Terça-feira, Dezembro 28

Voltando e já indo

Passadinha rápida só pra avisar que o Natal foi uma beleza. Comi feito uma eritréia esfaimada e dormi antes da meia-noite; eis a minha querida rotina natalina anual. Nada de luzinhas, árvores de natal, caixas embrulhadas com papel vagabundo contendo presentes mais vagabundos ainda e aquela parentada que se reúne fingindo ser a família do comercial da Perdigão, mas que nos demais dias do ano nem procura fingir que se tolera.

O Natal não tem significado para quem não é cristão. E mesmo os cristãos mais esclarecidos afirmam que Jesus sequer teria nascido nesse dia. Para encurtar a história, eu ligo o foda-se para o "significado". Eu adoro Natal que, pra mim, é um dia em que minha mãe cozinha bastante, eu arrumo o meu quarto e como rabanadas. Não trocamos presentes em família porque não temos o hábito (foi um sufoco conseguir comprar algo pro Alaric), e não por nenhuma "convicção anticonsumista" de araque. Afinal, todo mundo consome horrores o ano inteiro, e quando chega o Natal querem bancar os "conscientes", incorporando o espírito dos adbusters reclamando que "o verdadeiro significado do natal está sendo deturpado" e que "não coaduna com o consumismo". Então tá.

Meu melhor presente do Natal de 2004 aterrisou em solo carioca na manhã do dia 25. Temos passado dias ótimos (fora o stress que é ter que ficar apertando-e-desapertando-a-tecla-sap-a-toda-hora), estamos muito felizes e fazendo planinhos. Há dois dias uma gatinha preta apareceu aqui na porta, foi adotada e batizada de Squeaky (isso porque ela guincha ao invés de miar). Pena que a Chantilly não gostou nadinha da história e eu tive que dá-la de presente para o rapaz que trabalha na empresa de segurança aqui do lado. Deu aperto no coração quando a vi indo embora no colo do homem, depois de dois dias em que ela nos ganhou com sua personalidade adorável. Mas eu já estou com problemas pra levar UM gato pro Reino Unido, imagine dois. Well, abaixo uma das fotos que fizemos da Squeaky, pequenas lembranças que guardaremos dela:


Cutest.

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Quinta-feira, Dezembro 23

Tears in Heaven

Eric Clapton no rádio. Vejo nada demais nele, sempre achei essa música piegas, mas entendi a dor. Não achei que fosse tentativa de faturar em cima da tragédia. Outro dia leio depoimento da mãe do guri morto, dizendo que ele reagiu violentamente quando soube que ela estava grávida, sugeriu um aborto e, diante da recusa, virou-lhe as costas, permanecendo ausente durante quase toda a gravidez. Bas fond...

Essa semana falei com ele pela primeira vez direto da casa nova. Finalmente o background da webcam mudou, haha. Tudo bagunçado, 5 graus do lado de fora e o sistema de aquecimento da casa é antigo e não é lá essas coisas. Poor baby... Mesmo assim nada o abala, ele não reclama de coisa alguma e o humor sempre nas alturas. Quando eu era um adolescente riot-rebel-depressiva, achava que pessoas assim não existiam. E que, se existissem, só podiam ser idiotas, no sentido patológico da palavra.

Best things in life:
Dormir sabendo que no outro dia não tem trabalho.
Fazer xixi quando se está apertado.
Batata frita.
Aquele jeans que não cabia mais ficando largo.
Chuva quando está quente demais.
Manhã de sol depois de muita chuva.
Achar uma nota de dez reais no bolso da calça.
Completar álbum de figurinhas.
Café fresco com pão quentinho e manteiga.
Cobertores + frio.
Cobertores + namorado(a) + frio.
Faltar ao trabalho por causa de resfriado.
Sair da dieta por um dia.
Parque de diversões.
Banho de chuva.
Quermesse de bairro com maçã do amor.
"Eu te amo"
"Eu também".
Coca cola com cubos de gelo.
Sair bem na fotografia.
Reprise de novela boa.
Filme bom inédito na tv.
Mudar de estação de rádio e pegar uma música legal começando.
Pipoca + cinema.
Bom dia + beijo de bom dia na cama.
CD novo.
Cheiro de livro novo.
Terminar de ler um bom livro.
Dor de cabeça que passou.
Ler gibi do Calvin.
Esmalte novo nas unhas.
Receber carta.
Receber cantada de nível.
Dançar, dançar, dançar.
Fazer malas para as férias.
Banho de banheira.
Dormir abraçado.
Fazer listas.

Agora alguém me faça sair desse site aqui. Ou não. Voltar à infância também é uma best thing in life. E só quem nunca curtiu o ócio pensa que ele é supervalorizado. Não troco salários de fome ou de sonho pelo prazer que acabei de ter e estou tendo: tomar um banho quentinho nesse verão-invernal do Rio (a chuva sempre foi a neve do natal carioca), fazer café fresquinho e vir ler sites bacanas comendo as primeiras rabanadas do Natal.

Por falar nisso, um bem feliz pra todos vocês.

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Quarta-feira, Dezembro 22

sobre o bebê.

Estava eu ontem voltando da lojinha de conveniência da esquina quando, passando por um terreno baldio, vejo um cobertor todo enrolado. De uma das extremidades escapava um pequeno pezinho branco, e mais acima consegui distinguir o que seria as costas de um bebê. Chamei o segurança da rua e ele veio checar. Era mesmo um bebê, cordão umbilical e tudo. Um menino recem nascido. E morto.

A polícia foi chamada, a tragédia virou a atração do dia (como sempre... a desgraça alheia deve ser mesmo muito divertida), e um menininho alegou ter visto um casal, num carro preto e grande, deixar o embrulho ali na noite anterior, quando chovia bastante e a rua estava quase deserta. O corpinho passou o dia todo lá; só no fim da tarde a polícia veio finalmente recolhê-lo.

Hoje pela manhã o segurança, que tambem é policial militar, voltou com a notícia de que o bebê tinha sido estrangulado antes de ser abandonado. Minha mãe ficou tão nervosa que nem conseguiu dormir. Fiquei pensativa; será que a mãe dessa criança pôde dormir à noite?

Tanta gente nesse Natal lamentando a perda de filhos, lamentando não conseguir tê-los. Não quero soar hipócrita, porque sou pró escolha (mas sem transformar aborto em método contraceptivo, fazendo um por ano como se fosse a coisa mais natural do mundo). Mas levar uma gravidez a termo para depois assassinar é demais. Já que deixaram que a criaturinha nascesse, por que não dar, vender, ou exercitar a generosidade tentando aprender a amá-la?

Ê, Natalzinho. Uns se preparam para celebrar o nascimento de uma criança especial. Outros matam as suas próprias. E que venham as rabanadas.

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Segunda-feira, Dezembro 20

layout novo, vida nova.

Porque o outro já estava enchendo e tal.
E esse clima não tem nada de primaveril anymore.

E daí que o nódulo era benigno; assim disse o radiologista. Fiquei nervosa ontem à noite, até pensei em organizar meu velório. Dormi, e acordei estranhamente calma.

Eu preciso de sugestões de presente para homens. Idéias? É patético, mas odeio dar presente; não por pão durismo, mas porque nunca sei o que dar, sempre temendo desagradar. Não sei o que comprar pro meu noivo e ele chega em cinco dias.




E a ceia de Natal vai tomando forma. Faltam os salgadinhos, porque sim, eu sou cafona e como risole na ceia. Acho melhor brindarmos com cerveja esse ano, já que o convidado estrangeiro entende de vinhos, e não quero errar na escolha. Apelo portanto para aquilo que, mesmo quando é ruim, é ótimo: cerveja!

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Sexta-feira, Dezembro 17

call in sick.

Doença.
Hospitais me deprimem. Ainda mais os públicos. Ou os baratos. As pessoas, triste dizer, têm um aspecto horrível. Os cheiros são nauseabundos. A sujeira está implícita, mesmo que não possa ser vista, na forma de secreções e bactérias bailando pelo ar. Detesto. Acho que ninguém devia ficar doente. Talvez fosse mais justo que todo mundo morresse aos 50 anos. No dia do quinquagésimo aniversário todos nós cairíamos mortos, sem dor nem degeneração física. Doença é coisa indigna. Ninguém merece passar por isso.

Meu pai vai operar os olhos. Eu tenho um exame delicado a fazer, cujo resultado talvez mude minha vida para muito pior. Estou assustada pelo meu pai, que já é idoso e vai passar por uma cirurgia complicada, e por mim, cuja saúde de ferro me fez auto confiante demais, a ponto de descuidar dela. É que não gosto mesmo de hospital. Nem de pensar em doença. Nem de fazer exames. Nem de tomar remédio. A hipocondria está fora do meu rol de neuroses de estimação.

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Quarta-feira, Dezembro 15

Hell's soundtrack

Hoje a coisa tá feia, por aqui. É meio dia e eu já ouvi Wando, Ivete Sangalo, Bonde do Tigrão, Leandro e Leonardo, Legião Urbana, Lambada, Xuxa, Negritude Jr. e agora está tocando algo que parece aqueles sertanejos-farofa de festa do peão boiadeiro de Barretos. Tudo isso numa altura, bem, digamos assim... rompe-tímpanos.

É. Parece que o vizinho de gosto duvidoso comprou um CD player.



Também não está fácil pra mim. Acabei de picar meus cartões de crédito. Comprei um bagulho lá em Jersey com um deles, a fatura chegou ontem e, mesmo sabendo que eu tinha o dinheiro para pagar, minha mãe fez escândalo. Ela sempre foi assim com relação a dinheiro, e mesquinharia é uma coisa que me dói.

Lembro que há uns meses atrás eu fiz uma compra de DEZ REAIS no cartão e ela ficou me olhando torto. "Dez reais? Isso você podia pagar com o SEU dinheiro". Ora, quando a fatura chegasse não seria o MEU dinheiro que ia saldar a dívida? Eu estava sem grana e não ia voltar em casa para pegar. Não é pra isso que cartão de crédito serve?

Adicional de cartão da dona Maria eu não quero mais. Peguei minha tesourona de picotar, cortei os dois pela metade e entreguei a ela. Que ainda resolveu fazer drama. "Será que quando casar você vai fazer isso com o seu marido? Ele vai dar na sua cara!" Ha. Nem ela, que me pôs no mundo, conseguiu fazer isso impunemente. A única vez que tentou eu tinha cinco anos e estava fazendo birra, entediada numa loja de sapatos. Ela me deu um tapa no rosto e levou outro no mesmo lugar (relevem, eu só tinha cinco anos e nunca mais fiz isso).

Cada vez me convenço mais de que o melhor a fazer é arrumar emprego logo que o visto permitir. Chega de depender de mais velhos (seja pai, mãe, namorado, marido) e ser tratada como se tivesse 12 anos de idade e ganhasse mesada.

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Terça-feira, Dezembro 14

blahblablah.

"O grande acontecimento do século foi a ascenção espantosa e fulminante do idiota."
Nelson.

Fui acordada ontem às SEIS E MEIA da manhã. Camisola, interfone. "Quem é" sonolento e, na cabeça, o pensamento "quem foi que morreu para eu estar sendo acordada no meio da madrugada?". Era o rapaz que tinha vindo entregar a mesa que minha mãe comprou. Entregar mesa às seis e meia da manhã de um segunda feira é quase demoníaco. Ok, a mesa é bonita e a ceia de natal vai ficar mais gostosa em cima dela.

Respectivo está preso em Londres. Neblina demais em Jersey, nada de avião, nem de ferry; hoje ele pegou um lento, lento, que vai demorar umas sete, oito horas para atravessar o canal e levá-lo pra casa. Cabine, livrinhos, comida boa. Às vezes os problemas trazem de brinde soluções que compensam.



Londres à noite. Foto feita pelo Alaric, diretamente da London Eye.


Recebi email de uma leitora. Sermão, claro. Recebo comments fofíssimos, mas raramente emails legais de visitantes. Parece que só se dão ao trabalho de abrir o Outlook quando é pra descer a lenha. Vai ver é mais divertido.

Eu ia responder, mas resolvi fazer um post. É que a moça (que afirmou ser brasileira e morar na Inglaterra) reclamava que eu estava metendo o malho na terra de Shakespeare. Que eu estava depredando verbalmente os hábitos de um país que me recebeu de braços abertos. Tive vontade de ser malcriada, mas como o meu pavio curto de nascença vem sendo esticado há anos, com grande esforço da minha parte, pisei no freio. Muita calma nessa hora.

É o seguinte, Dona Moça. Expressar sentimentos legítimos, por mais bizarros que sejam, não é errado. Mascará-los em nome de uma diplomacia forçada é que é. Eu não gosto de mudanças. Se eu pudesse escolher, jamais sairia do Brasil. Não por ser fã do "país tropical"; é que eu já estou acostumada a ele. Aqui, as vantagens me favorecem e os defeitos eu já nem noto. Infelizmente, para isso eu teria que abrir mão da companhia de alguém que revirou as gavetas da minha alma e achou uma coisa muito legal que estava guardada no fundo de uma delas e que eu julgava perdida. Pesando prós e contras, resolvi sim abrir mão de pai, mãe, amigos, inverno de 20 graus e verão de 42, idioma, programas de rádio, chopp na praia, andar de bike em Paquetá, ver tevê e cinema em português, me sentir cidadã...

Mas isso não é pouca coisa. Não é um processo fácil. Leva tempo para aceitar a "perda", é quase como o período de negação por que passamos quando alguém morre. Eu fico rabugenta e ranzinza, sim. Triste, com a sensação quase física de que algo vital estava sendo tirado de mim. Mas mantenho a esperança de que um dia, assim como a gente aceita a perda de alguém, eu vou aceitar a perda de parte da minha identidade. E até gostar de ganhar uma nova.

Você mesma deve ter tido suas dificuldades no começo. Ou não? Será que achou na prateleira dos supermercados tudo o que gostava? Será que já mudou-se fluente em inglês e com uma rede de amigos brasileiros e ingleses à sua espera? Será que levou a família, os amigos, o cachorro e por isso não sentiu saudade de nada, nem de ninguém?

Deixa eu viver essa fase. Acredito que ela seja necessária. Acredito que ela não seja eterna. Só não acredito em pessoas que não aceitam diferenças. Se a sua transição foi fácil, fico feliz. A minha tem sido complicada, porque no meu caso há vários fatores complicantes (depois falo deles). Não acredito que o país me "acolhe de abraços abertos". Eles terão que me engolir se eu me casar com um de seus cidadãos. Se eu aportasse por lá de mala e cuia, disposta a lavar pratos pra sobreviver, levaria um belo pé na bunda, fleuma britânica à parte. Nenhum país rico abre os braços para imigrantes pobres.

E se eu de alguma forma "difamei" o país e a cultura, lamento. Não tive mesmo a intenção de cuspir no prato em que talvez comerei. Mas quantas vezes o Brasil é difamado lá fora (nem por má fé, e sim por simples ignorância)? Então eles podem falar mal de nós, mas nós, como vivemos lá, temos que ficar caladinhos e achando tudo lindo? Desculpe discordar. Se eu vejo algo errado, seja no Brasil, na Inglaterra ou na Patagônia, tenho o direito de expressar a minha opinião. Eu vejo a humanidade como um todo; fronteiras são meras convenções politico-geográficas. Não é só porque eu talvez vá viver lá que sou obrigada a fechar meus olhos para os podres do Reino Unido. Nunca os fechei para os podres do Brasil.

Minha opinião pode mudar, sim. Aliás tomara. Mas no momento, ela representa o que sinto.
Nada mais válido do que isso.

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Domingo, Dezembro 12

Pequeno Desabafo

Domingo. Nove e meia da manhã e a campainha toca.
Nem preciso atender o interfone pra saber. Não é meu pai, não é nenhum dos meus amigos. São as "amigas" da mamãe. Eu nunca gostei de gente enfiada na minha casa. Quando era pequena, tinha trauma das sextas-feiras, porque era o dia em que a faxineira vinha. E ela ficava lá, cantando louvores evangélicos, se imiscuindo em cada canto da casa, fuçando minhas bagunças embaixo da cama. Nesses dias eu ficava pela rua, para escapar do incômodo daquela invasão forçada da minha privacidade.

Não mudei. A misantropia doméstica piorou com a idade. A casa onde moramos hoje não é enorme, mas é grande o bastante para as duas pessoas que vivem nela; até porque eu raramente saio do meu quarto. Mas quase sempre quando abro a porta dele, dou de cara com alguma dessas "amigas" sentadas no sofá da sala ou na minha cozinha. Deve ser coisa típica de classes menos favorecidas, porque no mundo dos ricos eu soube (sim, eu tenho amigos ricos que me contam coisas) que as pessoas são muito ocupadas e têm um desconfiômetro de melhor qualidade, com selo do Inmetro e tudo. Parece que a galera de classe média baixa se amarra no conceito de "ir na casa da fulana almoçar" ou "tava passando aqui em frente e resolvi...". Sabe como é.

EU sei como é. Mas não gosto, sabe? As "amigas" da minha mãe, por exemplo, ficam sabendo a hora que eu costumo acordar (porque elas chegam ANTES, e olha que nem acordo tão tarde assim). Ficam sabendo o que eu costumo comer. Estou com bobs no cabelo, creme na cara? Elas vão ver. Estou com dor de barriga, estou deprimida? Elas vão saber. Passo o dia todo de camisola? Elas vão fazer piadinha não-solicitada a respeito. Caramba. Elas nem MINHAS amigas são. E a minha intimidade fica lá, exposta igual Renoir no Louvre, para a apreciação dessas malas-sem-alça-nem-simancol.

Por que eu coloquei o "amigas" entre aspas? Porque eu tenho sérias razões pra desconfiar que essas pessoas não são amigas, apenas ficam voando em volta feito moscas para tirar proveito da bondade e ingenuidade da minha genitora. Elas estão sem dinheiro? A Maria empresta. Elas querem roupa nova, mas estão sem grana pra pagar? A Maria costura fiado, e cobra barato (quando cobra...), porque é "amiga". Elas estão entediadas em casa, com problemas familiares, doentes? A orelha da Maria vira o Muro das Lamentações. Mas quando é a Maria que precisa de alguém, de alguma coisa, EU só vejo um monte de costas sendo viradas... Algumas dessas "amigas" até insinuam que presente gostariam de ganhar no aniversário. E a boba da minha mãe compra. No aniversário da Maria, entretanto, às vezes ela não ganha nem telefonema dessas mesmas... er... "amigas".

Amizade, pra mim, tem que ser livre de interesses. Tem que ser pura para merecer o nome. Não tenho nenhum tipo de interesse nos meus amigos. São meus amigos porque são das raras pessoas nesse planeta cuja companhia e conversa eu aprecio. E isso, pra mim, é MUITA coisa. Que se dane se são ricos ou pobres, se podem me pagar rodadas de cerveja ou se só têm dinheiro para dividir uma lata de coca cola comigo. São pessoas especiais. Passaram no meu controle de qualidade e ganharam o direito de ter a minha amizade incondicional. E eu sei que isso significa muito para eles. Eu também tenho alguns "amigos-entre-aspas", mas assim que começo a sentir interesse, despeito ou abuso, eu corto. Aqueles que só aparecem quando querem pedir algo emprestado ou se pendurar na internet. Os que ficaram com raivinha quando viajei pra Inglaterra e me chamaram de "caça gringo" nas entrelinhas, que passaram a me ignorar ou disseram "isso não vai durar". Os que querem ficar enfiados aqui em casa o dia todo, e estão sempre atrás de colo, compreensão e assiduidade da minha parte. Esses não têm vida longa.

Porque eu procuro os meus amigos quando estou com saudades. Quando estou feliz e quero compartilhar (se estou triste fico na minha, porque só eu fabrico o remédio pras doencinhas da minha alma). Quando quero sair pra passear, quando um filme no cinema é a cara de um deles e eu o convido para assistir comigo. Às vezes demoro a procurar, sim. Às vezes eles somem por meses. Mas nossa relação é baseada na qualidade, e não na quantidade. Ninguém aporrinha ninguém, porque tudo tem a dose certa. Sal, açúcar, remédio e até afeto.

Agora eu vou lá tentar tomar o café da manhã na minha cozinha. Isso se as "amigas" da Maria deixaram uma cadeira disponível para mim. Ai, ai.

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Sábado, Dezembro 11

death of a www

O un-lovable.com morreu antes do prazo previsto. Quer dizer, morreu na hora certa, eu é que não fui avisada com antecedência. Eu sabia que o domínio ia vencer em Dezembro, só não lembrava quando. Cheguei em casa no dia 06 e, no meio da bagunça, esqueci de mandar email pra e-domínios perguntando. Eu também estava esperando que eles mandassem email, avisando que o domínio estava para expirar. Até que mandaram, sim; SEIS emails (ou disseram ter mandado), mas para uma velha conta do iG que não uso há tempos. SE, diante da falta de respostas, eles tivessem se dado ao trabalho de entrar no site, ver que estava sendo atualizado regularmente e procurado um email... Mas sabe como é.

Resultado: o domínio venceu, foi desativado, e não tive tempo de deixar um post avisando da mudança. Me deram a opção de renovar o registro para então fazer um post com o endereço novo e até mesmo redirecionar a página. Mas peralá, 40 reais pra renovar o un-lovable.com por UM ANO só pra deixar um recado? Soava meio idiota. Resolvi apertar o bom e velho botãozinho foda-se e deixar que, quem quisesse me achar, tivesse um pouquinho de trabalho e, sei lá, procurasse no Google.

Tive que migrar para outro domínio. Eu tinha o suicidalgirl.com registrado, mas tinha enjoado do nome. Ia registrar outra coisa, mas na pressa de arrumar logo um lar virtual, pus o site nele mesmo. Dei o endereço novo a quem havia pedido, por email. Avisei a algumas pessoas via comments. Tudo estava correndo bem, quando ontem à tarde o site desapareceu. Todo.

Passei o dia mandando emails pro host, a dona só me respondeu agora à tarde, e não faz idéia do que aconteceu. O que interessa é que agora pelo menos EU estou vendo esse site. Mais alguém? Por favor, quem estiver vendo tudo OK, favor dar um alô nos comments. Soube que anteontem algumas pessoas não estavam conseguindo acessar.

Enfim, tomei uma canseira pra ajeitar a casa. O blog sempre foi importante para mim. Pode parecer coisa de nerd, e é, mas sem ele eu fico meio que sem rumo na internet, "navegando" à deriva. Pronto, tenho a minha âncora virtual de novo. Sejam bem vindos à casa nova.

Haha, "girlie talk" das duas aí em cima, que bonitinho.
Vou ali sair da dieta tomando umas cervejas e já volto.

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Quarta-feira, Dezembro 8

little big things.

Fui hoje ao centro TENTAR comprar uns bagulhos pro Natal. Mas estava tudo tão lotado e quente que pedi arrêgo e voltei antes da metade da primeira rua que pretendia visitar. Passei dois meses falando mal do frio, que me obrigava a me esconder embaixo de camadas e mais camadas de lã e couro para sair às ruas, mal podendo me mexer (eu me sentia o próprio Robocop!). E já dois dias depois começo a reclamar do verão carioca. Será que existe algum país no mundo que tenha um clima perfeito?

Desisti do projeto "árvore de natal 2004". Todas muito caras e muito feias. A única que gostei custava a mixaria de 250 pembas. SEM enfeites... Bom, pelo menos deu tempo pra comprar presilhas de cabelo, pulseirinhas, brincos, colares... Para mim? Não. Para as minhas bonecas.

Acabei de receber um email adorável. Disse que sente falta da nossa conversinha matinal antes de sair para o trabalho. Que, ao entrar no banheiro ontem pela manhã, viu o meu pote de condicionador de cabelo esquecido na prateleira, o chuveiro regulado para a minha temperatura e essas pequenas coisas falam em volumes altos.

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Terça-feira, Dezembro 7

where the heart is.

Acabo de perder um post enorme porque começou a chover e a energia foi pro outer space.

Deu para notar que cheguei. Mil graus à sombra, no Rio, como sempre. O vôo atrasou, como sempre. Dessa vez, no entanto, fiz amizade com dois brasileiros boa-praça enquanto esperava pelo embarque: uma baiana que estava vindo pro Rio, voltando da Alemanha onde esteve trabalhando (pelo jeito, roupas e histórias desencontradas que ela contou, provavelmente como prostituta, o que estou bem longe de condenar. Se lá pagam melhor do que aqui, way to go!) e um paulistinha playboy cheio de marra, que voltava do intercâmbio em Londres. Diferentes trajetos de vida, mas todos com saudade do feijão, do calor e de falar português. Ah, brasileiros. Deliciosamente previsíveis.

Meu quarto foi redecorado à minha revelia, como sempre. Saí da dieta no vôo, e continuei fora dela na primeira refeição em solo pátrio: arroz, feijão, frango à milanesa e batata frita, com hectolitros de guaraná Antarctiva (yay!).

Esqueci um monte de coisas em Jersey. Meu tio está no hospital, mas passa bem. Ganhei calcinhas da minha mãe. Vi novela. As roupas das minhas Barbies couberam nas Pullips. As malas ainda estão jogadas pelo chão do quarto. Estou com dor de barriga. Meu pai diz que voltei magra e pálida; meu sonho gótico se realiza com alguns anos de atraso. Minha internet está lenta e instável, provavelmente por causa do modem (se eu sumir, já sabem). Preciso mudar o site de endereço, mas antes preciso me decidir quanto ao layout. Chantilly passou umas boas horas sem me olhar na cara. Amigos ligaram pelas novidades e me chamando para beber. Estou estranhando meu teclado português e a tela, enorme, de 17 polegadas, me deu dor de cabeça. Estou feliz, re-reconhecendo território, meu cheiro nas coisas. Mas sinto que falta algo nesse verão de fim de ano carioca, e sei o que é. Não estou em casa lá. Não estou mais tão em casa aqui, porque ele não está comigo.


Sinto saudade e, quanto maior a distância, maior a insegurança que ela traz de brinde. O fato de eu ser paranóica não significa que o mundo não esteja contra mim.

Se o modem deixar, volto já.

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Sábado, Dezembro 4

Goodbye.


Bye bye, England.
Amanhã às nove eu vou embora. 14 horas de avião, três semanas longe dele, sabe-se lá quantos meses longe daqui.

É estranho, mas sinto que amanhã começa uma contagem regressiva para algo que eu nem sei o que é. Isso assusta a quem nunca gostou de mudanças por nunca ter aprendido a lidar com elas. Curso intensivo, então.

Penso em morder a barriga gorda da minha gata gorda. Fazer fofoca com a minha mãe, rir das abobrinhas do meu pai. Beber com meus amigos, comer bobagem por uns dias e depois voltar à dieta. Ver bastante programa lixo na TV. Contar "como foi a viagem" umas 62374186 vezes para as curiosíssimas amigas da minha mãe. Organizar a papelada pro casamento (se é que vai dar tempo; não estou levando muita fé nisso). Planejar a estadia dele aqui, em Dezembro/Janeiro. Planejar a ida da Chantilly, quando eu for embora em definitivo. Sentir saudade dele. Curtir a chegada de um Natal que será especial, esse ano. Aproveitar a companhia das pessoas que eu vou perder, conhecer os lugares que nunca visitei e que passarei muito tempo sem poder visitar. Fechar portas que ficaram meio abertas, porque portas meio abertas são perigosas. A gente sempre esquece e dá com a cara em alguma delas. E isso dói. A partir de amanhã, tenho algumas portas a fechar, e outras a abrir. Mãos à obra.

Vejo vocês em dois dias.
E vejo você em vinte e um.

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Quinta-feira, Dezembro 2

ho ho ho

Ontem à noite fomos medir os cômodos da casa, para que possamos comprar os móveis no Brasil. Vi as primeiras casas iluminadas. A maioria de gosto questionável. Sou contra entupir residências de luzes multicoloridas piscantes, trenós, renas. Casa é casa. Shopping center é OUTRA coisa.

Enfim. Natal. Dentro de alguns dias, olha Santa Claus aí, gente.
Eu amava Natal, quando pequena. Os cheiros vindos da cozinha me acordavam primeiro o nariz, depois as glândulas salivares, e só depois, bem depois, o cérebro (é, ele sempre foi meio preguiçoso). Minha mãe já estressada às oito e meia da manhã porque o pão de rabanada havia esgotado na padaria. E dá-lhe abrir latinhas de leite condensado e eu a lamber todas. E os desenhos natalinos na sessão da tarde, os especiais que todos os programas faziam, tudo era tão “natal” que não tinha como não se deixar envolver pelo clima. Até hoje me lembro do desenho de um burrinho que passou na noite de um certo natal, tão lindo que inundou a retina. E a animação de “Rudolph, a rena de nariz vermelho”, um clássico da minha infância?

Então comecei a notar que o Natal das famílias dos comerciais do peru Sadia e do pernil Perdigão eram grandes, a árvore de Natal era enorme, a mesa farta, as crianças impecavelmente vestidas tinham sorrisos pregados no rosto. Meu natal era, invariavelmente, representado pelos mesmos personagens: eu, meu pai e minha mãe. Nada de tios, priminhos, vovôs... Família desunida é assim mesmo. E honestamente, melhor que assim fosse. A família do meu pai é extremamente hipócrita, deus me livre de tê-los à mesa. A da minha mãe é pobre, nunca tive muito contato com eles, e nos raros encontros que tivemos sempre fui tratada como um “bicho raro”, o que muito me agoniava.

Depois minha mãe separou-se do meu pai e foi embora de casa num dia 23 de Dezembro. Eu estava assistindo a um programa vespertino, ela arrumava chorosa as poucas coisas que levou. Ao se despedir de mim, imersa em lágrimas e culpa, deixando claro que "a mamãe não está te abandonando, filha, vou vir te ver quase todos os dias", eu respondi com um tchau meio distraído e sequer fui levá-la no portão. Na época me pareceu normal, a atitude. Mas hoje vejo que foi estranhíssimo esse meu desapego. Estratégia de proteção? De qualquer forma, lamento muito por isso. Lamento por tanta coisa, mãe...

Um Natal feliz foi quando meus pais fizeram um buraco na cerca do jardim para dizer que havia sido o papai noel que havia aberto com um alicate, para poder passar com o trenó... Haha. E o mais bacana foi o circo que eles armaram uns dois dias antes, com meu pai reclamando que “alguém havia roubado a caixa de ferramentas dele”; o que me causou enorme desgosto, porque eu sempre adorei brincar no meio dos martelos, pregos, parafusos e porcas... vá entender criança, vá. E na manhã de natal, junto com o meu presente (um boneco que tinha pipi, fazia pipi e vinha com um penico... Mas claro que eu amei, afinal, foi o que eu havia pedido), apareceu a caixa de volta, porque “papai noel é honesto, pegou as ferramentas que precisava mas devolveu!”. Ai...

No ano seguinte eu briguei com uma coleguinha mais velha perto do Natal e ela, crente que ia me matar de tristeza, berrou a plenos pulmões: “bobona, Papai Noel não existe!”. E eu, que sempre havia desconfiado mesmo quando acreditava piamente, apenas sorri e disse “eu já sabia” - criança blasé...

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