"
O grande acontecimento do século foi a ascenção espantosa e fulminante do idiota."
Nelson.
Fui acordada ontem às SEIS E MEIA da manhã. Camisola, interfone. "Quem é" sonolento e, na cabeça, o pensamento "
quem foi que morreu para eu estar sendo acordada no meio da madrugada?". Era o rapaz que tinha vindo entregar a mesa que minha mãe comprou. Entregar mesa às seis e meia da manhã de um segunda feira é quase
demoníaco. Ok, a mesa é bonita e a ceia de natal vai ficar mais gostosa em cima dela.
Respectivo está preso em Londres. Neblina demais em Jersey, nada de avião, nem de ferry; hoje ele pegou um lento, lento, que vai demorar umas sete, oito horas para atravessar o canal e levá-lo pra casa. Cabine, livrinhos, comida boa. Às vezes os problemas trazem de brinde soluções que compensam.

Londres à noite. Foto feita pelo Alaric, diretamente da
London Eye.
Recebi email de uma leitora.
Sermão, claro. Recebo comments fofíssimos, mas raramente emails legais de visitantes. Parece que só se dão ao trabalho de abrir o Outlook quando é pra descer a lenha. Vai ver é mais divertido.
Eu ia responder, mas resolvi fazer um post. É que a moça (que afirmou ser brasileira e morar na Inglaterra) reclamava que eu estava metendo o malho na terra de Shakespeare. Que eu estava depredando verbalmente os hábitos de um país que me recebeu de braços abertos. Tive vontade de ser malcriada, mas como o meu pavio curto de nascença vem sendo esticado há anos, com grande esforço da minha parte, pisei no freio. Muita calma nessa hora.
É o seguinte, Dona Moça. Expressar sentimentos legítimos, por mais bizarros que sejam, não é errado. Mascará-los em nome de uma diplomacia forçada é que é. Eu não gosto de mudanças. Se eu pudesse escolher, jamais sairia do Brasil. Não por ser fã do "país tropical"; é que eu já estou acostumada a ele. Aqui, as vantagens me favorecem e os defeitos eu já nem noto. Infelizmente, para isso eu teria que abrir mão da companhia de alguém que revirou as gavetas da minha alma e achou uma coisa muito legal que estava guardada no fundo de uma delas e que eu julgava perdida. Pesando prós e contras, resolvi sim abrir mão de pai, mãe, amigos, inverno de 20 graus e verão de 42, idioma, programas de rádio, chopp na praia, andar de bike em Paquetá, ver tevê e cinema em português, me sentir cidadã...
Mas isso não é pouca coisa. Não é um processo fácil. Leva tempo para aceitar a "perda", é quase como o período de negação por que passamos quando alguém morre. Eu fico rabugenta e ranzinza, sim. Triste, com a sensação quase física de que algo vital estava sendo tirado de mim. Mas mantenho a esperança de que um dia, assim como a gente aceita a perda de alguém, eu vou aceitar a perda de parte da minha identidade. E até gostar de ganhar uma nova.
Você mesma deve ter tido suas dificuldades no começo. Ou não? Será que achou na prateleira dos supermercados tudo o que gostava? Será que já mudou-se fluente em inglês e com uma rede de amigos brasileiros e ingleses à sua espera? Será que levou a família, os amigos, o cachorro e por isso não sentiu saudade de nada, nem de ninguém?
Deixa eu viver essa fase. Acredito que ela seja necessária. Acredito que ela não seja eterna. Só não acredito em pessoas que não aceitam diferenças. Se a sua transição foi fácil, fico feliz. A minha tem sido complicada, porque no meu caso há vários fatores complicantes (depois falo deles). Não acredito que o país me "acolhe de abraços abertos". Eles terão que me engolir se eu me casar com um de seus cidadãos. Se eu aportasse por lá de mala e cuia, disposta a lavar pratos pra sobreviver, levaria um belo pé na bunda, fleuma britânica à parte. Nenhum país rico abre os braços para imigrantes pobres.
E se eu de alguma forma "difamei" o país e a cultura, lamento. Não tive
mesmo a intenção de cuspir no prato em que talvez comerei. Mas quantas vezes o Brasil é difamado lá fora (nem por má fé, e sim por simples ignorância)? Então eles podem falar mal de nós, mas nós, como vivemos lá, temos que ficar caladinhos e achando tudo lindo? Desculpe discordar. Se eu vejo algo errado, seja no Brasil, na Inglaterra ou na Patagônia, tenho o direito de expressar a minha opinião. Eu vejo a humanidade como um todo; fronteiras são meras convenções politico-geográficas. Não é só porque eu talvez vá viver lá que sou obrigada a fechar meus olhos para os podres do Reino Unido. Nunca os fechei para os podres do Brasil.
Minha opinião pode mudar, sim. Aliás tomara. Mas no momento, ela representa o que sinto.
Nada mais válido do que isso.
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