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Sexta-feira, Fevereiro 11
Eu hoje descobri que tenho uma vida muito interessante.
Eu passo meus dias fazendo muita coisa e porra nenhuma ao mesmo tempo. ![]() ![]() Meus melhores amigos. E também meu maior problema; que é, no momento, descobrir um modo de reunir ambos sob o mesmo teto. Como eu já havia dito antes, a Inglaterra tem uma lei (bastante estúpida e preconceituosa) que, a pretexto de "evitar doenças", impede a entrada de animais de países pobres. Sim, de países pobres. Porque há uma lista de países cujos bichos têm livre acesso ao Reino Unido, e 90% desses países têm renda per capita astronômica se comparada à dos países da "listinha negra". A desculpa é que a hidrofobia foi erradicada do Inglaterra, e não do Brasil, por exemplo. Mas a hidrofobia também não está erradicada na França; por que então os bichinhos franceses podem entrar e os brasileiros não? Enfim. A lei existe, não vai mudar e tem que ser respeitada. Para ingressar com um animal de um país da "lista negra" na Inglaterra, o bicho precisa cumprir uma "quarentena" de SEIS MESES trancafiado numa gaiola em alguma clínica veterinária. Quem conhece animais sabe que eles podem entrar em depressão profunda caso se sintam abandonados (hipótese bem provável, nesse caso) e até morrer. Essa opção, para mim, está descartada desde o início. A outra alternativa seria comprovar que o bicho tenha vivido por pelos menos seis meses num dos países cuja entrada para o Reino Unido é liberada. E que lá tenha sido vacinado e tido implantado um microchip subcutâneo para que possa ser monitorado. Essa é a única esperança de levar a Chantilly para a Inglaterra, mas para isso eu teria que passar seis meses num apartamento alugado na França, um país que eu mal conheço, cuja língua me é absolutamente estranha, longe do meu marido (seria recomendável que já estivéssemos casados, assim eu conseguiria um visto para permanecer na França por seis meses com mais facilidade), da minha casa, sem absolutamente nada para fazer e sem conhecer ninguém. Não sei o que fazer e o momento da partida está chegando. Sei que muitos já me julgaram fresca. "É só um gato, compra outro quando chegar lá!". Sei de pessoas que deixaram para trás um pedaço de seus corações na forma de um cãozinho ou gatinho, por não querer submetê-lo à quarentena e por não poder mantê-lo em outro país. Admiro esse desprendimento. Eu queria ser assim, menos egoísta, me convencer de que o melhor para a Chantilly é ficar aqui com minha mãe, na casa que ela conhece, no clima a que está habituada. Mas todos os argumentos razoáveis derretem-se quando ela pula no meu colo. É, eu sou uma egoísta miserável que sente saudades do pêlo macio dela roçando minhas pernas de manhã enquanto escovo os dentes. Do ronronar impressionantemente alto enquanto acariciamos sua barriga. Do miado agudo e fofo, do cheirinho de whiskas quando ela boceja, e do olhar de profunda compreensão que ela me lança quando estou triste, e então se deixa pegar e abraçar e lambe meu nariz. Me pedir para escolher entre esses dois aí de cima é cruel, e a única coisa que posso fazer no momento é esperar. Marcadores: coração músculo involuntário, pixels, resmungos |