Domingo, Outubro 31

Nasce um Jack O'Lantern...


Nunca pensei que fazer uma porcaria dessas fosse tão divertido.
O Halloween não é lá muito famoso na Inglaterra. A tradição foi importada pelos yankees, que colocaram pilha alcalina na brincadeira, e a revenderam pelo dobro do preço pros ingleses - que decidiram não comprar, HAHA.

Não vi nenhuma criancinha vestida de monstro, e poucas casas tinham decoração típica. Mas é claro que sempre há quem queira lucrar com a inocência consumista das criancinhas britânicas, e enfeite o quintal para vender umas abóboras superfaturadas...








Making of e resultados:



Daqui a 20 dias mudança para a casa nova, e eu que gosto de empacotar e organizar coisas estou animada.
Dentro de cinco semanas, Rio de Janeiro, beijar minha gata, fofocar com a minha mãe, abraçar o meu pai, fugir de alguns amigos-entre-aspas e organizar o meu casamento.
Nada de igreja, bolo, vestido, pessoas.
Assinar o papel basta e então eu mudo de nome (porque eu quero, e não porque me seja imposto).

Sobre os filmes detestados, vale lembrar que deixei de fora da lista os fáceis. Merdas como American Pie, Sexta Feira 13, filmes do Van Damme e da Xuxa são piada pronta, ou seja, nem vale a pena perder tempo dizendo que não se gosta (alguém que interessa por acaso tolera essas bombas?). Tentei listar filmes que uma pessoa com bom senso e alguma cultura teria tudo pra gostar, mas que por alguma inexplicável razão, não lhe desceram pela goela. Dito isso, aviso que se trata da minha opinião. Discordar é permitido; me mandar introduzir artefatos anatômicos em locais recônditos da minha anatomia também, mas não merecerá consideração.

...E o troféu tomate podre vai para:
01. Clube da Luta (não gosto de filmes verborrágicos cuja principal finalidade da verborragia é fazer as pessoas entenderem nada e, por causa disso, acharem o filme ótimo).
02. Harry Potter (literatura meia bomba para crianças injustamente alçada à categoria de arte... Fazendo o quê nos cinemas eu ainda não entendi).
03. Matrix (não aguentei a primeira meia hora do primeiro filme. O depoimento de quem viu até o fim e não gostou, me convenceu de que fiz a coisa certa ao desligar a TV e ir dormir mais cedo).
04. 2001 (desculpem os fãs do Kubrick, que eu também adoro, e desculpem os intelectuais que entenderam o recado. Eu só gosto da sequência inicial dos macacos e da trilha sonora; o resto me cansa).
05. O Resgate do Soldado Ryan (carnificina excessiva numa historia inverossímil e mal contada).
06. Casablanca (eu comecei a roncar antes do Sam "tocar de novo" e só acordei nos créditos finais porque o ronco do meu namorado estava mais alto e eu levei um susto).
07. A Fantástica Fábrica de Chocolate (eu adoro citar esse porque todo mundo adora e eu achei uma merda, aí todo mundo fica chocado e não acredita que eu não goste. Mesmo efeito quando eu digo que não gosto de chocolate).
08. The Wall (acho que eu sou a única fã do Pink Floyd que acha The Wall um porre. Se é pra ver videoclipe gigante eu prefiro ligar na MTV, onde pelo menos eu posso usar o tempo das vinhetas pra ir ao banheiro).
09. A Noviça Rebelde (junta, num só filme, quatro coisas que eu odeio: musical, crianças, Áustria e a Julie Andrews).

Há mais filmes nessa lista, depois eu lembro.
E eu tirei O Senhor dos Anéis pelo mesmo motivo que Harry Potter quase saiu.
É que esses filmes estão quase na categoria "piada pronta".
E qualquer coisa nas categorias "Musical", "Comédia", "Guerra" já merece um pé atrás.

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Quinta-feira, Outubro 28

no answers

<> Gosto "tanto" das Powerpuff girls. < / ironia >
Mas, se eu fosse uma delas, eu seria assim:

Às vezes parece que, quando começo a me sentir feliz de verdade aqui, aparece uma coisa qualquer pra estragar tudo. Sim, as pessoas são diferentes umas das outras. Mas em certos aspectos, até que elas podiam ser um pouco mais padronizadas... Estou me referindo aos aspectos bons, pois os ruins já são padrão faz tempo. Sei lá. Passei oito anos da minha vida com um cara que era totalmente diferente do cara com o qual eu talvez passe os próximos oito ou mais anos, melhor das hipóteses. Toda hora eu "dou com a cara na parede", no sentido de me deparar com uma reação inesperada com a qual não sei lidar.

Ok, assumo a incompetência. Lidar com gente está longe de ser a minha especialidade. E os "manuais de instruções da raça humana" (aka livros de psicologia) nunca responderam às minhas perguntas.

O meu ex é um cara legal. Um fdp, mas com um bom background. Caráter meio duvidoso, mas nunca roubou dinheiro da minha bolsa, por exemplo - não que eu tenha notado. Não gostava de trabalhar, mas and so, eu também não gosto. O problema é que acreditava piamente que o fato de ele sofrer as consequências por não ter emprego e salário era uma coisa muito injusta. O mundo era cruel, malvado, e ele devia ser indenizado pela humilhação de ter que sobreviver de parcelas do FGTS e aturar eventuais subempregos. Tinha fé inabalável de que seria um escritor famoso, e ficava bravo, muito bravo, quando eu diplomaticamente jogava um balde de água fria em cima do seu sonho, transformando em lama o seu pó de pirlimpimpim (Monteiro Lobato, eu não gosto de você, mas vou usar a referência sim).

Não deu certo porque cansei de ser usada, e ele cansou de mim (talvez não de me usar, mas aí é outro papo). Ele queria que eu agisse o tempo todo como a semideusa intelectual que ele pensava que eu fosse, ou queria que eu fosse. Só que eu sou, sempre fui e serei uma eterna pós-adolescente, com mentalidade de jardim-de-infância às vezes, e o fato de eu ter os quatro personagens do South Park, versão polipropileno, sentadinhos em cima da minha CPU, ele nunca conseguiu engolir. E eu nunca consegui engolir o fato de ter que emprestar dinheiro, sem garantia de devolução, para um camarada que me tratava bem mas não dizia "eu te amo" porque estava sempre decepcionado comigo e ainda ria da cara de quem acordava cedo pra pegar no batente. Em oito anos de namoro, se me deu três presentinhos, foi muito.

O tiro de misericórdia foi eu ter emprestado dinheiro para ele voltar para casa, e ele me ligar de lá todo feliz, dizendo que havia dado parte do dinheiro restante para a sobrinha e admitir que emprestara o resto para o irmão, que dificilmente pagaria. A favor dele estavam a inteligência, o senso de humor, a misantropia irmã gêmea da minha, e um certo zêlo fofo. E só. De resto, borracha em cima.

O atual é um anjo. À noite, na cama, eu às vezes esbarro nas asas dele (anjos urbanos não têm asas durante o dia). Sinto que faz diferença eu existir, diferença positiva e desinteressada. Eu não sei cozinhar (ok, frito ovos, faço bolo seguindo a receita e meu miojo com catchup merecia prêmio culinário). Ele tem faxineira e, na prática, não precisa de mim para limpar a casa. Tem dinheiro o suficiente para não se preocupar se EU tenho. E é um poço artesiano de virtudes. Gosta de discutir a relação (eu não, mas vamos combinar que é uma evolução na raça masculina). É inteligente a ponto de me fazer sentir com o QI do Forrest Gump. Nunca faz cara feia para coisa alguma, nunca critica as minhas atitudes, demonstra interesse verdadeiro por tudo o que me interessa. E eu amo quando ele chega em casa, estende os bracinhos na minha direção e diz "oi!". Mas de vez em quando, lidando com ele, eu esbarro num erro 404, page not found. Information not available on database. Tenho vários, muitos dedos. Queria poder perguntar algumas coisas, entender tantas, mas tenho medo de meter a mão na superfície desse lago tão calmo e acabar enchendo-o de ondas. Desnecessárias, quem sabe. Quem sabe?

Sabe quando você ia postar uma coisa e acaba postando outra totalmente diferente?

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Quarta-feira, Outubro 27

the cellar's door

And I find it kind of funny, I find it kind of sad

The dreams in which I'm dying are the best I've ever had
O que você esperaria de um filme que, para ser entendido, necessita que o espectador leia trechos de um livro que até aparece na tela, mas cujo conteúdo nunca lhe é revelado? Bem, eu acabei de ver esse filme, e não estava esperando na-da. Isso porque quase todas as pessoas que conheço e que o viram simplesmente adoraram. Medo de unanimidades, e já peguei o DVD na prateleira com um misto de excitação e preconceito na cabeça.

Como era de se esperar, assisti ao filme atentamente (descontados eventuais erros de interpretação que eu possa ter feito: filme em inglês, sem legendas) e, no fim, embora bem impressionada pela narrativa, me vi boiando. Como sempre faço quando isso acontece, fui pra internet procurar análises, interpretações, ver o que o resto do mundo falava do filme. Achei uma infinidade de sites, todos variações sobre o mesmo tema, entre os quais os mais significativos foram-esses-três. Finalmente, achei os trechos do livro necessários para o compreendimento da obra e, apesar de ter achado esse um jogo sujo do diretor, não deixa de ser interessante, pelo inusitado do artifício.

A procura me fez lembrar da minha velha lista de 20 Filmes Preferidos e 20 Filmes Detestados no YMDB. A lista dos preferidos só me rendeu elogios e puxação de saco, e olha que eu não tentei bancar a culta e coloquei ali só os filmes que eu realmente gostava. Já a de filmes detestados me rendeu uma dor de cabeça de uns três meses com um "stalker de email". A pessoa não gostou da idéia de ver o seu filme predileto numa lista de filmes detestados por outra pessoa, meteu meu nome no Google, achou o meu site, garimpou meu email e ficou me aborrecendo... Dizia ele que "se eu não tinha inteligência bastante para entender as sutilezas geniais do roteiro de Harry Potter (!!!!), o problema não era dele".

Bem, se o problema, em tese, não era dele, por que se preocupar?
Todo idiota é paradoxal, mas nem todo paradoxal é idiota; fato.

Minha lista de (alguns) filmes amados:
1. One Flew Over the Cuckoo's Nest (1975)- jack nicholson excepcional.
2. Clockwork Orange, A (1971) - aproveite e leia o livro de Burgess.
3. Trainspotting (1996) - venci o preconceito e aprendi a entendê-lo.
4. Shallow Grave (1994) - unusual e coeso.
5. Truman Show, The (1998) - melhor uso da teoria do Grande Irmão que no BBB.
6. Birds, The (1963) - Hitchcock rocks my dirty socks.
7. Blade Runner (1982) - sci'fi perfeito.
8. Streetcar Named Desire, A (1951) - nuances de natureza humana.
9. Gone with the Wind (1939) - dispensa comentários. in love pela vivien leigh.
10. Carrie (1976) - filme de suspense como se deve.
11. Taxi Driver (1976) - al pacino fan club.
12. Cidade de Deus (2002) - viva o cinema nacional.
13. Color Purple, The (1985) - chorei baldinhos.
14. Apocalypse Now (1979) - cenas clássicas passando na minha cabeça, agora.
15. Welcome to the Dollhouse (1995) - o mais cruel retrato da adolescência.
16. Ferris Bueller's Day Off (1986) - o mais delicioso retrato da adolescência.
17. Requiem for a Dream (2000) - fiquei uns três dias remoendo certas cenas.
18. Schindler's List (1993) - há quem chame de brega, mas também chorei baldinhos.
19. Edward Scissorhands (1990) - eu já me vi com tesouras no lugar dos dedos.
20. Donnie Darko (2001) - entrou agora.

Amanhã eu libero a lista dos detestados e espero as pedradas, haha. E, por falar nisso, quais são os filmes que vocês detestam? É fácil falar dos que gostamos...

Aprendi hoje a ver a tevê grobo sem pagar reais. Quem diria que ALGUM DIA eu iria deliberadamente QUERER ver essa emissora. Admiro quem consegue se inserir totalmente na cultura de um novo país, mas apesar de eu não estar seriamente enraizada em lugar algum do planeta, o que me prende à terra é o meu idioma. Sempre bom ouvi-lo, mesmo que da boca do Galvão Bueno (ok, ok, peguei PESADO).

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Segunda-feira, Outubro 25

celulóide

Excesso de otimismo = ingenuidade.
Algumas pessoas até podem se sentir bem ignorando que o mundo é como uma maçã; por mais bonito que seja, é preciso remover as eventuais partes podres, porque a) uma vez podres, elas não voltam a ficar boas e b) se as deixarmos ficar, elas precipitam o apodrecimento de todo o resto.

Tem quem prefira colocar a maçã na geladeira, eu prefiro pegar a faca na gaveta. Práticas diferentes, e eu prefiro o meu resultado. Mas respeito que não se incomode em provar o amargo das partes escurecidas da fruta.

O final de semana foi meio instável. A previsão do tempo indicava chuva, e tivemos dois dias de sol. Bom, o sol estava lá no céu, mas calor que é bom, nada. No sábado fomos à cidade, compramos um monte de DVDs e CDs. Fiquei radiante quando encontrei Donnie Darko e Laranja Mecânica, mas ele estranhou quando os peguei, dizendo que eram "muito violentos".

Pode até ser, mas são bons filmes. Se eu deixar a cargo dele, só compra comédia e desenho animado. Nada contra, mas não são meus gêneros favoritos. Não gosto da densidade obtusa de alguns filmes europeus, mas aprecio filmes sérios de vez em quando, que permaneçam na lembrança depois de desligar a TV ou sair do cinema, que se possa discutir com amigos (mas sem tiradas intelectualóides, por favor). E, convenhamos, Shrek é legal, mas você sai do cinema e deleta da memória. Ok, Taxi Driver, Blade Runner e O Iluminado ficam pra próxima. Mas nem sob tortura ele me fará assistir Johnny English. Ah, também comprei coisinhas para brincar de fazer colagem.




Ontem me deu um piripaque emocional. Comecei a achar tudo à minha volta um tédio absoluto. O fato de ser domingo à noite não ajudou, aliás, domingos à noite não deveriam existir. A raça humana deveria entrar em coma induzido todos os domingos depois do fatídico almoço em família, e acordar na segunda de manhã. Era cedo demais para dormir, tarde demais para sair para dar um passeio, e ele no andar de baixo feliz da vida vendo programa de automobilismo ou lendo revista de... automobilismo. Sabem a paixão do brasileiro por futebol? Coloque uma engrenagem qualquer em cima de quatro rodas, e você terá o equivalente a um Flamengo x Vasco para o meu namorado.

Como sempre tenho o antídoto para os meus próprios males, diagnostiquei meu problema. Essa é uma casa provisória, estou vivendo uma situação provisória em todos os sentidos da palavra e, como sou ansiosa, isso me estressa. Preciso das minhas coisas, preciso refazer meu environment aqui. Preciso do meu computador com meus arquivos para seguir com as minhas coisas. Preciso do meu material pra desenhar. Preciso de toda a parafernália que não me deixa sentir tédio por um só momento, em casa. Sem isso vou ficar andando pelos cômodos e batendo com a cabeça na parede.

Na saída de carro para a cidade, reparamos na enorme quantidade de cogumelos que crescia no jardim. Na volta, resolvemos fotografá-los, uma vez que esses toadstools apodrecem e murcham com a mesma velocidade com que aparecem.



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Sexta-feira, Outubro 22

accidents do not happen

De vez em quando Deus dá uma dentro e justifica a fama.
Alguém aí se lembra de uma historinha narrada aqui tempos atrás, de uma vizinha maldita que foi viajar e deixou o cachorro preso no quintal sem água ou comida por um mês, obviamente matando o bicho de fome? E que, além disso, jogou uma caixa com seis bebês gato récem nascidos dentro do Rio, afogando todos? E que costumava pôr veneno de rato do lado de fora do portão, matando assim vários gatinhos e cãezinhos da vizinhança?

Pois é. Ela foi atropelada essa semana, e MORREU.
HAHAHAHAHAHA.
E eu aqui só queria estar no volante do caminhão que transformou a cabeça dela em nhoque com molho à bolhonesa. Ou, pelo menos, condecorar o motorista com uma medalha de honra ao mérito.

Curioso foi minha mãe me contando a história por telefone, toda chocada, e eu do outro lado da linha me auto asfixiando em gargalhadas histéricas. REVENGE. Tenho ódio mortal dessa criatura desde que ela deixou o Toby, pastor alemão enorme, mas meigo como um gatinho, morrer de inanição por pura falta de cuidado. E não venham me dizer que eu devia era ter pena da falecida. Não tem essa de que "ah, eram só bichos, ela era uma pessoa". O cachorro, os gatos, e todos os bichos que essa estropícia mandou pro céu eram MIL VEZES melhores do que ela, PONTO.

Que a terra lhe seja BEM pesada e que as labaredas do inferno estejam em temperatura máxima para recebê-la. E, claro, que Satã esteja bem mal humorado...

Anteontem o jantar foi de chef. Trutas na manteiga, couve-flor gratinada com queijo cheddar e abóbora assada no óleo. Tudo muito fresquinho e gostoso. Ele não faz compras mensais, sequer semanais. Todos os dias na hora do almoço, vai ao mercado e compra vegetais e frutas frescos com seu amigo John. Com o qual, aliás, travei um curto porém interessante diálogo quando estive lá sábado passado. Ele tinha ido ao banheiro e me largou sozinha com o John, no meio de pepinos, chuchus e batatas.

John: Ele não está dando nos seus nervos?
Eu (meio sem entender): Não...
John: Ele está muito feliz.

Ouvir isso de terceiros, e não só do respectivo, foi um excelente sinal.

Anteontem levamos as cadelinhas do Richard para um passeio:


Pets are the love.

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Quarta-feira, Outubro 20

La Palloterie

Impossível conseguir ficar brava com um homem que engraxa seus sapatos e faz sopinha de legumes para você quando está resfriada. E é ainda menos possível sentir aquele orgulho de "eu mando na cozinha" quando ele aplica leis da Física na hora de picar os vegetais, a fim de reduzir o esforço da tarefa.

Me demito sumariamente do posto de cozinheira da casa, depois dessa - se bem que, na verdade, nunca sequer me candidatei à vaga...

Fui conhecer a casa. Ele já havia estado ali outras vezes, mas para mim foi a estréia dos meus pés naquela rua, naquele quintal, naquele jardim. Sensação estranha, de "o resto da minha vida começa depois da soleira desta porta". Sensação boa ao passear pelo jardim, imaginando futuras tardes de ócio colhendo maçãs, pêras, amoras e figos no pé (sim, temos árvores disso tudo por lá). Ri sozinha quando me imaginei fotografando o sol que vai se pôr todas as tardes nos fundos da casa e que nascerá todas as manhãs pela janela da frente do nosso quarto. Nessa hora me dei conta de que havia esquecido a câmera. Fotos (dele) de visitas prévias:



A casa implora por manutenção; muito, muito trabalho pela frente nos jardins, nas janelas, na redecoração, no redimensionamento de cômodos, na pintura das paredes... Sensação pacificadora, no entanto, saber que o nosso otimismo nos leva a crer que teremos a vida toda juntos para pensar e concretizar as obras necessárias, na casa e nas nossas vidas.

NO domingo fomos ao Elizabeth Castle, na baía de St. Aubin. É uma das fortalezas construídas na ilha, há mais de 400 anos atrás. fica no meio do mar e, para chegar lá, é preciso esperar a maré baixar e então caminhar por uma estradinha de um quilômetro. Quando a maré está alta, a estrada fica submersa, mas o castelo ainda pode ser acessado através de um veículo muito engraçado chamado "Duck" (na verdade um anfíbio adaptado). Dentro da castelo há um excelente museu contando em detalhes a sua história, além de um café delicioso com toda uma variedade de delícias engordativas cheias de carboidratos... Ai, ai. Difícil pedir um café com adoçante num lugar desses. :o)





Por falar em comida, na segunda eu comi Fish and Chips. Tradicionalmente entregue embrulhado em papel jornal. É só abrir e adicionar catchup à gosto.

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Terça-feira, Outubro 19

here they come, the beautiful ones

Uma das amigas daquela amiga chata do meu respectivo está aqui na ilha.
Porventura tem uma avó morando aqui, e veio visitá-la, com o marido.
E, claro, propôs que fôssemos tomar uma cerveja nalgum lugar.

(corta para a patética imagem de Maria, A Estranha - ou seja, EU, para aqueles cuja ficha está grudada com Superglue e não cai fácil -, sentada numa mesa de pub, com marido + um casal praticamente estranho, com quem ela tem menos em comum do que teria com o Papa Bento, com o maxilar DOLORIDO de tanto segurar um sorriso falso, concordando com a cabeça para tudo o que está sendo dito, morrendo de tédio e medo de dizer qualquer coisa errada e passar atestado de imbecil).

Sinceramente, não é assim que eu esperava desperdiçar umas boas horas do meu fim de semana.

Há uns séculos atrás eu participava de fóruns online de fotografia, onde não importava a porcaria que você postasse, havia sempre alguém disposto a ajudar. Críticas construtivas, críticas nem-tão-construtivas, gente metendo o pau na sua foto, tudo era válido, de tudo se tirava algum proveito.

Havia num deles um tal Sebastião (Salgado? haha), que era metido a grande entendedor. Ninguém nunca viu UMA foto que ele tivesse feito, mas o camarada era uma verdadeira enciclopédia em matéria de câmeras, lentes e técnicas. Se isso tudo, no caso dele, se revertia em TALENTO, ninguém nunca soube. Mas não importava. A delícia maior era a grossura do rapaz. "Merda de foto. Enquadramento porco, sem um pingo de imaginação, regra dos terços estuprada à toa, luz estouradíssima. Vá estudar antes de desperdiçar espaço no servidor". Essa foi uma das muitas "críticas construtivas" que ele postou em resposta a uma fotografia minha.

E eu adorava.

Porque ele podia até bancar o estúpido, arrogante e dizer que a foto era uma merda. Mas não mentia pra agradar, nem bancava o simpatico só pra eu "comentar nas fotinhus dele". Nunca se furtava de dar a sua opinião - sempre que qualquer membro do fórum postava, ele dava o seu pitaco. Muita gente ali o detestava e não entendia como eu conseguia gostar dele. Simples: ele era sincero e útil. E isso é tudo de que eu precisava, já que EU não estava ali pra fazer social, amigos e nem entrar em panelinhas. Ele podia ser mais simpático ao dar sua opinião? Podia. Mas era esse o estilo dele, oras... Eu não partilho da opinião vigente de que "pra ser meu amigo, tem que ser meu espelho". Me dou muito bem com pessoas que têm opiniões e normas de conduta bem diversas das minhas.

Ao contrário de muita gente boa aí que, caso você tenha uma opinião discordante, te risca do caderninho de "amizades" no ato.

Um dia eu postei uma foto que o Bastião gostou. "Até que enfim, hein guria? Pelo amor de Deus. Eu já estava desistindo de salvar a sua alma. Bela captura, ângulo criativo, cores fabulosas. Eu teria deixado aquele pedaço de prédio de fora, mas isso não tira muito do mérito da foto. Parabéns".

(Sim, a gente recebia os comments por e-mail nesse fórum, e eu sempre salvava os dele).

Hoje em dia, os "fóruns de fotografia" são mais ou menos assim: 16538394 pessoas puxando o saco no flog pessoal do administrador do site, 16538394 pessoas puxando o saco daqueles que aparecem na "galeria dos melhores do mês", 16538394 pessoas puxando o saco daquele fulaninho-comentarista-compulsivo, que posta bobagens supérfluas do tipo "very good shot!" em 16538394 páginas e, como ele é legal e "comenta", todo mundo se sente na obrigação de comentar uma besteira qualquer, no mesmo nível, de volta.

Aliás, parece que se instalou uma onda politicamente correta nojenta nesse fóruns. É como se todo mundo tivesse que ser bacana e bonzinho com todo mundo, como se ninguém pudesse ser sincero e dizer "não gostei da foto, por motivo A, B e C" sem ser tachado de mal educado e arrogante. Parece que ninguém quer opiniões construtivas que os ajudem a aprimorar seu trabalho, e sim apenas afagos baratos e vazios no ego. Eu não quero 200 comentários do tipo "linda foto!" ou "gostei das cores" numa foto onde as cores não estão lá tão legais assim, vindo de quem olhou a fotografia por 2 segundos, viu um negócio VERMELHO qualquer e tascou essa pra FINGIR que analisou o trabalho. Quero dois ou três comentários que me sirvam pra alguma coisa.

Note que estou falando de fóruns sérios de fotografia, e não de livejournal ou blogs visuais como o pinmeup, onde eu obviamente não espero opiniões vindas de profissionais e tô ali for fun only mesmo, pra postar besteira e trocar mensagens fofas com os meus amigos. Mas mesmo nesses supostos fóruns educativos, o "climinha fotolog" parece ter chegado de com força.

Minhas fotos são uma merda, não tenho a menor noção de técnica, minhas câmeras estão LONGE de ser profissionais e sei lidar pouco com os controles (embora faça melhor do que muita gente que nem sabe ajustar o foco). Minha habilidade é inversamente proporcional à minha paixão pelo assunto. Mas confesso ser preguiçosa. Se tivesse estudado, me interessado, como me foi duramente proposto, talvez hoje eu fosse menos pior. Talvez até alguém me escolhesse como "membro do mês", eu aparecesse na página inicial do site e então teria 16538394 pessoas me puxando o saco e dizendo: "nice shot!".

Melhor não.

Ah, Sebastião, que falta você me faz.










Watch the drops by the window. Hot tomato soup. Good books.
Be very welcome, autumn.

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Segunda-feira, Outubro 18

whatever.

Estou meio mal humorada e não devia vir escrever nesse estado. Até porque a casa está uma bagunça, passamos o fim de semana todo na rua ou cozinhando (chilli con carne, woohooo!), e tem uma pilha de louça do tamanho do World Trade Center pré-atentado me esperando na pia. Sem falar nas resmas de jornal espalhadas pelos cantos, mas enfim.

Se tem algo que me irrita deveras aqui é o monopólio do rabo-de-cavalo sobre todos os demais penteados existentes na face da terra. Que coisa mais monótona! Pra não falar cafona. Nove entre dez mocinhas prendem o cabelo lááá no alto, deixando aquele rabicho escorrer pela nuca. Sem uma gota de sex-appeal. Isso quando elas têm cabelo grande, coisa rara por aqui. Os cabelos ingleses são, na maioria, médios e ralos. Talvez isso explique a compulsão pelo penteado brega. Só que elas também parecem ter combinado entre si que as cores branco, rosa/azul bebê são o que há no quesito fashion; o que, aliado ao rabinho de cavalo, às peles pálidas e aos cabelinhos ralos e loiros, deixa todas as garotas com cara de lactente.

No sábado fomos tomar café da manhã no Driftwood Café em Archirondel, e depois passear em St Catherine's Woods. Jersey tem ambientes para todos os gostos; praias de areia, praias de pedrinhas, montanha, florestas, lagos, countryside, cidade, colinas, dunas, sítios arqueológicos, bunkers da época da ocupação nazista... Um giro básico por aqui e você duvidaria que se trata de uma ilha.

Nossa caminhada em Saint Catherine's (que fica pertinho da casa onde vamos morar) durou uma hora e meia, e contou com a companhia do Richard - e também de Ruby e Moly, suas respectivas cadelas.















Na volta fomos para o Les Fontaines, o pub aqui da rua, porque eu queria comer galinha com molho curry. Podia ter sido feita em casa, mas no pub é mais divertido... Peguei leve na cerveja porque ainda lembro do meu animado diálogo com a privada na semana passada, por ter misturado álcool + diet pills.

Hoje tem visita à Maison de La Palloterie. Futuro lar. Já conheço a casa por fotos, já passei algumas vezes em frente, mas hoje devo pôr meus pezinhos lá pela primeira vez.

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Sexta-feira, Outubro 15

***

it's a pretty big world god
and i am awful small
everyday they rain down on me
flower in a hailstorm

Desculpem os meus desaparecimentos momentâneos, mas se vocês tivessem que usar essa mesa aqui, baixa demais para a minha altura, entenderiam por que eu não apareço nesse blog, no livejournal, no MSN, ou nas suas respectivas pastas de emails recebidos. Minhas costas ardem se eu passar mais que dez minutos sentada aqui, o que me irrita deveras, já que às vezes uma boa sessão de conversa fiada no Messenger remediaria o tédio que começo a sentir. Na verdade, se eu tivesse o meu computador aqui seria ótimo, já que todos os meus arquivos (e o meu photoshop) estão nele, e eu poderia ficar brincando de webdesigner frustrada.

Mas ele não está aqui. E, como do lado de fora só venta e chove, a minha vontade é de me enfiar dentro daquela banheira cheia de água tépida ali, depois debaixo daquele cobertor quentinho lá e hibernar feito uma ursa.

Em tese, teremos Paris na semana que vem. Minha vontade de ir é diminuta, porque isso significará ter que interagir com pessoas, o que quase nunca se mostrou uma boa idéia, no meu caso. Neném, obviamente, estará ocupado, e eu terei que ficar andando feito barata tonta atrás de pessoas que não necessariamente estarão a fim de que eu as siga.

Acabo de me lembrar de quando eu estava na quarta série. Minha única amiga em toda a escola mal aparecia para as aulas, até que não voltou mais - depois eu soube que os pais dela não tinham como pagar as mensalidades. Todo dia era a mesma coisa; eu chegava cedo, me sentava e ficava encarando longamente a porta, esperando que a minha amiguinha entrasse por ela e me pusesse um sorisso no rosto. Só que isso raramente acontecia e, conforme os minutos se passavam, a certeza fria de que eu teria que enfrentar mais um dia de aula sozinha se instalava no meu peito e eu chorava então lagrimazinhas de cubo de gelo. Eu tinha nove anos e era chato passar o recreio inteiro andando de um lado para o outro, vendo as meninas pulando corda e os meninos jogando bola. Nunca fiz um esforço efetivo para me integrar, mas como as minhas pálidas insinuações de que eu queria brincar nunca tiveram a calorosa recepção que eu esperava, eu achei mais simples me isolar e ir comer o lanche no banheiro.

E foram anos comendo lanche no banheiro... No cursinho pré-vestibular que eu não tive saco de terminar, na primeira faculdade, na segunda faculdade, no emprego... Na maioria das vezes eu não me via na situação de coitadinha. Acreditava que, se eu não podia estar com quem eu queria estar, não me interessava estar com ninguém. Se essa era uma percepção legítima ou apenas analgésico contra uma verdade dolorida (a de que na verdade ninguém queria estar comigo também), eu nunca procurei descobrir.

Geralmente desgosto das pessoas até que elas se provem não-desgostáveis. Me escondo delas, e saber que daqui a uma hora chega a faxineira, me faz querer me esconder dentro do armário - na verdade, eu só descarto essa opção por medo de que a Maria resolva abrir o armário, duplicando o constrangimento da situação. Não tem nada a ver com síndrome do pânico porque não é pânico que sinto. Apenas uma aversão gratuita, um estranhamento nascido do nada, que me faz ver meus semelhantes como qualquer coisa - menos semelhantes.

Acho que só aqui na internet esse ciclo vicioso foi quebrado, pelo menos por algumas pessoas. E talvez porque elas não estejam aqui fisicamente. Em todo caso, acho de verdade que os meus melhores amigos (à exceção de dois ou três da vida real) estão do lado de lá dessa tela onde pulam caracteres. Eles comem o lanche junto comigo e sempre nos divertimos na hora do recreio. Se eles seriam uma ameaça in real life? Não faço idéia, e enquanto estivermos felizes, isso é o que menos importa.

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Terça-feira, Outubro 12

another day

Do outro lado do mundo, que não é o outro lado do mundo, faz sol.
É feriado e, segundo a crença consolidada por essas bandas, as pessoas de lá estarão dançando nas ruas. Seminuas, porque sim, faz sol.

Deste lado do mundo a geladeira está de mal comigo, e cospe no meio da cozinha fria pedras de gelo que afundariam o Titanic. Uma metáfora eletrodoméstica, porque aqui faz frio mesmo quando não faz frio, e não faz sol mesmo quando o sol parece quase tangivel, não fosse o vidro da janela. O castelo de gelo é muito bonito; mas é tão frio.

Não sinto fome, mas estou com fome. Existe algo vazio no meio da minha barriga que precisa ser preenchido; ou seria no peito?
Nunca fui muito boa em anatomia.

Um porta-retratos sem retrato em forma de gato me encara sorrindo, e sua felicidade de alumínio pintado me irrita. Sou contra sorrisos eternos, a época do choro está em todos os calendários, mas os idiotas arrancam as páginas. Pintam sorrisos de hidrocor em caras ensolaradas, e eu sinto inveja e desprezo, enquanto o sorriso que esculpi na minha cara-de-pedra-de-gelo comeca a derreter lentamente.

Ser contraditório devia ser crime, eu devia estar presa e escrevendo memórias baratas do cárcere, para depois vender em mesas de bares da zona sul, usando sandálias franciscanas de couro. Ninguém compraria, e isso não faria a menor diferenca.

E a água que está no chão se enche de bolhas por causa da água que cai do céu, e eu queria que isso parasse agora e que eu fosse brincar de pique-alto no quintal. Sozinha, porque não importa o quão baixo fosse o meu "alto", ninguém, jamais, me pegaria.

E essa pessoa aqui incluiu um texto meu no seu blog e, aparentemente, assinou como se fosse dela. Eu geralmente não me importo com copyright na web; se copiaram significa que valeu a pena ter escrito. Só estou observando porque, quando foi a minha vez de pegar foto de outra pessoa na internet e usar, todo mundo atirou a primeira pedra (e a segunda, terceira, quarta...) – inclusive quem rouba textos. Por essas e outras eu tento não criticar quem faz “merda”. Até porque o conceito de merda é relativo; de absoluta, mesmo, só a certeza de que todo mundo faria as merdas que costuma condenar, desde que tivessem oportunidade ou coragem para tanto.

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Domingo, Outubro 10

Autumn Skies








Fotos feitas em Sorel, aqui na ilha, pertinho de casa. Olhando para elas me dou conta de que algumas cenas só mesmo vendo ao vivo para captar a beleza em sua totalidade. Esse céu estava algo, digamos assim, “infotográfavel” de tão lindo? Pois é. Ventava absurdos, mas a noite estava clara, e do ponto onde estávamos, podíamos ver claramente as outras três ilhas do canal (Guernsey, Alderney e Sark), bem como a costa da França. A foto com as luzinhas foi feita no La Fontaine, o pub da esquina.

Fomos a outro supermercado, chamado Morrissons, e lá achei uma infinidade de queijinhos, frios, carninhas interessantes, além de um monte de sabores incomuns de refrigerante diet (o que você acha de refrigerante de BANANA? Well, mas depois que passei a gostar de comer feijão doce e arenque defumado no café da manha, não estranho mais nada). Bom, pelo menos são baratinhos, têm zero de calorias e a cor do sabor framboesa é um pink psicodélico maravilhoso.

Bom, minha dieta low carb está salva, mas eu me permiti sair da linha nos finais de semana. Ontem à noite fomos a um restaurante italiano no centro, e comi batata frita como uma etíope esfaimada. O dono do restaurante é um velhinho chamado Bruno, a simpatia em pessoa. Parabenizou pela “bonita namorada brasileira”, me deu pizza e fez piadas naquele inglês macarrônico fofo. Obviamente, eu bebi… Vinho, Kir Royal e duas tacinhas de Limoncelo. Em casa, claro, passei mal por causa da combinação infeliz das malditas pílulas de dieta + álcool e acabei vomitando pela manhã, mas vida de bêbado é assim mesmo e eu já estou acostumada a dizer “bom dia privada”, então, tirei de letra…

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Quarta-feira, Outubro 6

Cheguei.

Esse post devia ter sido feito ontem, mas eu me tranquei do lado de fora da casa por cinco horas.

Bem, quase morri no avião porque bebi vinho e cerveja, e essa maldita pílula acaba com o estômago se você a misturar com álcool. Passei umas 8 horas com vontade de vomitar, enjoada e com a flora estomacal em chamas… Um inferno. Pra melhorar, meu vôo atrasou DUAS horas porque a aeronave estava com uns probleminhas (pensei; é agora que vai cair!) e tivemos um vôo cheio de turbulências... Parte boa: passar pela imigração foi ainda mais fácil que da primeira vez.

Funcionária Indiana: do you have a job?
Eu: no…
Funcionária Indiana: are you a student?
Eu: hm… ahn… yes. (L-I-A-R)
Funcionária Indiana: how long will you stay here?
Eu: two months
Funcionária Indiana: where are you gonna stay?
Eu: Jersey…
Funcionária Indiana: Ok.

E pronto. Carimbou meu passaporte e me mandou passar. Nem tive que mostrar os documentos que o Alaric me deu. Deve ser porque ela viu, pelos carimbos anteriores no meu passaporte, que eu já havia estado lá antes.

Desembarquei absurdamente mal humorada… Por causa da dor, do atraso e do vôo infernal e, injusta como sou, já estava disposta a soltar os cachorros em quem nada tinha a ver com isso... Mas quando vi aquele um metro e oitenta e tres todo de preto (Saint Laurent ainda por cima...), cheiroso até a alma e conseguindo estar ainda mais bonito do que quando o vi pela última vez… Bom, mudei de idéia! :oD (aliás, será que ele vende ou dá a receita do elixir da juventude que está tomando? Impressionante, a cada vez que o vejo ele parece mais novo…)

Fomos pro Hilton Hotel lá de Heathrow, o aeroporto. Mas como o vôo havia atrasado, o nosso check-out era para dali a uma hora. Tomei um banho rápido, vomitei no banheiro enquanto ele combinava a saida por telefone com a recepção e me senti novinha em folha, haha. Ganhei presentes: uma capa de celular da Betty Boop, uma bolsa linda da Juliet, um DVD dos Smiths e uma mini câmera digital que serve como webcam (porque a minha old webcam não funciona com windows XP… A nova tem 1,2MP de resolução; EBA, back to camwhore shots!!). 50 minutos depois estávamos em Gatwick, outro aeroporto e outro vôo, agora para Jersey. Finally, at “home”. Na mesma noite demos uma passada rápida em frente à Maison de La Palloterie. Realmente, a casa vista ao vivo é fofa. E o jardim consegue a proeza de ser ainda mais magnífico. Nem acredito que vou morar ali… Em breve ele vai agendar com os atuais moradores uma visita (postei algumas fotos da casa no livejournal, quem quiser ver me peca a senha).

Também fomos comprar comida, porque ele estava há cinco dias longe de casa e a geladeira estava fazendo eco de tão vazia… E foi quando me dei conta de que vai ser um dificuldade fazer dieta low carb, aqui... A Inglaterra é uma sociedade baseada em carboidratos. Para se ter uma idéia, nem adoçante líquido eu achei… Tudo bem que era uma loja de conveniência, a única que ainda estava aberta às sete e meia da noite (aqui TUDO fecha cedo). Mas Jersey só tem mercados caros, e nenhuma das grandes redes inglesas mais baratas (como Asda e Tesco) têm lojas por aqui.

Hoje o dia amanheceu ensolarado, apesar do frio (estamos no Outono, e a vegetação da ilha está simplesmente linda, em várias matizes de amarelo, dourado, marrom, laranja e vermelho… em breve fotos, muitas fotos disso!). Devo me armar de alguma coragem, muitos casacos e dar uma voltinha around. Medo de levar a câmera dele… Vai demorar até cair a ficha de que aqui é mais fácil eu ser atropelada por um navio voador comandado por um unicórnio do que ser assaltada.

Ele está um amor, ainda mais doce e carinhoso do que antes. Fiquei meio triste quando cheguei, tive uma crisezinha de impaciência e mau humor no mercado, quando comecei a NÃO achar as minhas coisas. A idéia de ficar sem guaraná diet, requeijão, queijo minas e iogurte natural me exasperou. E ele todo preocupado, revirando as prateleiras atrás do que eu queria. Sinceramente, eu achava que homens assim não existiam. Porque é facil ser legal com a namorada quando ela pede fazendo beicinho. Difícil é conseguir ser legal do mesmo jeito (ou até mais) quando ela está um saco, reclamando e fazendo exigências absurdas, como eu estava… Eu não quero ser um problema para ninguem, mas também não quero interromper a a dieta, que está indo muito bem. Foi quando em casa ele pôs minha cabeca em seu colo e, acariciando meus cabelos, disse que existe sim prazer em se fazer coisas para aqueles que amamos, ainda que impliquem em sacrifícios, desde que haja reconhecimento. E grata eu sei ser, sim. Aí tudo ficou bem e feliz de novo, ficamos ouvindo Led Zeppelin e falando um monte de besteiras engraçadas e cor de rosa, eeee.

Agora vou tomar meu english breakfast (que não vai ser full porque não vou comer os feijões e nem a torrada) e tentar descobrir como funciona a minha new little camera.
Happy happy girl, here.

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Sexta-feira, Outubro 1

Um e Dois.

I
Anos atrás, antevéspera de Natal, lanchonete Viena, no centro do Rio.
Eu e Samara dividindo um sundae gigantesco, ritual que se repetia todos os anos, geralmente no último dia de aula. Naquele ano, a oportunidade só se deu naquele dia 23. A taça de sundae, enorme, em tese deveria servir a seis pessoas, mas nunca foi difícil para nós duas terminar com ela.

Rapaz muito bonito, olho azul escuro, suéter da mesma cor. Os deuses também comem pizza. De frente para a nossa mesa, era destinatário dos nossos olhares e risinhos. Por favor, perdoem a adolescência.

Menina de cerca de 5 anos, de rua, adentra a lanchonete. Como não se sabe, já que ela ficava dentro de uma loja da Mesbla, e até chegar ali a menina deveria ter passado por inúmeros obstáculos em forma de homens altos, de óculos escuros, terno e walkie-talkie. "Moça, me dá um dinheiro?". "Não tenho trocado, neném", minto. "Aceita cartão?", brinca a Samara. A menina não entende e se afasta. "Ih, ela vai pra mesa do bonitinho". Foi mesmo. Não deu pra ouvir, mas deve ter repetido a mesma pergunta. E ele, certamente, a mesma resposta. Ela se pendura na mesa. Insistindo, talvez. Ele sorri, fica ainda mais bonito. Rasga um pedaço de pizza e oferece. Ela automaticamente se senta à mesa. Um walkie-talkie de terno se aproxima, o rapaz bonito sorri e diz algo, o walkie-talkie de terno vai embora.

Ele se levanta da mesa, e volta com uma fatia de bolo cheia de creme e um copo de leite. Consigo ouvir quando ele diz, "coca cola estraga os dentes". E ela come, ignorando o talher de plástico e enfiando os dedos no doce. Ela balança os pezinhos descalços e sorri. Ele, mão no queixo, admira e sorri também. Eu queria ficar para ver mais, mas o sundae acaba e temos ingressos para a sessão no cinema ao lado, que começa dali a minutos.

Passo pelos dois e lanço um último olhar à cena mais bonita que já vi na vida, tentando fotografá-la com a retina e eternizá-la na memória. Consigo.

II
Praia de Ipanema, domingo à tarde, plena febre dos patinetes.
Eu, Fernando e Rogério éramos antiquados e tínhamos patins, que levávamos na mochila.

Os brinquedos desfilavam pela ciclovia aos montes; bicicleta era coisa do passado. Os filhos da classe média-alta exibiam os modelos, provavelmente importados, com orgulho compreensível. Um bando de menores de rua se aproxima, caminhando lenta e ruidosamente, alguns quebrando cocos na calçada. Mas o menininho de sete ou oito anos não quer saber de cocos; olha extasiado os patinetes.

Se detém enquanto o grupo caminha e passa por nós, que bebíamos cerveja sentados no banquinho (não, não tínhamos idade pra comprar álcool, admito). Olhos nos patinetes. Uma menina, com o seu, pára alguns poucos metros à frente. Cansada, desce do brinquedo e senta no banco ao lado. O menino se aproxima. "Deixa eu dar uma volta só?". "Sai daqui, macaquinho, vou chamar o guarda, hein". "Não vou roubar não". "Vai enganar outro, macaquinho. Pivete. Sai daqui, volta pro morro. Vou chamar a polícia". O menino sai. Um dos garotos do grupo, mais à frente, vem na nossa direção. Eu, Fernando e Rogério torcendo para a metidinha levar um susto (acabamos simpatizando com o menino). O garoto mais velho chega e toma o patinete da menina. Que, do alto dos seus 10 anos, não reage. Mas ele não quer levá-lo. Ergue o brinquedo e golpeia a cabeça da menina com o cabo. Ouvimos um "ai" seco, ela cai do banco, mas viro o rosto, não tenho coragem de olhar. Rogério lamenta um "puta merda!" e eu digo "eu quero sair daqui, vamos sair daqui". Sinto vontade de chorar. Junta gente, vejo o menino maior correndo, pessoas correndo atrás. E o patinete, pomo da discórdia, jaz tão radioso quanto desimportante, no chão.

Sim, essas histórias são verídicas.
Anos atrás, mas estão no meu arquivo de lembranças importantes. Eu espero nunca esquecê-las, e menos ainda deixar a lição que aprendi delas se apagar da memória.

Por que contá-las agora? Porque eu queria explicar.
Solução não só é polícia na rua.
Solução também é prevenir.
A solução pode ser uma fatia de torta. Ou uma volta num patinete.
Sim, eu sei que sou uma hopeless naive.
Mas era disso o que eu estava falando.

* * *

Meu vôo é amanhã, vim dizer tchau. Devo aparecer aqui lá pelo meio da semana que vem, ou se der, antes.
Tem Studio 54 hoje na TV.
Até.

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