Sábado, Janeiro 31

reality is not for me

reality is not for me
and it makes me laugh
oh, fantasy world
and disney girls
i'm coming back


Sexta feira, quase home alone, ouvindo músicas tristes e tentando, depois de um longo tempo de atribulações, terminar o layout do domínio. Na verdade a parte gráfica está pronta, falta só aparar gorduras verborrágicas e fazer as páginas internas. Mas por que eu estou falando disso? Não é importante, nem interessante.

Me dei conta que já faz quase um ano que não brinco com as minhas barbies. Isso não quer dizer que eu cresci (graças a deus). Não as abandonei porque quis - fui forçada a isso. E lembrei que já fui muito boa costureira; de roupa de boneca... Fazia até tailleurs com retalhos de linho, maiôs com pedaços coloridos de lycra, tricotava polainas e casacos de linha. Minha mãe ria e dizia que as Barbies tinham um guarda roupa muito maior e melhor do que o meu. E ela não estava mentindo. A verdade é que era muito mais gostoso vestir a Barbie, que era linda, loira e rica, do que a mim. Passei a infância (e a primeira metade da adolescência) vestindo pijamas 24 horas por dia. Tédio existencial desde sempre.

Estou catando fanlistings dos filmes que eu gosto, e achei muito poucos. Os bons filmes não têm listas aprovadas pelo thefanlistings.org. Também percebi que não sei o nome em inglês de alguns filmes que gosto, por isso talvez não os tenha encontrado. É, além de todo o resto, eu também sou burra.

E numa dessas fanlistings, percebi que o menino da bicicleta, quando faz a barba, se parece com o Gary Oldman - isso se o Gary Oldman fosse bonito. Haha. Estou com saudades dele, e pela primeira vez ever, isso não me fez sentir patética. O que me faz sentir patética: a vontade incontrolável de incluir "Flashdance" na lista dos meus filmes favoritos. Irene Cara cantando "What a feeling" é legal.

Outro jogo legal - você acha que digita rápido?

Alguém aí pode me ensinar a configurar uma página de 404?
Thanks in advance.

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Quinta-feira, Janeiro 29

once upon a time





















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Quarta-feira, Janeiro 28

drugs don't work

E o Léo Jaime me surpreende quando escreve textos como esse.
Nem se eu fosse ele pensaria tão igual. Palmas.

E recuperei a senha do meu fotolog, quase tão facilmente como a perdi. E por meios próprios, é claro; "admin" de cu é rola. Que bom. Eu não gostaria de perder meu username lá, que eu adoro - mas é só. O fotolog anda muito lento, e sinceramente, essa historinha de "comentei no seu, agora comenta no meu" faz meu estômago dar cambalhotas. Eu estava quase caindo na armadilha de ficar retribuindo comentário de gente que eu mal conhecia pra ser simpática. Muitas vezes não havia o que comentar na foto, e então eu inventava algo na hora ou dizia algo estúpido - e a merda é que quem faz o comment não consegue apagá-lo. Lendo os comments do flog da Marimoon, me pergunto como ela aguenta aquela gente. Acho que os stalkers eram menos chatos. Quem tem fãs como aqueles não precisa de um /antimarimoon.

Ao contrário do que disse lá no fotolog (aquele texto foi escrito ontem, e não foi postado porque a senha havia micado), minha mãe já está em casa. Chegou hoje no meio da manhã, e de presente de boas vindas, notou que eu havia esquecido de regar suas plantas. Boa parte delas pereceu irreversivelmente. As demais eu estou tentando recuperar com uma terapia de hidratação intensiva, mas não vejo muitas perspectivas de melhora. Bom, o braço da véia está enfaixado, mas já sem os pontos. Só o buraco no meio, causado pela retirada da carne que necrosou, incomoda. E ela vai precisar, além da plástica reparadora, de uma boa fisioterapia. Mas ela foi atropelada por um caminhão, pessoas. O simples fato de ela estar respirando hoje, é lucro.

Com a volta dela, o menino da bicicleta saiu de cena. E ele fez aniversário, hoje. Fomos beber (é claro), mas rapidinho porque eu não queria deixar a véia all alone. E ele passou seis dias aqui comigo, brigamos um pouco, rimos muito, enchemos o saco de tanto ver acústicos na TV a cabo (descobri que o Scorpions escreve letras muito melhores que a dupla Page & Plant), ele me fez um arroz horrível e uma batata frita deliciosa, bebemos caixas inteiras de Nova Schin e comemos nuggets de frango com molho rosé (o molho fui EU que fiz... Nem tão inútil assim, eu ainda consigo misturar maionese com catchup, porra). E quando eu o vi acenar adeus, e então indo embora, deu um apertinho. Coisa boa e ruim at the same time. And the hell is that I need to get used with it.

E essas indicações de Cidade de Deus, hein? Eita lobby brabo!!

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Terça-feira, Janeiro 27

Housekeeper blues

Eu não lavo, não passo.
Minhas roupas limpas estão acabando, e as fedidas habitam o interminável vão do cesto de roupa suja. Começo a repetir modelitos, e isso depõe contra a minha imagem.

Não cozinho. Mas não me queixo do menu atual - estou comendo apenas o que gosto, noutras palavras, lixo. Chato é que mesmo o lixo precisa ser cozido antes de ser mastigado, o que dificulta sobremaneira o processo. Mas para isso tenho meu AAA - Assessor para Assuntos Alimentares, sempre a postos. O menino da bicicleta passa uma temporada compulsória aqui em casa - mais especificamente na minha cozinha. Ele faz uma sujeira dos diabos, é verdade...

Mas não tô nem aí. Eu não lavo, não passo, não cozinho, e também não limpo.

* * *

Mamãe anda toda a enfermaria enchendo o saco alheio e quer voltar pra casa. Só depende do médico. Ela terá que fazer curativos todos os dias e se entupir de antibióticos, mas qualquer tortura é melhor do que aquele pardieiro. Deve voltar pra casa amanhã ou quinta. "Over to the moors, take me to the moors, dig a shallow grave and I'll lay me down", canta o Morrissey, e canto eu, subindo as rampas escuras, longas e desertas que dão acesso à enfermaria. As mesmas por onde, vez por outra, escoam cadáveres. Ok, eu poderia usar a escada, mas eu ando mal do coração (falo sério, preciso ver um cardio rápido), e ademais, o clima mórbido da rampa é cool. Tem uma inclusive com iluminação ainda mais precária, que leva diretamente pro necrotério. Ela é MUITO soturna. Vontade de descer pra espiar é o que não falta.

Eu acho que tenho problemas, talvez não seja normal essa atração por esse tipo de coisa, por sites como esse, esse e esse aqui. Mas ficar esmiuçando características da minha personalidade para as quais eu dificilmente acharei explicação é perda de tempo. E embora talvez hoje tenha sido o último dia que subi aquelas rampas, eu sempre me sentirei estranhamente feliz ao cantar esse trechinho de "Suffer Little Children".

E, por falar em rotten... Pick and Fuck. Fico imaginando QUE tipo de cara seria TÃO come ninguém a ponto de pagar uma dezena de dólares numa coisa tão deprimente como essas bonecas. Deve deprimir gozar dentro dessas bocetinhas de plástico, olhando para essas caras pavorosas. C'mon guys. Sai mais barato pagar um lanche no McDonald's praquela baranga solitária que ninguém quer comer. Ou então, junte grana por dez anos e compre uma dessas aqui: www.realdoll.com. Você vai continuar se sentindo um loser, mas o susto ao abrir os olhos será consideravelmente menor.

update: Ao que parece, alguém roubou a senha do meu fotolog. Aiaiai. Já mandei um help request (segundo eles, gold patrons têm prioridade... ahã), mas sei lá. Já dei aquilo lá como perdido.

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Sexta-feira, Janeiro 23

sol, sal, silvas...

Esta porra aqui vicia. How pathetic I am, God.

Eu sei que não estou atualizando nada, nem respondendo a emails. Acontece que minha mãe não tem previsão de alta concreta (ouço várias versões, mas nenhuma me convence), a transferência para outro hospital se revelou impossível (e olha que eu recorri a amigos pessoais da alta diretoria...), e eu tenho muitas dúvidas aqui na cabecinha... A meu ver, esses putos fizeram uma merda monumental no braço da minha mãe, e agora negam transferência para evitar que outro hospital se depare com a cagada feita.

E eu no meio disso tudo. Contas a pagar, compras a fazer, casa pra limpar... Eu tenho agora que tocar duas vidas. A minha, que já era corrida, e a dela, que ficou pra trás. E com quase nenhuma ajuda. Tá foda. Justamente agora o povo do trabalho resolveu implementar mudanças que me impactaram enormemente. MUITA coisa pra fazer, pouca tranquilidade pra pensar e nenhuma vontade de me envolver 100%.

Eu não quero mais trabalhar ali. Eu não quero mais trabalhar em lugar nenhum. Eu não quero acabar como aquela gente, que só sabe falar de trabalho, pensar em trabalho, que não lê um livro, que não vê um filme decente (só porcarias típicas de Multiplex), e com as quais é impossível manter uma conversação minimamente interessante. A dedicação espartana ao trampo afogou seus neurônios na merda em que os cérebros se transformaram.

Eu não quero colocar "o meu trabalho" no topo da lista de preocupações e interesses. Por que paga mal? Não. Pagasse quanto fosse, NADA reembolsaria o prejuízo de varrer a minha vida, meus interesses e prazeres pra debaixo do tapete. PAU NO CU do sistema.

E minha pele está horrível. Dormindo péssimo, ganho olheiras. O sol lá da Barra fo-deu com a minha corzinha amarelada-pálida linda. Eu estou PRETA, pessoas. E descascando. E, quando a pele morta descola, a pele nova é de outra cor - diferente da bronzeada e mais escura do que a original. Vou levar de seis meses a um ano pra voltar ao normal. Até lá, exibirei esse look "vaquinha malhada" (toda manchada) como se tivesse vitiligo. O sol faz MAL, crianças. Stay away.

E eu tenho coisa pra cacete pra falar, mas vai ter que ficar pra daqui a pouco.

Eu também odeio quem fala assim:

Okay, não resisti. É que isso tá me deixando puta há meses.
Por que será que eu odeio gente sociável? Por que será que eu odeio MAIS AINDA gente que paga de antisocial porque acha que é cool mas vive babando o ovo dos populares tentando angariar simpatia no rebote? "AH eu quero ser amigo do influente porque se ele é influente quer dizer que é cool e é legal ser amigo gente cool porque é como se eu me sentisse por tabela um pouco mais cool do que a ameba desinteressante e insossa que eu na verdade sou". BINGOOO, é isso aí, porra. E aí os culs passam a se achar mais cul da que na real são, porque a horda de lambedores de saco não larga dos seus pés nem depois de "hiatus" (argh) de 138 anos, nem depois de se esconderem em LJs secretinhos, nem de serem malcriados com seus leitores - sim, porque mais orgasmático que dar autógrafo é negar autógrafo. Mais cool do que aparecer em foto da Newsweek é socar a cara do fotógrafo e/ou aparecer de dedo em riste na capa da revista. Pau no cu dos aduladores, né? PAU.

Não sei qual dos dois me provoca mais náuseas. No momento me vejo nauseada comigo mesma, por gastar com isso o meu tempo, que cabe num conta-gotas de Rinosoro infantil. E não tente entender isso, nem vestir a carapuça. Chances are de que ela não seja o seu número.

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Sábado, Janeiro 17

particular hell

É mais ou menos assim: minha mãe foi atropelada por um caminhão ontem pela manhã. Ganhou um corte profundo no braço direito, com exposição óssea e tudo o mais. Não fraturou nada, mas a carne se abriu em X e ela ganhou 50 pontos de sutura, além de hematomas pelo rosto. Coisa muito bonita.

O motorista prestou os primeiros socorros, mas óbvio, levou-a para um hospital público. Tenho estado lá desde então, mas hoje vou dormir em casa. Durante esse tempo, anotei mentalmente TANTA coisa pra protestar aqui que, sinceramente, perdi o tesão. Basta dizer que na porta de cada "quarto" (vou nos poupar da descrição do sinônimo real dessa palavra) há uma plaqueta informando que "destratar funcionário público é crime", com pena de até dois anos de reclusão. No entanto, destratar o ser humano ferindo sua dignidade num momento já naturalmente indigno (o da doença), não é considerado delito pela justiça brasileira.

Talvez o seja pela justiça humana. Daí a razão das placas: conter o "ímpeto justiceiro" da família dos desgraçados que acabam indo parar naquele açougue, por falta de recursos ou por azar, mesmo. Estou tentando remover minha mãe de lá desde ontem, e eles simplesmente se negam a liberar a transferência. Pelos motivos mais fúteis e contraditórios possíveis, inventados não por médicos, mas por acadêmicos arrogantes e sem um pingo de tato ou sensibilidade na lida com pacientes e familiares, e que acham que um estetoscópio de merda pendurado no pescoço substitui com fidelidade um diploma, anos de prática e a necessária vocação para o sacerdócio.

Pu-ta-que-pa-riu.
Vou parar por aqui antes que vomite meu teclado inteiro.

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Quinta-feira, Janeiro 15

meninos e meninas

Estou bêbada. Vinho + chopp + namorado chato + pizza calabresa de péssima qualidade + água mineral com gás (a melhor coisa da noite).

Eu queria agradecer o carinho de algumas pessoas. Elas sabem quem são e sabem o motivo. Eu não sou piegas. Eu não gosto de gente. Mas eu me ressinto de não conseguir ser 100% blasé e da minha autenticidade me obrigar a sentir-me desconcertada e grata. Vocês me deixam com cara de bunda, but I like it. Luv you, sweeties.

Meninas bonitas estão sempre cercadas de meninos. Sempre. Namorados, ex-namorados, candidatos a namorados e meninos simplesmente fascinados por sua beleza – mas que não ousam pretendê-la. E elas são felizes assim, no seu mundinho cheirando a testosterona. O cheiro do hormônio inebria. Só pode. E eu até entendo. E aceito. E admito que talvez seja bom. Talvez, não - com certeza é. Como se sentir o último bombom do pote. A abelha rainha na colméia de zangões enfeitiçados. Sei lá, hoje minhas metáforas não estão funcionando. Deve ser a inveja.

A Fernanda de pé na calçada, o cabelo loiro sendo sacudido pelos meninos. Eles estavam destilando litros de ptialina, salivando feito raposas diante de um galinheiro lotado. Comparar a Fernanda com galinhas não foi proposital, não mesmo. Estou falando a verdade, hein? E ela lá. O short branco e azul. Os chinelinhos. A camiseta branca. A sacolinha nas mãos. As coxas.

Meninas bonitas e arrogantes quase sempre viram mulheres infelizes. Passam a juventude cercadas de homens, e enxergam nas mulheres uma ameaça. Ou pobres-coitadas. De qualquer forma, elas não valorizam as outras meninas. Mais tarde ficam sozinhas. Os eternos namorados se enamoram de outras e casam. Eventualmente, seus próprios casamentos acabam (ninguém tem o frescor dos 15 anos pra sempre). E, como elas não tinham amigas, não terão a rede de apoio emocional de que as pessoinhas sem muito conteúdo hão de precisar, algum dia.

E eu olhei para a menina loira na calçada e enxerguei na sua sombra uma senhora de meia idade solitária e triste, colecionando maquiagem da natura e enfeitando-se aos domingos à tarde em frente ao espelho. Para ninguém. Quase senti pena. Quase. Mas sentir pena dos outros não é o meu papel no mundo. E o diabinho preto aqui dentro mandou ver numa risada escrotamente sarcástica. Esse filhodaputa miserável. Joguei meu olhar de volta no chão, abri o portão de casa e entrei.

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Domingo, Janeiro 11

burn in hell

E então o que se faz quando seu melhor amigo arruma uma namorada séria e não te faz mais companhia? E quando suas amigas passam tempo demais discutindo se vale a pena pagar mais caro num biquini da Cantão? E quando a sua outra-metade recebe uma proposta fodíssima e irrecusável de emprego... em outra cidade?

Se ainda estivéssemos apaixonados. Naquele sentido pleno e flamejante da palavra. Se, e somente se, então o prognóstico não seria tenebroso. Porque a paixão é autosuficiente, se alimenta de si mesma. Mas a porra do amor, não. O outro vira pré-requisito, porque o amor se auto renova, ao contrário da paixão. Mas só com o estímulo da presença.

No MSN, agora:

unlovable says:
eu quero ele aqui pra conversar comigo.

unlovable says:
e tirar o papel de bala da minha mão antes que eu jogue na lixeira, e fazer isso ele mesmo, só pra que eu não chegue perto do lixo.

E é isso.

Agora, sobre a praia de hoje com o menino da bicicleta, Thaíssa, Samara e Rogério. Como eu disse lá no flog, ganhei rugas e um câncer de pele. Leia lá a história completa do meu desastre, mas veja as outras fotos da "menina bicolor", gently brought to you by Livejournal, aqui:

Primeiro, La Playa:


Agora, o camarão:


Eu mereço toda a ardência que sentirei essa noite.
B.U.R.R.A.

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Sexta-feira, Janeiro 9

eu tinha que falar isso

Na ida para o trabalho hoje me deparei com uma cena insólita. Uma aglomeração no ponto de ônibus, e eu quis voltar mas a curiosidade mórbida adivinhou a razão do tumulto e eu segui, como se guiada pelo cheiro do sangue. E sim, ele estava lá, uma poça oceânica do rubro fluido da vida - mas que naquele instante representava a morte em estado líquido.

E, boiando em suas calmas águas, uma cabeça humana esmigalhada.

Meus olhos grudaram no pedaço de osso do crânio que se expusera em fratura. Eu não sabia ainda se o morto era homem ou mulher, criança ou velho, preto ou branco. Era o pedaço alvo de crânio saltando para fora do que antes havia sido uma cabeça que me consumia a atenção. Inteira. A chuva começava a cair e eu sequer me dei conta. O trânsito foi sendo lentamente desviado, os motoristas dos ônibus trafegavam devagar engarrafando a avenida, para que os passageiros tivessem a oportunidade de enfiar os olhos vidro afora e contemplar a catástrofe matinal. Desviei os meus próprios da morte por um instante para voltar a contemplar a vida que piscava nos olhos daquela gente. Um misto de horror-com-curiosidade-com-pavor-com-alívio ("ufa, eu ainda estou vivo").

Ainda, tolos. Ainda.
E será que estão, mesmo?

Não senti nada disso. Fora o interesse biológico (coisa de médico) pelo estado geral do cadáver (enfim, era homem, mulato e calvo) e o deleite com que a minha reprovável morbidez buscava cada pedaço de massa encefálica around, havia a vontade de chorar em solidariedade ao abandono daquele corpo... E esses confrontos com o acaso cruel me aterrorizam. Decididamente o senhor X não saíra aquela manhã de casa pra morrer, depois de tomar banho, engolir um café, vestir-se e pensar na vizinha gostosa que ia pegar no final de semana... Podia ter sido eu. Pode ser você, qualquer dia desses. E isso me poda e me estimula, ao mesmo tempo.

Fui pegar o ônibus em outra esquina. Atrasei-me apenas quarenta minutos, e por sorte a supervisora chegou atrasada, também. Aquela cena se repetiu na minha cabeça por toda a manhã. Eu oscilava estados de tristeza, de medo e uma sensação escrota de PAZ que sinto ao ver gente morta. Daí, logo depois do almoço, havia um trabalhinho a fazer em outra empresa que divide espaço conosco e, ao chegar na sala do supervisor operacional, me deparo com a criatura fazendo a digestão enquanto browseava num desses sites bizarros/mórbidos. Estava numa página que exibia fotos de fetos com anomalias cromossômicas. Anotei mentalmente a url e fucei o site assim que voltei para a minha mesa. E no meio daquela galeria de catástrofes que os vivos adoram testemunhar para se regozijar internamente pelo fato de ainda respirarem, encontrei uma foto MUITO parecida com o que eu havia visto de manhã. MUITO.

Olhei por dez segundos antes de fechar o browser e correr para não vomitar em cima do micro. Consegui chegar ao banheiro mas não vomitei nada, apesar de o meu estômago ter dado mil voltas durante todo o tempo que fiquei lá, sentada na privada, levada à nocaute por uma dor de cabeça pugilista.

Muita coincidência pra um dia só? Okay, então terminemos o post com mais uma: entre os emails recebidos hoje, o da Camilla me trouxe um link precioso: esse. Sim, fotos de gente morta, mas a filosofia da coisa é totalmente diferente da dos sites no estilo do rotten.com. Eu sempre gostei de post morten pictures, mas como se fazia na era vitoriana, onde o hábito mandava fotografar os entes queridos depois da "passagem". Minha família tem algumas fotos assim, muito antigas (anos 50, creio eu), o que despertou meu interesse. Só que a literatura virtual sobre o assunto é escassa. Imagens, então, nem se fala. E então eu descubro que há um livro sobre essa prática, cheio de fotos e particularidades. O nome é poético, Sleeping Beauty (vide link acima), e pelos beleza dos samples que vi por lá, o título é, de fato, bastante apropriado. Me apaixonei pelo bagulho e ele foi JÁ pra minha wishlist.

A morte pode ser linda. A morte pode ser pavorosa. A morte só não pode ser evitada - eis o que me assusta e atrai.

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Quarta-feira, Janeiro 7

ce n'est rien

Quando eu finalmente terminar o layout, não vou suportar mais olhá-lo. Nunca pensei que desse tanto trabalho fazer algo que beirasse a decência. É tão mais simples fazer uma figurinha no fotoxópe, jogá-la no alto de uma página e pôr um layer de texto embaixo... Mais simples e, quase sempre, mais bonito. Só que fazer simles E bonito requer talento - aquela coisinha que papai do céu se esqueceu de misturar à receita quando me criou.

Estou aqui tentando atualizar esse diário, responder uns 40 emails mofando na inbox (a maioria de gente fodamente interessante que eu adorei ter conhecido em 2003, e que injustamente aguarda que o ar à minha volta se faça respirável de novo e eu tenha fôlego para cair matando nos replies), retocar uma imagem lá de Cabo Frio pro Fotolog, arrumar o meu quarto e ouvir New Order. É óbvio que nada disso (à exceção do CD do New Order) vai ficar pronto hoje. E o que ficar pronto, ficará podre. Perdi a capacidade de me organizar. E nós sabemos o porquê. E ainda agora minha mãe bate à porta reclamando que não falo mais com ela.

E eu estou me sentindo tão hopeless que poderia cair num choro convulsivo agora e soluçar a madrugada inteira. Mas então eu me lembro de que amanhã... logo cedo... Não. Eu não quero. Eu não quero ter que quase chorar para acordar, todos os dias, e rumar sonâmbula para um lugar que eu odeio. Todos os dias.

Meu emprego é um quartel. Hoje um amigo foi repreendido por estar me mostrando fotos que ele fez com a câmera digital. Eu estava ouvindo música no walkman, mas sutilmente pesquei a conversa e reduzi o volume. E lá estava o pobre, levando um sabãozinho da supervisora porque "estava brincando muito". É isso, pessoas. Não se pode rir, não se pode sacanear o amigo do lado, não se pode mostrar fotografias. Até ouvir música não pode - por isso eu ouço no walkman, mas tenho certeza de que alguém lá dentro franze o cenho quando me surpreende com os fones pendurados na orelha. Enquanto isso os funcionários terceirizados ouvem música alta no PC, berram piadas de macho o dia inteiro e sim - o trabalho deles rende do mesmo jeito e tudo funciona bem.

Mas eu não trabalho numa empresa. Eu trabalho num mosteiro.

Eu tinha tanta coisa pra falar. Mas as idéias não estão fluindo. E isso me abre um buraco no peito, e por ele fogem as borboletinhas. Estou vendo-as voar pra longe, e não consigo mais esticar as mãos para pegá-las. Está tudo vazio e escuro aqui dentro, e eu queria muito poder chorar agora, mas sabe como é, a vida é assim mesmo e eu serei uma poser se deixar cair uma lágrima.

Talvez isso seja um hiatus.

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Segunda-feira, Janeiro 5

i need fresh air

Sufocando literalmente dentro do meu quarto. Um mar de papel, um oceano inteiro de roupas espalhadas, e a nerde aqui tentando fazer um layout menos patético para o seu domínio. UGH.

Fiquei sabendo que no domingão o povo foi derrubar copos de chopp no shopping aqui da cidade e pagar mico no videokê, depois de encher o rabo de esfihas. Delícia. E a nerde aqui enfiada no quarto, dialogando com caracteres na tela do micro. É estranho "ter uma vida" e optar por deixá-la guardada na gaveta?

Minha cara está da cor de papel-pardo. Aquele com que se encapavam cadernos, nos idos de antigamente. Sol demais faz isso com a minha pele - ei, garota, quem mandou ter melanócitos excitáveis? Se não houvesse uma avó índia e uma bisavó negra na sua árvore genealógica, você poderia pegar sol à vontade. No máximo ia avermelhar feito uma cereja ao maraschino e, depois de trocar de pele como uma cobra, lá estaria a tez pálida, por debaixo das células mortas, esperando para se mostrar de novo e fazer sucesso entre os góticos (hahaha). Em compensação teria rugas mais cedo e o câncer de pele se alastraria voraz. Hm, melhor ficar do jeito que está.

E sim, eu me recuso a torrar nas areias de qualquer balneário. Mas não, eu não resisto a entrar naquela água salgada nojenta que fode o cabelo e furar ondas e levar caixotes e dar com a bunda na areia. Pure fun. Se não fossem rir muito, eu também levaria balde e pazinha pra brincar na areia. Porque isso é legal e o sol abençoa as crianças de alma e não lhe dá melanomas de presente.

Eu definitivamente NÃO devia ter misturado aquele restinho de Smirnoff ("áice" é o cacete, by the way... bebida de patza) com aquelas latas de Itaipava. O consolo é a possibilidade de acordar dentro de uma poça de vômito amanhã e ter uma boa desculpa pra ficar em casa e terminar o layout do site.

Nerde. UGH.

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Sábado, Janeiro 3

eu, vendo o programa do gilberto barros?? SOS

É, eu voltei. Cabo Frio está uma lindeza, alguém me diz onde foi parar a horda de pobres que emporcalhava as esquinas? Geral cheirando a givenchy, puta merda, nem em Búzios essa concentração de beautiful people. Carros importados passando por mim na fila do ônibus - ahhhh, to hell with it. Não vou negar que esses eventos me enegrecem o espírito, marketing pessoal negativo.

Não foi tão bom quanto poderia ter sido. Fui com gentalhas e senti falta dos meus programinhas dondoca fútil wannabe. Nada de passadinhas rápidas em Búzios pra passear de escuna pelas ilhas e comer caldeirada e fazer fotos bucólicas da Praia dos Ossos. Nada de caminhadas vespertinas pelo Canal tomando sorvete a quilo na galeria e olhando as sepulturas do cemitério do mosteiro. A Praia do Forte era, as usual, o único lugar onde pululavam aqueles seres que juntam 14 pessoas pra rachar o aluguel de um conjugado no centro, que levam isopor cheio de garrafinhas de skol (ou Itaipava, que tem o mesmo gosto e custa a metade do preço) e que compram espetinho de camarão e colocam nas mãos de cada uma das seis crianças que acompanham a trupe. Foda, porque gente demais around estraga as fotos. Fiquei de mau humor poser e não quis fotografar quase nada, e isso incluiu muitas coisas fofas que eu podia ter registrado lá no Forte. Depois eu posto as fotos, cheguei quase agora e tô com preguiça.

A noite do dia 31 quase foi atravessada por uma moça (eu) vendo o show da virada numa casinha de bairro em cabo Frio. Isso porque meus acompanhantes estavam mais interessados em beber cerveja barata no quintal e se lançar em discussões pouco profundas enquanto sim, eu queria ver GENTE - esses feriados de fim de ano decididamente não fazem bem para a minha cabeça. Um viado afetado e chato pra caralho grudou em mim, e queria que eu fizesse fotos dele nu para colocar na internet com fins matrimoniais, e ele disse que ia casar de vermelho na praia, mas a recepção depois ia ser careta. E ele foi pra Praia das Dunas todo vestido de preto (ok, eu estava de preto também, e linda, vamos deixar de modéstia, porra), e à meia noite se despiu e ficou só de sunga e mergulhou as primeiras sete ondas de 2004 e jogou palmas brancas pra "Iemanjar" (um doce de entidade) e pediu um marido. E os fogos foram f-o-d-a-s, e eu reafirmo que fogos de artifício seriam capazes de me fazer desistir de um suicídio mesmo se a corda já estivesse no pescoço. Fogos são a felicidade se mostrando possível mesmo que passageira, são a vida me chamando de volta - e eu sempre atendo.

Update: Alguém aí tem o link pro vídeo da Paris Hilton password free???

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