Sábado, Janeiro 29

webcam.




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Quinta-feira, Janeiro 27

the night is over.

Cansei da night. Sábado passado eu bem que tentei. Me animo quando me chamam; com o passar da hora, no entanto, eu olho para a minha cama e ela parece adivinhar meus pensamentos. E me dá conselhos: "será que vale mesmo a pena me abandonar para passar a noite em claro, num lugar barulhento onde não dá pra conversar, tendo que enfrentar filas para comprar bebida e fazer xixi, rodeada de crianças, cachorras e pit boys, levando empurrões e pisadas no pé, morrendo de calor e sono só pra bancar a sociável?". A resposta é NÃO, eu sei. Mas às vezes tenho dificuldade de raciocinar logicamente. E tem sempre aquela historinha estapafúrdia de só me arrependo do que não fiz e bla, bla. Eu me arrependo também de muita coisa que eu deveria ter deixado de fazer.

Meu ex não ligou no meu aniversário. O dele é amanhã e, por mais estúpido que possa parecer, tenho vontade de ligar pra ele. Não sei que motivos o levaram a não me ligar. Por saber que o atual estava aqui em casa? Por não ter grana pra pagar o interurbano (sei que ele não está trabalhando)? Por não ter sentido vontade? Sendo o último caso, seria mais simples. Eu lhe desejaria boa sorte telepaticamente e iria cuidar da minha vida. Mas não sei qual foi o caso. E não sei se devo ou não ligar. Ele não foi o melhor namorado do mundo e sabe disso. Mas ainda me sinto meio Judas ao simplesmente jogar pela janela oito anos de história com aquele que ainda tinha tudo pra ser um grande amigo. A menos que ele assim queira, é claro.

Jardim Botânico, RJ:

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Quarta-feira, Janeiro 26

material girl

Eu tenho um cartão de crédito de novo, eu sou uma garota feliz.
Fiz até conta nova no Paypal e me cadastrei no Ebay. Dei uns lances numas bobagens, certa de que não ia ganhar porque o valor estava muito baixo e ainda tinha sete dias de leilão.
Só que eu ganhei, e agora vou ter que pagar. Puta merda.

A cerimônia civil está marcada para 6 de julho. É, senhoras e senhores, temos uma data. Que ele marcou porque no fim de semana seguinte tem evento automobilístico, e é lá, em meio a graxa, poeira, respeitáveis senhores de meia idade metidos em macacões à prova de fogo, churrasco de salsicha e hamburguer, velhas de bonezinho e tênis que eu vou passar a minha lua de mel. Detalhe é que a coisa tinha me escapado por completo. Eu nem lembrava que essa história de lua de mel existia até ser indagada por ele onde gostaria de passá-la. É lógico que ele não me deu tempo de abrir a boca e sugeriu o "evento", e eu topei. Depois disso, faremos um mini passeio pelo interior da Inglaterra.

O problema é que a família dele mora por lá, e pode acabar rolando outro "evento": todo mundo vindo conhecer a "exótica mulher brasileira do Alaric". Vão ficar me apertando pra ver se eu sou diferente, vão ficar me olhando comer, vão perguntar se o Rio de Janeiro fica perto da Amazônia, e Ronaldo, carnaval, futebol, lambada, essas coisinhas. Na hora em que alguém pedir pra eu "dar uma sambadinha" com meus sapatos de fivela de caveira, eu puxo o pino da granada.

A minha idade mental regride a cada ano:



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Segunda-feira, Janeiro 24

Os móveis chegaram...

...e a minha casa está entulhada.
Essa empresa aqui é que vai fazer o transporte para a Inglaterra. A quem pergunta sempre se não vai sair mais caro comprar aqui e mandar para lá, respondo: não. Os móveis na Inglaterra, se forem de qualidade, claro, são muito caros. Já vi um jogo de sofá de dois e três lugares custando três mil libras (é isso aí mesmo, quinze mil reais!!). Ou seja, com metade disso, aqui, mobiliamos a casa quase toda. Pelo preço que pagaríamos num sofá. O transporte de toda a mobília, de navio, deve ficar em torno de duas mil libras. Ou seja, foi um excelente negócio. Ok, eu sei que a Ikea é barata, mas francamente, os móveis de lá parecem caixotes, além de ter um design meio modernoso e usar madeira de qualidade discutível. A casa é antiga, combina com móveis mais clássicos. Compramos quase tudo em antiquários.

Hoje é dia de Maria redime a Globo de qualquer heresia, até mesmo filme da Xuxa, que ela tenha cometido (apesar daquela luta final do Diabo com a pequena Maria, estilo playstation-soltando-magia). Central do Brasil dia desses (sim, porque eu moro mal, néam?) e estava lá a exposição dos figurinos e cenários da série, com direito a filminhos de making-of no telão. As empregadas domésticas e os peões de obra, que transitam por ali feito robozinhos tristes todos os dias, rodopiavam como crianças na doceria, encantados. Fiquei feliz por eles e de certa forma grata a quem lhes proporcionou aquilo. Mas aí eu lembro do jornal de domingo e a vontade de vomitar volta com tudo. Não vai ser dessa vez que São Pedro vai jogar uma corda pro Roberto Marinho lá no inferno.

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Sábado, Janeiro 22

ficcional.

Há uns quinze anos atrás tive uma paixão platônica colegial. Ou quase. Não era colegial porque o colégio não era meu, e sim o dele. Não era exatamente platônica porque, estou certa, ele sabia. Não era também paixão porque, eu sabia, era amor. Amor de verdade, não desses que transbordam em coraçõezinhos de hidrocor ridículos por intermináveis páginas de agenda. Amor de verdade, desses que não precisam ser escritos, nem desenhados, nem ditos.

E o meu amor verdadeiro era, de verdade mesmo, só isso: eu o seguindo com os olhos pelo recreio, eu fugindo das vistas dele pelo recreio. Filha da cozinheira da cantina, estudava noutra escola à tarde e, durante as manhãs, o pátio da escola de meninos ricos onde ela trabalhava era só meu. Isso até que tocasse a sineta do recreio, e então o bedel, docemente severo, pedia que eu "não me misturasse" com os alunos. Levei anos de mágoa para entender que ele só queria me poupar.

Pedro, quatro anos mais velho, esguio, inteligente, três idiomas, habilidoso desenhista, piano. Carisma nato, sorriso celestial, filho único, orgulho dos pais. Recitava de cor poemas do Neruda e lia Baudelaire no original. Olhos azuis escuros, quase violeta, profundos, lindos. Não importa as palavras que eu usar, você não conheceu Pedro, nunca vai saber muito daquela presença que enchia ambientes de luz e a gentinha comum de admiração manchada de inveja.

Eu gostava de fantasiar que minha fascinação era correspondida. Um dia, que não esqueço, eu estava na biblioteca me divertindo com periódicos antigos junto da Mayara, gordinha simpática que gostava de mim porque eu não ria do seu peso. Pedro tinha se sentado perto denós, e foi quando desconcentrei de tudo. As letras, que estavam me fazendo rir, se embaralhavam diante da vista e agora eram elas que riam de mim, que nem sabia fingir direito que as estava lendo. Mayara ria e o canto dos seus olhos me espiavam, e depois que ele se foi, disse que ele tinha ficado me olhando... Mesmo que eu não acreditasse nela, semanas de sono se perderam na dúvida.

Um dia Pedro foi embora. Os pais estavam voltando para o frio da Europa, onde as pessoas na rua cuspiam fumacinha e não se olhavam nos olhos. Eu achei por bem engolir as lágrimas, pedras ásperas me cortando a garganta. No último dia de aula daquele ano eu estava sentada na ponta do corrimão da escada, tentando me distrair com o rebú dos alunos, aquela sensação de liberdade sem fim antes dos finitos três meses das férias. Pedro apareceu diante de mim, que não precisei olhar para vê-lo, e ficou ali de pé encostado à ponta do corrimão oposto. Ficamos assim uns minutos, em despedida muda, a trilha sonora dos gritos, risadas e palavrões abafando o tambor que se acelerava no meu peito. Quando ele se foi para sempre, o que sobrou de mim tomou o caminho oposto. Nunca mais.

As aulas recomeçaram no ano de 1986 e Mayara foi à cantina, me entregando um pedaço de papel dobrado em quatro. "Esqueci de te dar, é pra você, do Pedro". Enfiei o papel debaixo da blusa e rezei para sobreviver até chegar ao banheiro, onde o desdobrei, as mãos errando as ordens dadas pelo cérebro em claro descontrole. Era um desenho. Uma menina igual a mim, só que muito mais bonita, que sentada numa mesa de biblioteca, lia. Não estava assinado, nada mais além do desenho no papel amassado com pequenas manchas da gordura dos biscoitos que Mayara sempre tinha na mochila. Mas a eloquência dos traços, que eu sabia ser dele, falava mais do que qualquer dedicatória; ele me amou, e eu nunca soube. Chorei amargamente, enterrando o papel no peito. Morou anos no fundo de uma gaveta, objeto de apaixonada adoração.

Anos mais tarde, minha mãe noutro emprego, eu digitando trabalhos por encomenda para Mayara (que não tinha tempo pra mais nada na faculdade de Medicina). Ela me liga num sábado quente e monótono, em que eu arrumava o armário. "Reunião de ex-alunos no Colégio... Acho que o Pedro vai". Bastou. Melhor roupa, choro porque o cabelo não estava bom, sapato emprestado, perfume, choro porque estava feliz. Ônibus lotado, topada na pedra imensa com o sapato que nem meu era, queda na rua, joelho estropiado. Cheguei ao Colégio toda raiva, nervosismo e esperança.

Pedro não foi. Nem achei Mayara no meio de tanta gente, não sei se esteve lá. Numa das paredes, entretanto, a foto enorme, no meio das tantas outras. Enviada pelo ex-aluno Pedro XYZ, Áustria. Envolta em seus braços, sorria uma moça linda. O finíssimo véu do vestido de noiva que ela usava me cegou os olhos de lágrimas.

Voltei para casa, revirei as gavetas até achar de novo o desenho. Olhei-o fundamente e compreendi então, rápido e doído feito um coice, seu real significado. Era um adeus.

Foi-se embora no mesmo dia, junto com o resto do lixo.

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Sexta-feira, Janeiro 21

WWW

Ando sem saco pra internet. Sei lá o motivo. Atualmente tenho gostado mais de sair por aí fotografando. Foi-se o tempo em que eu adorava escrever, dar a minha opinião sobre vários assuntos. Cansei. Ou me dei conta do óbvio, o que eu penso é apenas mais uma opinião no meio de um oceano de opiniões, iguais ou diferentes da minha, e nenhuma delas, a rigor, tem importância. Não me alienei. Continuo exercendo o meu direito de elaborar "achismos". Apenas me tornei mais prática, já que vir aqui escrever sobre eles dá trabalho, e não é assunto do interesse alheio.

E depois, a internet está muito diferente da que eu conhecia. Não sei se gosto dela. Não sei se gosto das pessoas, com suas atitudes estranhas, sem explicação. Às vezes, nos comentários, eu "pesco" certas agressividades desnecessárias. As pessoas se apegam demais aos seus pontos de vista, ao seu jeito de ver o mundo, e acham que todos têm que seguir os seus padrões. Caso contrário, haja sermão na forma de "indiretas" postadas em blogs.

Eu acho que perdi o saco para esse tipo de coisa. Se eu discordo da opinião do Juquinha sobre política, mas o blog dele é legal, eu não vou me meter no que ele acha, mas continuarei lendo o que ele escreve. Se o Juquinha, além de discordar de mim em política, escreve feito um imbecil, eu vou continuar lendo e falando mal dele pra quê? Tão mais fácil fechar o browser, nunca mais voltar naquele endereço e esquecer que ele existe... Que desperdício de energia.

Acho que daqui a pouco eu coloco isso aqui em hiatus e vou começar a desenterrar velhos posts dos meus blogs defuntos.

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Terça-feira, Janeiro 18

Da série Coisas que deviam ser abolidas:

Você entra em uma loja, uma das vendedoras te detecta e meio segundo depois já está colada do seu lado, fungando no seu cangote: "posso ajudar em alguma coisa?".

Quando estou de mau humor (quase sempre), minha resposta é: "por enquanto, ainda não. Se eu precisar, chamo". Quando o humor está péssimo, simplesmente ignoro a infeliz e caio fora da loja imediatamente. Eu SEI que esse é o trabalho dela, que são ordens do patrão, que se ela não chegar junto não ganha comissão, e tal. Mas a minha raiva não é dela, é dessa técnica idiota. Não conheço ninguém que goste de andar por uma loja sendo seguido por um vendedor, na forma de uma sombra ansiosa por ganhar algum trocado. Isso inibe, irrita, enche o saco. Já ouvi falar que lojas brasileiras, tentando se implantar no exterior, fracassaram porque exigiram esse tipo de comportamento dos vendedores. A gringaiada não tolerou sentir-se na pele de uma isca num rio cheio de piranhas; saíam da loja correndo, sem comprar nada e não voltavam.

Uma das coisas que mais me surpreendeu na Inglaterra foi o fato das lojas terem poucos vendedores, dos bares terem poucas garçonetes, dos postos de gasolina não terem frentista (é o motorista que desce do carro, abastece e paga o combustível), etc. A explicação é simples: ninguém lá aceita trabalhar por salário de fome. Pagar funcionário é caro, por isso emprega-se bem menos. Aqui, qualquer duzentinho, trezentinho paga um escravo. Por isso, nos hotéis do Brasil, tinha funcionário cuja única função era carregar a minha malinha de meio quilo, como se eu fosse uma inválida. Não sei se reclamo. Pelo menos ele estava trabalhando, mesmo que em troco de um salário miserável. Se o mercado de trabalho daqui resolver copiar o modelo inglês, haja desemprego... São duas realidades muito distintas. Não dá pra comparar.

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Domingo, Janeiro 16

Leisure day

Ficar em casa, não fazer nada, último dia antes da dieta, coca light me dá náuseas e as pessoas que gostam disso deviam ser internadas.


Ele chegou em casa são e salvo.


Estou gorda, gorda e gorda. A dieta (re)começa amanhã. Ficar sem batata frita dói, mas nada se compara à sensação de perceber sua barriga balançando enquanto você anda. Não estou querendo me adequar a "padrão" algum; até porque corpo perfeito pode até ser modelo a seguir, mas não representa a maioria. Eu só quero me sentir bem e caber nas minhas roupas. Eu não gosto de ser gorda. É isso, ponto.

Tenho meio que pena dos bebês que nascem hoje, filhos de internautas. Minha mãe passava mercúrio cromo na minha perna ralada, me assava bolos de fubá sábado à tarde. As crianças do futuro vão se divertir com o videogame, porque "mamãe tá na internet, discutindo sobre xxx no Orkut". Haha.

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Sábado, Janeiro 15

He's gone. E algumas.

Meu aniversário, em 2002, foi ótimo. Bolo, presentes do meu padrasto, carinho da minha mãe e de alguns amigos. O de 2003 foi péssimo. Meu padrasto estava morto há uma semana, eu e minha mãe tínhamos como perspectiva nigérrima a possibilidade de perdermos a casa por falta de pagamento. O de 2004 foi deprê; eu estava presa, por necessidade, a um emprego que detestava, e passei o dia arrancando meu nome das listas de "aniversariante do mês" da empresa, porque eu não queria que ninguém soubesse e me desse um "parabéns" hipócrita. Já ontem teve presente, bolo, chilli con carne no jantar, visitas e emails e telefonemas dos amigos, passeio a Itaipava e a Esperança mandando lembranças. I'm happy.

A terra ficou mais redonda depois do tsunami. Mas, sem querer bancar a megera do contra, mas caridade começa em casa. Mandar comida pra tailandês e ignorar o seu vizinho que está morrendo de fome é algo que me causa certa estranheza. Não sou insensível. Sou sensível até demais, a ponto de enxergar a pequena injustiça que se forma nesse trend de "ajuda internacional". É a velha lavagem cerebral da mídia. As reportagens se sucedem, as pessoas acham que têm que fazer a sua parte. Mandam três quilos de arroz pra Ásia e acreditam que garantiram uma vaga no céu; não é assim tão fácil. Os países ricos podem fazer mais e melhor, e já estão fazendo isso.

O regime "falhou" nessas três semanas. Não sei como me atrevo a fazer dieta das proteínas, se não gosto de carne. Sou daquele tipo de pessoa que vai a churrascarias pensando na batata frita e no pão de alho. Sou um caso perdido registrado e com crachá. Ganhei peso, mas só segunda feira volto a roer salsicha e pedaços de queijo amarelo. Porque hoje e amanhã tem bolo de aniversário dormido, a maior reminiscência do prazer gastronômico da minha infância.

Orkut: eu abro aquilo uma vez a cada dois meses, em média, autorizo sem nem olhar quem me adicionou, e fecho a janela. Sério. Tentei brincar lá por uns tempos, mas qual a graça de bater boca com gente cuja vida é tão merda que se vicia num site que existe para que malucos de internet exponham suas "opiniões" que não valem meia pataca e não interessam a ninguém? E pior, para que se envolvam em brigas, gastem latim e um tempo enorme, precioso, defendendo seus "pontos de vista"? A troco de quê? O que essas pessoas estão ganhando com isso? MSN Messenger: Eu não meti um block no seu nome, e nem entro invisible. Se eu sumi, é porque eu não estou usando o programa, ok?

Lamentamos informar que, devido ao excesso de burocracia e incompetência da justiça brasileira (e de 90% do funcionalismo público nacional), o meu casamento não saiu do projeto. A velha que me atendeu no cartório foi a mesma que me registrou quando nasci e, segundo minha mãe, ela já era gagá naquele tempo. Me deu várias listas de documentos erradas, informações incompletas, me fez certificar dezenas de xerox (a R$4 cada...) sem necessidade, e ainda debochou quando eu me queixei que ela estava sendo desatenta e ineficiente. As pessoas à minha volta me olharam feio porque, óbvio, EU estava sendo histérica, EU estava destratando uma velha e EU estava fazendo tudo errado. O fato de EU pagar o salário daquela múmia para que ela bata papo ao telefone no meio do expediente, grite e seja grosseira com os outros, dê informações erradas e seja irônica quando questionada, claro, NÃO CONTA. Para traduzir os meus documentos na Inglaterra: uma tarde. Para traduzir os documentos dele no Brasil: uma semana e erros na tradução. Conclusão óbvia na fila do cartório (pela 53429364 vez no mesmo dia): "Vamos mandar tudo isso e todos eles à merda e nos casar na Inglaterra?" "Vamos!"

E ele foi embora no vôo das quatro. Sou durona no aeroporto; ele é bem mais emotivo que eu. Meus pais por perto, eu sem graça com aquele "abraçamento e beijamento" todo, a loira maquiadérrima do quiosque de jóias me fuzilava com os olhinhos azuis miúdos. Ele ficou brincando no setor de embarque, usando o carrinho de bagagem como patinete, fingindo entrar e depois aparecendo de novo pela porta de vidro fumê do embarque da British Airways, até que se foi pelos próximos três meses. Não choro. Mas o pedaço meu que ele leva dentro da bagagem me faz falta e, mesmo que eu não fale para ninguém da minha dor, ela dói.

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Terça-feira, Janeiro 11

Updates! Updates!

Chegamos de Paquetá ontem, e nesse meio tempo já estivemos em Petrópolis, Teresópolis e saracoteando pelo Rio. Acho que não vai dar tempo de irmos a Búzios e a Penedo (colônia finlandesa aqui no Rio de Janeiro). Amanhã vamos ao centro catar toda a papelada traduzida e aproveitar para ir ao consulado para mais um bate papo em prol do meu visto. E daqui a pouco, depois de um almocinho que incluirá feijão, arroz, salada, batata frita e bife (mais brazuca impossible!) além de algumas latinhas bááásicas de Bohemia, vamos à Igreja da Penha fazer fotos. Se os traficantes do Complexo do Alemão nos deixarem sair vivos de lá, volto logo com os resultados.

Paquetá foi invadida por uma horda de gente mal educada, que fala gritando, que joga lixo na baía de Guanabara e suja os parques e jardins da Ilha com restos de comida. Lastimável.

A belíssima arquitetura art nouveau da Casa das Artes de Paquetá:


Teresópolis:



No Barra Shopping eu finalmente conheci a Moony e o Ikari, respectivamente a menina saltitante e aquele que nunca sorri para a câmera. Lindos, fofos e completamente malucos; o orgulho de qualquer mãe, hohoho.


Eu que sou mais alta que eles fiquei parecendo uma anã nessa foto, além de estar preta do sol de Copacabana.

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Sexta-feira, Janeiro 7

sobre sonhos.

Ontem fomos a Petrópolis, a terra do Imperador. Ele reclamou o tempo todo do carro que alugamos, dizendo que não dá pra acelerar um 1.0 decentemente. Ok, então, lá vamos nós alugar um 2.0 hoje para subir a serra de novo, só que dessa vez pra Teresópolis.

Compramos ontem nossos primeiros móveis: uma mesa oval enorme com seis cadeiras. Antiguidade de segunda mão, pagamos barato por uma mobília que tem, no mínimo, uns 100 anos. Fiquei feliz pela compra. Tudo vai ser restaurado e entregue aqui em casa. Também arrematamos uma penteadeira antiga e uma cadeirinha toda fofa para acompanhar, por 200 reais. E hoje vamos procurar sofás, uma cristaleira, mesas laterais para a sala, cômoda e criado mudo para o quarto.

Há uns 15 anos atrás, tive um sonho, desses que a gente sonha, acorda e se lembra de tudo, e não esquece durante o resto do dia, da semana, do mês, do ano... Nunca mais. Bom, o sonho era assim: eu morava em Petrópolis, numa casa muito velha, que dava vista para um vale cheio de árvores. Toda a mobília da casa era escura e antiga, e havia um relógio enorme, daqueles de chão, logo na entrada. O clima do lugar era tão bom, tão acolhedor, eu estava tão feliz por morar ali, naquela casa cheia de história e lembranças de gerações passadas, que o sonho ficou preso na minha memória por todos esses anos.

A primeira vez que vi fotos da nova casa, soube que era antiga. Assim que entrei lá pela primeira vez, vi um relógio igualzinho ao do meu sonho, na entrada (que infelizmente foi embora junto com a antiga moradora). Comprei meus primeiros móveis em Petrópolis, e eles são escuros e antigos, como no sonho. E, sobre a vista:


Não vou dizer que é igual à do sonho, porque não tinha essa varanda em cima da garagem. Mas é bem parecida. E esses acontecimentos com cara de profecia cumprida me deixam feliz e em paz. Porque quando eu era pequena não conseguia imaginar meu futuro de jeito nenhum, ao contrário dos meus amiguinhos que sabiam o que iam ser quando crescessem, o que iam estudar na faculdade, quantos filhos iam ter, onde morariam. Eu nunca soube de NADA. Meu futuro era um buraco negro, um monte de folhas em branco num livro ainda por ser escrito, e eu nem sabia se as tais páginas existiriam mesmo - o destino podia ficar chateado comigo e arrancá-las. Conforme o tempo passava, e eu ia largando faculdades, abandonando projetos, me esforçando para saber qual era, afinal, a minha, o nevoeiro só aumentava e eu não enxergava o fim da estrada. Acabei me acostumando a andar meio às cegas, com farol alto na cara de todo mundo (para atacá-los, para me defender). No fundo eu achava que ou eu ia morrer muito cedo, ou algo que mudasse minha vida estava pra acontecer, algum dia. Bom... Bingo, né?

Amanhã vamos visitar a Ilha de Paquetá, que é um lugarzinho que muita gente considera cafona, mas que é muito significativo pra nós dois. E vá, não há romance que não seja meio brega; afinal, já disseram que todas as cartas de amor são ridículas. Que sejamos ridículos, pois.

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Terça-feira, Janeiro 4

do you speak english

Fomos ao consulado britânico hoje e fiquei sabendo que a "taxinha" para o meu visto de esposa custará a mixaria de mil e quatrocentos reais.

Hoje fomos bem tratados. Me lembro da primeira vez em que estive lá, descaso total por parte da paquiderme que me atendeu. Impressionante como, quando aparece um estrangeiro, o pessoal quer mostrar serviço... Essa subserviência colonial brasileira me dá náusea.

Falando nisso, ontem ele me disse que "conheceu várias pessoas" da última vez em que esteve no Rio. Bastava ele sentar numa pizzaria, por exemplo, que o povo das mesas em volta puxava assunto. Qual foi a última vez que você, cidadão comum brasileiro, sentou-se sozinho numa mesa de boteco e várias pessoas vieram lhe mostrar os dentes e oferecer amizade instantânea?

É impressionante o quanto esse meu país, tão foda em tantos aspectos, me decepciona tanto no quesito pessoas. Eu não vejo diferença nenhuma entre um ipanemense metido a besta, que puxa conversa com um estranho num bar só porque este é gringo, e um moleque de rua que estende a mão para um estrangeiro esperando receber em dólar. Bajulação ridícula. Se eu disser, em Ipanema, que moro em Duque de Caxias, é capaz daquela gente escarrar em mim. Se eu chegar loira de olho azul e enrolando a língua, eles me dão até a bunda se eu pedir. Cambada de puxa sacos interesseiros.

Aliás, o que são aquele bando de caras que ficam perambulando pelos bares de Copacabana, na alta temporada (quando eles sabem que vai estar lotado de turistas) tocando samba? PORRE. Em primeiro lugar, eles são péssimos músicos. Não sabem tocar NADA, espancam os instrumentos e se limitam a fazer barulho. Até eu toco cuíca e pandeiro melhor do que eles. Depois, cantam mal pra diabo. Não consigo saber qual samba eles estão estuprando, porque a dicção horrorosa é um truque pra encobrir o pequeno detalhe de que eles não sabem a letra. Na melhor das hipóteses eles nem tentam, e é um tal de "oiéalêiê olerê lalaraiá" e mais nada. E depois, o mais cara-de-pau do bando vira o pandeiro de cabeça pra baixo e pede, ou melhor, EXIGE que os turistas coloquem dinheiro ali. Vão de mesa em mesa "coletando", e se você der menos de dez reais, eles ficam parados na sua frente, esperando o "resto", de preferência em verdinhas. Ninguém merece.

Ano passado, o Brasil teve quatro milhões de visitantes. Para se ter uma idéia, até a Costa Rica teve mais do que isso. O problema é que as pessoas não têm inteligência pra promover o país. A imagem que se vende é a do turismo sexual, da mulata de bunda de fora rebolando no carnaval, do "exotismo". Nem todo mundo tem interesse nisso. Acabamos atraindo turistas de quinta, que não gastam dinheiro e estimulam a prostituição infantil. Ninguém fala nada da riqueza cultural, da impressionante diversidade, o turismo ecológico é pouco explorado, enfim... Aí embaixo, foto feita na última tarde de 2004, no calçadão de Copacabana. Tínhamos parado para ele passar filtro solar, e do nada dois aviões escreveram OI no céu. Ok, provavelmente propaganda da companhia de telefonia móvel que leva o mesmo nome, mas que foi uma baita coincidência, isso foi (ah, não sabe a história do OI? Depois eu conto).



Desconheço a razão, mas a aliança dele brilha mais do que a minha. Feitas do mesmo material, mesma cor, anatômicas, só que a minha eu quis menos larga porque tenho dedos muito finos. Eu acho que sou prática demais, às vezes. Levei meia hora pra entrar em meia dúzia de joalherias, olhar os anéis, escolher a melhor relação preço X qualidade, pagar e ir embora.

Em uma semana a tradução dos documentos dele ficam prontas (em Jersey ficou pronto em algumas horas... oh, well), e aí é dar entrada na papelada. Minha mãe disse que nunca me imaginou fazendo uma coisa dessas. Nem eu, mamãe...

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Segunda-feira, Janeiro 3

Férias forçadas

Vou acabar deixando isso aqui on hold até o meu aniversário.
Estou sem tempo para atualizar, ler os blogs alheios e etc. Não que eu esteja assim tão ocupada. Na verdade, os dias têm se passado bem preguiçosos. Ocorre que o meu hóspede é exigente e requer 100% de atenção. Confesso que às vezes isso enche um pouquinho os meus pacovás, talvez pela minha total falta de costume. O ex-namorado só me via aos sábados, e durante a semana mal nos falávamos. O atual fica em volta o tempo todo, e eu simplesmente não consigo fazer na-da sendo observada. Dois extremos. Mas não vou reclamar do segundo porque, até onde eu me lembre, era o primeiro que me fazia infeliz.

Estou comendo horrores, a dieta já foi pras cucuias porque minha mãe entra numas de bajular o hóspede com comida e eu acabo entrando na onda e enchendo meu prato. Como resistir a um feijãozinho temperado, sendo obrigada a roer uma salsicha? Fora os incontáveis chopps. O inglês até já aprendeu a pedir em português: "mais um choppinho, por favor". Fofo, mas fofa vai ficando também a minha barriga. Fevereiro e Março serão meses de fome, pra compensar toda essa farra gastronômica à brasileira.

Eis a minha locação do reveillon e os beija flores no terraço aqui de casa, que estão sendo implacavelmente fotografados pello Respectivo (explicando o encantamento: na terra dele não existem humming birds):


"Às vezes as pessoas deixam que os mesmos problemas as tornem infelizes por anos à fio, quando deveriam dizer apenas e daí? Essa é uma das minhas expressões favoritas; e daí? minha mãe não gostava de mim. E daí? Meu marido não faz amor comigo. E daí? Não sei como consegui sobreviver aqueles anos todos, antes de aprender esse truque. Custei muito a aprendê-lo - mas uma vez que a gente aprende, nunca mais esquece".

Dos diários de Andy Warhol.

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Sábado, Janeiro 1

De volta do break de ano novo.

Mudamos os planos e ficamos por Copacabana mesmo, no Merlin. Adoro hotéis: café da manhã delicioso, roupa de cama novinha e cheirosa todo dia, TV a cabo e frigobar cheio de calorias.

A festa do reveillon em si não é lá essas coca-colas. Copacabana já esteve mais cheia, o foguetório já foi mais bonito e a cascata de fogos do hotel Meridien já foi bem mais suntuosa. Estou cheia de fotos, aqui; amanhã posto o resto. Passamos a noite numa mesa do Mab's bar, mais conhecido como o "Bar das Putas". Nos sentamos lá sem saber da fama, no primeiro dia, e foi TÃO divertido observar o movimento das meninas, que viramos habituês. Acho que muitos garçons devem ter pensado que eu fosse "menina" também (morena brasileira + branquelo estrangeiro + bar de frequência duvidosa = puta). As patricinhas no hotel também me olhavam de cima a baixo (não é neurose minha, não; dessa vez até ele, que é desligadíssimo, percebeu). Pelo visto muita gente achava que eu não tinha o direito de estar ali, ou que só loiras gatinhas merecem ter um namorado atencioso, bonito e que frequenta lugares legais. Não perco o bom humor. Eis uma das vantagens do capitalismo selvagem: pagou, entrou. As coitadas são elas, as desafortunadas portadoras de um raciocínio tão esquerdo e tacanho; EU estou no lucro.

E, quando se está feliz, a pequenez alheia passa despercebida. Taí os (dois) motivos:


Simples mas de boa qualidade, como eu queria. Afinal não é um enfeite.
Tive uma sensação estranha enquanto esperava o dono da joalheria buscar os anéis no nosso tamanho. Nem parecia que era eu ali, comprando um par de alianças! A ficha caiu pesadamente.

Sobre o novo ano que começa hoje, há muito tempo desisti de resoluções. Estranhamente, as melhores coisas que me aconteceram na vida chegaram sem que eu fizesse o me-nor esforço. Tudo aquilo que lutei pra conquistar, foi perdido ou não se concretizou. Por isso meu lema é: sentar e esperar. Ainda que seja muito, muito longa a espera. 2003 foi um ano terrível. No dia 31 eu não tinha nada de bom pra recordar. 2004 me trouxe a libertação de um trabalho que me fazia infeliz, de uma pessoa que dizia gostar de mim mas que só conseguia me criticar e me fazer sentir a última das criaturas, do pesadelo de perder a nossa casa (minha mãe conseguiu terminar de pagá-la sozinha, com a pensão que, muito justamente, lhe foi concedida após a morte do meu padrasto) e, como se não bastasse, um amor de verdade na minha Inbox.

Eu espero que os próximos meses e anos mantenham o padrão. Chega de nuvens de chuva; eu quero alguns arco íris na minha biografia.

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