazer vestibular de novo esse ano, e tal. Eu não entendi lhufas, mas como estou tentando desenvolver meu lado zen, não bati com o telefone. Até porque sei que o pai dela perdeu a empresa e a família está na merda. Fui simpática até a hora em que ela disparou a pergunta que realmente a tinha feito vencer a repulsa e discar meu número: "ahn, minha mãe disse que você vai casar com um inglês... que legal! onde você conheceu? vem cá, será que ele não tem nenhum primo ou amigo não?"

Engoli em seco. Depois de dois segundos de silêncio, respirei fundo e rebati: "Os irmãos dele são mais velhos e casados, os primos estão na Finlândia. Onde encontrar? É simples, faça como eu fiz: ponha uma saia bem curta, um decote matador, um tamancão de salto alto e vá passear na Av. Atlântica. Quando o turista perguntar quanto é o programa, responda: um passaporte europeu com o meu nome. Agora dá licença que meu celular tá tocando."

Essa gata maldita leva TODO o meu dinheiro:

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Sexta-feira, Fevereiro 11

incompatibilidades

Eu hoje descobri que tenho uma vida muito interessante.
Eu passo meus dias fazendo muita coisa e porra nenhuma ao mesmo tempo.




Meus melhores amigos.
E também meu maior problema; que é, no momento, descobrir um modo de reunir ambos sob o mesmo teto.

Como eu já havia dito antes, a Inglaterra tem uma lei (bastante estúpida e preconceituosa) que, a pretexto de "evitar doenças", impede a entrada de animais de países pobres. Sim, de países pobres. Porque há uma lista de países cujos bichos têm livre acesso ao Reino Unido, e 90% desses países têm renda per capita astronômica se comparada à dos países da "listinha negra". A desculpa é que a hidrofobia foi erradicada do Inglaterra, e não do Brasil, por exemplo. Mas a hidrofobia também não está erradicada na França; por que então os bichinhos franceses podem entrar e os brasileiros não?

Enfim. A lei existe, não vai mudar e tem que ser respeitada. Para ingressar com um animal de um país da "lista negra" na Inglaterra, o bicho precisa cumprir uma "quarentena" de SEIS MESES trancafiado numa gaiola em alguma clínica veterinária. Quem conhece animais sabe que eles podem entrar em depressão profunda caso se sintam abandonados (hipótese bem provável, nesse caso) e até morrer. Essa opção, para mim, está descartada desde o início. A outra alternativa seria comprovar que o bicho tenha vivido por pelos menos seis meses num dos países cuja entrada para o Reino Unido é liberada. E que lá tenha sido vacinado e tido implantado um microchip subcutâneo para que possa ser monitorado.

Essa é a única esperança de levar a Chantilly para a Inglaterra, mas para isso eu teria que passar seis meses num apartamento alugado na França, um país que eu mal conheço, cuja língua me é absolutamente estranha, longe do meu marido (seria recomendável que já estivéssemos casados, assim eu conseguiria um visto para permanecer na França por seis meses com mais facilidade), da minha casa, sem absolutamente nada para fazer e sem conhecer ninguém.

Não sei o que fazer e o momento da partida está chegando. Sei que muitos já me julgaram fresca. "É só um gato, compra outro quando chegar lá!". Sei de pessoas que deixaram para trás um pedaço de seus corações na forma de um cãozinho ou gatinho, por não querer submetê-lo à quarentena e por não poder mantê-lo em outro país. Admiro esse desprendimento. Eu queria ser assim, menos egoísta, me convencer de que o melhor para a Chantilly é ficar aqui com minha mãe, na casa que ela conhece, no clima a que está habituada. Mas todos os argumentos razoáveis derretem-se quando ela pula no meu colo.

É, eu sou uma egoísta miserável que sente saudades do pêlo macio dela roçando minhas pernas de manhã enquanto escovo os dentes. Do ronronar impressionantemente alto enquanto acariciamos sua barriga. Do miado agudo e fofo, do cheirinho de whiskas quando ela boceja, e do olhar de profunda compreensão que ela me lança quando estou triste, e então se deixa pegar e abraçar e lambe meu nariz.

Me pedir para escolher entre esses dois aí de cima é cruel, e a única coisa que posso fazer no momento é esperar.

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Quinta-feira, Fevereiro 10

de cinzas.

Acabou a folia, não faço idéia de qual escola venceu a apuração, não vi nenhum desfile, não li nenhuma matéria sobre o assunto, e mesmo assim eu, Flávia e Rebeca nos enfiamos no meio do tumulto. Os "brocos" carnavalescos, tipo o Peru Cansado, pulavam e pululavam pela orla, ruas do centro e da zona sul. Ninguém mais merece esses trocadilhos infames e nem as velhas de shortinho com colar havaiano e um penacho enfiado na cabeça. Outras baixas:

- Aquele maldito spray de espuma fedorenta que as criancinhas jogam na sua cara;
- Pisca-piscas em forma de chupeta, estrela, coração e foguete;
- Todas as músicas da Ivete Sangalo tocando nos blocos; ué, a Bahia é aqui?
- A Ivete Sangalo. Essa mulher é um desperdício de átomos de carbono.
- O preço da caneca de cerveja Guiness no único pub "samba free" disponível em Copacabana: R$13,50

Batatas fritas com queijo no Rosie O'Gradys:


Flavia being shy e o New York City Center, na Barra.


Rebeca demonstrando a gordura dos sandubas do Habib's + silliness.



Noite do Rio e Flavia jogando videogame na Ploc 80's.



Enquanto estive fora, uma amiga teve que tirar o site do ar porque algumas pessoas, que não gostam do que ela escreve, resolveram baixar o nível "de com força", a ponto de fazê-la desistir temporariamente de ter um diário online. A lei do "não gostou, fecha o browser" me parece TÃO absurdamente óbvia que nem merecia ser comentada, não merecia nem ser lei; devia ser reflexo instintivo das pessoas que têm mais o que fazer de suas vidas além de atazanar a alheia. A vida de quem sequer conhecem.

O Orkut, do nada, voltou a abrir aqui em casa (talvez, por causa do carnaval, boa parte dos brasileiros tenham saído do site por alguns dias, fazendo-o voltar ao normal). Quanto mais leio discussões em comunidades, mais me assusto. O nível geral do cidadão orkutiano brasileiro é lastimável. Não conseguem escrever a própria língua (e nem estou falando do axim e do akilo, mas de erros de português crassos, coisa de quem não lê nem revista em quadrinhos), zero em cultura geral e nota dez em belicismo (que o anonimato da internet estimula e protege) preconceitos de todos os tipos, ali expostos sem dó, piedade ou vergonha.

Como é o caso da da comunidade da Tati Quebra Barraco, onde os argumentos mais utilizados para descer a lenha na mulher é o fato de ela ser "pobre, preta, gorda e favelada". Que pérola da retórica. Ai, ai. Os índios tupiniquins e sua eterna mania de emular americanos/europeus através do gosto musical, do tom da pele ("nasci branquinho, no Brasil? Sou felizardo, ninguém vai me confundir com peão de obra ou empregada doméstica!"), da classe social, da pseudo-instrução/erudição...

Dá tristeza ver um povo que não aceita a própria imagem no espelho.
E medo de pensar nas consequências disso.

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Sábado, Fevereiro 5

party time!

Daqui a algumas horas a Flávia chega. Vamos pra Copacabana bater perna e tomar uns chopps; finalmente carnaval (ha, como se a gente gostasse...).

Volto já. :)

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Quinta-feira, Fevereiro 3

sex sells

Conversando com a vizinha ouço um "ai, que horror, homem que tem que pagar pra transar é muito decadente, mesmo".

Eu me pergunto se ela sabe que a maioria não está pagando pra transar, e sim pra mulher ir embora, depois. Porque se ele for fazer "a coisa certa", pode acabar arrumando uma chata grudenta, querendo marcar a data do casório e que vai escrever no blog no dia seguinte algo do tipo "conheci uma pessoa super especial; será que ele vai me ligar?". Há homens que querem isso, outros não. E há ainda os que querem isso, mas não com aquela mulher.

E a quem diz "ah, hoje em dia não é mais assim, qualquer uma dá sem compromisso, depende do papo" eu respondo que se tratam de pseudo liberadas mentirosas. O hobby preferido do sexo frágil é criar expectativas. Sempre foi e sempre será.

Tenho amigos que garantem que, se não pagarem ,não conseguem fazer sexo. Eles são (para o padrão Brad Pitt-Gianecchini da sociedade) feios, sim. Um deles é bastante obeso. A amargura da declaração me fecha o peito, porque, triste admitir, eu também não daria pra eles. Nesses casos, eu concordo com a "vizinha virtuosa". É mesmo deprimente; no sentido de TRISTE, porém, e não "nojento".

Em tempo: aviso às mocinhas-de-família-limpinhas que possam sentir-se ofendidas; isso não é uma ode à prostituição em detrimento do sexo sagrado em família papai e mamãe com as bençãos do papa amém. É que nem sempre o que se quer é compromisso, e chamar de "decadente" um cara que abre os classificados e liga para uma garota de programa é, na minha modesta opinião, forçar muito a barra.

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Terça-feira, Fevereiro 1

rant.

Se tem uma coisa que não gosto em mim é o fato de às vezes me importar com a opinião dos outros. Devo botar a modéstia de lado, no entanto, e admitir que quase nunca me importo. Sou boa nisso. Não sou ingênua (ou ególatra) a ponto de dizer que "palavras são apenas palavras, nada mais". Algumas machucam, e muito. Mas também não sou ingênua (ou ególatra) a ponto de achar que as pessoas não têm o direito de dar a sua opinião se ela for diferente da minha. Opiniões não passam de opiniões, podem ser uma hoje e outra bem diferente amanhã. A gente pode e deve se manter fiel a elas, pelo tempo que durarem; mas sem atacar ou isolar quem eventualmente discorda.

Teoria: Imagine que Lurdinha e a sua prima Mariazinha detestam a Cidinha. Passam horas falando mal da pobre Cidinha, porque afinal o ódio que sentem é comum. Só que a Lurdinha também abomina uma tal de Ritinha, mas a sua prima Mariazinha, sabe-se lá por que cargas d'água, adora aquela vadia. Aí no meio da conversa a Lurdinha diz que a Ritinha é uma puta. A Mariazinha toma as dores, xinga a Lurdinha, larga a prima falando sozinha e fica de mal forever and ever.

Resumo da ópera: a Mariazinha é uma imbecil. Por quê? A saber:

1)Perdeu a amizade da prima por conta de uma opinião dela, e não por algo que ela efetivamente tenha feito;
2)Perdeu a chance de ter sido superior, dado uma risada e dito: "será? eu acho ela super legal!"
3)Perdeu a chance de refletir a respeito. Vai que a Ritinha é uma puta, mesmo. "E se for, qual é o problema? Eu gosto da Ritinha e foda-se."
4)Perdeu a chance de refletir a respeito. Vai que a Ritinha é uma puta, mesmo. "E se for, pode roubar meu namorado. É isso aí, FORA com a puta da Ritinha!!!".

É assim que os imbecis agem. Eles desperdiçam TODA e QUALQUER oportunidade de manter amigos, de agir de forma grande, de refletir e tirar conclusões, só porque "não gostaram do que ouviram". Preferem ficar isolados em suas convicçõezinhas de merda, passar a vida atolados numa mediocridade viciosa. É difícil aceitar uma opinião quando ela vai contra tudo o que você acredita. Só que são essas as únicas que realmente contam. Porque são essas que nos movem, que nos fazem pensar, nos autoavaliar e reavaliar constantemente, questionar nossas crenças e crescer. Quantas vezes uma opinião que, a princípio, me deixou horrorizada, me fez também refletir e concluir que ela não era, assim, tão horrível e era até bem fundamentada?

Mas a maioria das lesmas rastejantes que atendem pela alcunha de "seres humanos" prefere se rodear de um exército de "vaquinhas de presépio", que dirão "sim, sim, salabim" para todas as besteiras que disserem. Ou seja, de um monte de outras lesmas rastejantes, cujos neurônios só servem para deixar a cabeça com o peso certo. Não é mais seguro quando sabemos que a platéia só tem flores nas mãos, ao invés de tomates? Mas, sinceramente, se os puxa-sacos nunca são sinceros, qual é a porra da graça em abrir a caixa de comentários e afundar-se num mar de baba?

Outro dia eu comentei no livejournal que estava de saco cheio da megacobertura que a Rede Globo estava dando à perda de tempo que é o tal festival de axé lá na Bahia. Disse que uma ogiva nuclear nessas horas caía bem. Era uma PIADA, evidente. Eu não jogaria a tal bomba lá nem se pudesse, primeiro porque há pessoas brilhantes na Bahia, que também não gostam de axé. E depois os axézeiros não me perturbam, caso fiquem na deles. Apesar de eu gostar de rock, não concordo com a atenção exagerada que a Globo costuma dar ao Rock in Rio. As criaturas que não suportam rock também têm o direito de preferir assistir notícias ou um filme.

E antes que alguém diga "desligar a TV é uma opção", eu já digo que concordo. Eu desliguei a minha. Mas não teria desligado caso estivessem exibindo alguma coisa legal ao invés de música de enésima categoria. Dá-se o mesmo com os evangélicos, invadindo TODAS as estações do dial. Eu gosto de ouvir rádio e estou vendo minhas emissoras favoritas sendo engolidas uma a uma pela voracidade abençoada do monstro gospel. Isso detona a cultura de um país e não é legal.

E não me digam que axé é cultura. Coisas como "boquinha da garrafa", "dança da manivela" e "rala o tchan" não passam de subproduto musical que só serve pra enriquecer seus "compositores" à custa da indigência cultural do nosso povo, e das bundas siliconadas das mercenárias que se vendem por 30 dinheiros. Bem, danem-se eles, que têm direito de ganhar grana como quiserem às custas de quem compra seu lixo, mas eu não sou obrigada a gostar dessa merda, tenha ela nascido na Bahia, no Rio, em Mônaco ou na China, e tenho o direito de dizer isso. Uma coisa é dizer que não suporta música clássica; isso é perfeitamente admissível. Outra, bem diferente, é dizer que aquilo não tem qualidade. Pois quanto à "música popularesca baiana" eu digo e repito: É uma merda e NÃO tem qualidade. Sem a menor possibilidade de defesa com argumentos razoáveis.

Mas teve gente me acusando de ser mal informada e preconceituosa. Ah, tá. Agora não gostar de axé virou "preconceito". Realizem: preconceito = pré + conceito, ou seja, emitir conceito prévio, dar opinião antes de conhecer o fato. Taí uma coisa que eu vivo me policiando pra não fazer (apesar de ser HUMANA e dar minhas escorregadelas). Eu, infelizmente, SEI DO QUE SE TRATA. E não gosto. Pronto, não é mais preconceito, virou OPINIÃO. E respeitar a opinião alheia não significa esconder a sua. Posições conflitantes podem e devem coexistir.

Mas aí a referida criatura agiu como a pessoa madura que é e me deletou da lista de friends do livejournal e tirou meu link do seu blog. Uma salva de palmas para a atitude. Ela prefere se isolar em sua panelinha de comadres que sempre concordará com tudo o que ela disser e retribuirá seus posts com comentários "fowfos". Que assim seja.

E depois as pessoas reclamam, "mas cadê seus posts ácidos, cadê aquela garota que escrevia pra incomodar?". Ela manda recado: se aposentou. Pra que ela ia perder tempo discorrendo sobre as mazelas da raça humana? A raça humana já deveria saber que é um malogro na forma de bilhões de cabeças ocas. E se não sabe, não é ela que vai segurar a plaquinha de madeira e ir pra praça avisar, em protesto solitário. Ela quer mais é beijar na boca e ser feliz, como todo mundo (as opiniões, que ela sempre teve e continuará tendo, vai guardar pra si própria).

Outro dia vi o site do cara que atropela duendes, famoso na net há alguns anos atrás. Na época achei foda. Hoje eu sei que ele DEVE ter perdido a senha da conta no starmedia, senão já teria tirado a página do ar. Ou então ele é daqueles eternos "gênios incompreendidos da humanidade". O que ele diz todo mundo já sabe. Assim como o que EU dizia e digo, todo mundo já sabe também. A diferença entre eu e o cara que atropela duendes é que EU sei que as pessoas sabem, enquanto ELE pensa que está sendo original. Ele pensa que está matando os "duendes" ao atropelá-los, enquanto EU sei que as pessoas que acreditam neles vão sempre ressuscitá-los e jamais darão a mínima pro que ele pensa ou faz. Qual de nós está iludido? Não importa. O que importa é que a opinião dele só a ele interessa. E as pessoas a quem ele chama de alienadas só querem a felicidade, mesmo "ilusória" (e qual seria a verdadeira??), que ele também devia estar buscando ao invés de tentar convencer aos outros e a si próprio que já sabe o caminho. Além de ter o legítimo direito de me achar mais uma alienada por estar dizendo isso, claro.

Gritante a dificuldade que nós temos de olhar para o próprio rabo. Quando alguém fala que o Rio de Janeiro é imundo, violento, cheio de favelas, de gente feia, de samba nojento, praias cheias de putas, que o carioca é malandro e ladrão, tem funk carioca, guerra do tráfico, eu fico na minha. É isso aí mesmo, ora bolas. Por que as pessoas não admitem que se joguem pedras em seus telhadinhos de vidro? TODO estado tem suas vantagens e mazelas. O mesmo paulista que fala mal do Rio sabe que a cidade dele também é uma merda, e etc. E se ele achar que mora no paraíso, ótimo pra ele. Menos um insatisfeito no mundo, né?

EU não me abalo. Todos têm o direito de detestar o Rio de Janeiro, goste eu ou não daqui. Fora que é uma mediocridade do cacete. Gente, o mundo está aí pra ser conquistado aos poucos. Vale mesmo a pena se ligar à sua cidadezinha, ao seu estadozinho, ao seu bairrismozinho provinciano como se um cordão umbilical invisível lhes atasse à terra? Nós somos muito mais importantes do que o pedaço de chão em cima do qual nascemos. E nascemos por acidente do acaso; podíamos ter nascido tanto em São Paulo como no ACRE, já pensaram nisso?? E assim como defendemos a nossa amada Minas Gerais, também defenderíamos Roraima. Entenderam o paradoxo? Por isso, se quiserem meter o pau no Rio, à vontade. EU sou muito maior do que um estado.

Se alguém tivesse postado, "Eu ODEIO carnaval!!! Vamos reeditar Hiroshima e Nagasaki no Rio em Fevereiro?", eu daria uma gargalhada e responderia: "Só deixa eu ir pra Inglaterra primeiro, porque aí não vou morrer por tabela e ainda vou poder assistir pela televisão, comendo pipoca, o Sambódromo transformado em patê". Eu teria entendido que a crítica tinha sido feita ao CARNAVAL (que eu também não suporto), e não ao Rio de Janeiro. E se fosse ao Rio de Janeiro, também, qual o problema?? Infelizmente, compreensão de texto não se vende em banca de jornal e, para tristeza dos que não a têm, tira ponto no vestibular.

Lembrem-se: nem sempre eu vou concordar com o que você diz. Minha opinião sempre será 1000% sincera; se eu sentir a menor vontade de ser hipócrita pra lhe poupar, prefiro lhe poupar DE VERDADE e me abster do comentário fake. Se você quiser discordar de mim, faça isso, por favor. Eu sou flexível. Mas faça isso com decência. Não me acuse diretamente se não tiver provas (mas fazer suposições é válido). Não fale com propriedade sobre aquilo que você absolutamente não sabe (fazer suposições é válido II). Se você disser uma bobagem colossal, eu vou responder à altura. Mas NÃO fico com "raivinha" e não te corto da minha "panelinha".

Se não sabe brincar, saia da porra do parquinho.

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