Sexta-feira, Agosto 29

humor negro

...e então 2003 está sendo um ano duca. Primeiro meu padrasto morre assassinado, depois meu pai descobre que está com câncer.

E o pior de tudo: eu comecei a trabalhar.

Não me xinguem. Meu humor negro é (sempre) involuntário. Meu pai está se cuidando. E os médicos estão otimistas. Médicos (sempre) são otimistas.

Ele não vai precisar de quimioterapia, nem de extirpar nada. Ele está tranquilo. E eu estou esticando esse post contra a vontade, como se quisesse desviar o foco da minha brincadeirinha de péssimo gosto. Mas eu sei que ele vai ficar bem, e, se não ficar, essa é a vida. A gente fica triste, e depois vai esquecendo tudo à prestação.

E agora eu vou lá pra sala, ver novela com ele e a Chantilly.

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Terça-feira, Agosto 26

reminiscence

E então ele olhou a foto por uns poucos segundos antes de atirá-la gaveta adentro e levantar-se da cadeira.

- Deus não é uma pessoa justa.
- Deus não é uma PESSOA – eu disse.
- Melhor pra ele.

Calei e voltei à "tentativa" de crochê. Minha visão periférica, no entanto, denunciou que ele havia se voltado em minha direção. Ergui os meus olhos-espiões e lá estavam os dele, azuis como a terra vista do espaço por Armstrong.

- Há exceções... é claro.

E enfiou novamente os olhos na paisagem. E eles foram crescendo, como se absorvessem a paisagem, a janela, os móveis da sala, tudo até a mim. Aliás, a mim principalmente. Porque parecia que ele tinha em si um pouco de cada coisa que existia no mundo. As coisas bonitas e as tristes, principalmente, mas também as alegres e as sábias. E até mesmo as coisas que eram apenas coisas, mais nada. Ele era uma coletânea do planeta. Se os marcianos (ou venusianos... sim, Vênus é melhor, eu prefiro que sejam venusianos), então, se os venusianos viessem à terra para estudá-la, seria suficiente abduzi-lo. Porque ele era tudo, e tudo era ele. “Deus, que pensamento mais idólatra!”, eu gritei pra mim mesma. E ri pra mim mesma. Só que, mesmo quando eu ria em pensamento, ele sabia. Voltou-se para mim, arzinho de ironia: “o que foi?!”.

- Como assim o que foi? Eu estou quieta.

Tentei soar ríspida pra disfarçar o medo. Ele me dava medo com esse jeito de saber as coisas.

- Eu sei, eu estou estranhando a sua quietude... papagaia.
- Eu falo pouco.

E os olhos dele, que sabiam tudo, me desmentiram.

(p.s.: a palavra venusiano existe mesmo?)

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Quarta-feira, Agosto 20

20 de Agosto de 2003

É como eu disse lá, há uns meses atrás isso seria meio improvável, mas eu sempre ando pra frente. SEMPRE. Mas parece que algumas pessoas preferem criar raízes no lodo. Depois de meio segundo de raciocínio lerdo, cheguei à conclusão de que a criatura que anda me stalkeando no domain é o Preacher. Pelo teor dos comments, não podia ser a simplória da Lice, nem mesmo as suas pobres asseclas. Tive mais certeza ainda quando achei nos stats do meu site um referrer, que era de um comentário feito no blog dele. Bingo.

Sinceramente, não tenho mais idéia do que fazer com essas pessoas. Se o cara ainda fosse uma dessas crianças de internet, feito a Lice e suas leitoras com nicks japoneses, eu ainda entenderia. Eu já fui idiota e comprava CDs do Oasis só porque eu lia no Rio Fanzine do Globo que o Oasis era uma banda foda. Dessa fase, só ficou Champagne Supernova, que é uma música linda e merece estar no meu bauzinho sonoro. Mas não. Os meus stalkers são todos ADULTOS, alguns até já meio passados. E eu daria uma moeda de cinco centavos NOVINHA pra saber o que se passa nessas cabeças. Porque não consigo ver sentido nessa obsessão quase mórbida.

É sério, eu tenho MEDO dessas pessoas. Não vejo o mundo de forma maniqueísta, não existem pessoas 100% boas - nem o oposto. Mas eu queria ter duas respostas, nesse momento: 1) Por que algumas parecem ser 100% ruins e 2) se elas não o são, se a maldade é apenas uma porcentagem das suas personalidades, por que eu tenho o "dom" de despertar seu lado mau? Porque essa perseguição através dos séculos extrapola qualquer sentimento de revolta residual que possa existir. NO CASO, claro, de essas pessoas serem normais. Porque sim, há a possibilidade de que NÃO sejam.

Eu me estressei com a Lice porque, em três linhas, ela cometeu dois dos pecados mortais da minha lista: 1) ficar remoendo os erros dos OUTROS in secula seculorum, como se ela mesma fosse impoluta e livre de qualquer pecado, e 2) ser BURRA. De outra feita eu não responderia.

Já o rapaz é outro problema. Ele é mais insistente, ele tem uma rede de amiguinhos com a mesma idade e os mesmos problemas existenciais que acham bonito dar declarações racistas e homofóbicas - e ainda acham público para isso. Sorte que eles estão no Blogspot, que notoriamente caga E anda para o conteúdo dos sites hospedados. Fosse no HPG, Kit.net ou Livejournal, aposto que alguém já teria reclamado e eles teriam que comprar um domínio coletivo para eviscerar suas opiniões de merda.

Não tenho bronca. Só queria que me jogassem dentro de uma gaveta escura e me deixassem mofando por lá, que não se lembrassem de que eu estou respirando neste momento. Porque, para mim, são como parasitas intestinais: só quando se manifestam eu me lembro que existem. Já fizeram com que eu perdesse quase metade de um livro que estava escrevendo (o vírus que ganhei por ter dito no Cry Baby que achava a Luana Piovani uma hipócrita). Por causa desse mesmo vírus, perdi o show do Roger Waters - gastei a grana que tinha pra salvar meu micro.

Não satisfeitos em fazer sites difamatórios com meu nome às toneladas, em me mandar spam em escala industrial, em fazer um flood de mais de dez mil comments no meu YACCS, eles terminam por assinar o atestado de imbecis ao simplesmente não dar meio segundo ao cérebro para funcionar e chegar à conclusão óbvia: "Deus, QUEM está fazendo o papel de palhaço aqui?".

Isso faz algum sentido para vocês?
Para mim não faz, não.

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Domingo, Agosto 17

Bingo.

Já andaram fazendo a farra do boi nos comments do blog. Deletei e bani IPs. Depois quero saber se eu realmente sei banir IPs do DOMÍNIO da forma correta. Não deletei por "medinho" - não tenho mais isso. Deletei porque tem gente legal lendo aquilo ali, gente que não se envolve em barraquinhos de copiquete e não precisa se ver obrigado a ler sobre isso. Pelo menos, no que depender de mim, não mais lerão.

Estou feliz, sábado frio, choveu pra caralho, passei a manhã na cama grudada na Chantily, bebendo skol e comendo biscoito. Depois de comer feito uma infeliz no almoço, fui a um desses encontro de amigos de bate papo telefônico. Não, eu não participo dos bate-papos, mas fui convidada a ir por um amigo participante. Pessoas apertando celulites dentro de roupas de lycra preta, pessoas vestindo calças com VINCO, pessoas de porre com duas latinhas de cerveja, pessoas de 38 anos cantando pagode pra seduzir menininhas de 13, pessoas assinando livros de presença e chorando em despedidas, pessoas me perguntando se eu sou metaleira ou se uso drogas por causa das tatuagens, enfim. Tudo dentro do esperado.

Me pergunto onde andarão as pessoas realmente legais desse planeta. Não precisavam ser style, nem ter cabelo colorido, tatoos modernosas ou usar roupas riot. Eu só queria não ter vontade de morrer quando perto delas, para tentar renascer noutro mundo onde as criaturas que circulam ao meu redor não me dessem vergonha de pertencer à mesma espécie.

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Sexta-feira, Agosto 15

copiquete, moi?

Entonces, como eu ia hablando, ter um counter no seu site é sempre uma surpresa a cada reload. Fui lá um instantinho e achei o site tosco dessa lobotomizada aqui, que me acusa de copycat. Isso porque o "layout" dela (se é que pode se chamar assim) tem iframes dentro de um bloco de notas feito no photoshop. Ó, que glorioso. Será que ela é evangélica também? (piadinha interna)

O que achei de fato digno de nota foram os argumentos que a energúmena usou para justificar a sua teoria de que eu havia roubado sua originalíssima idéia: "ah, ela usou fotos de outra pessoa e tem dupla personalidade". Elementar, minha cara debilóide. Impressionante é você ter tido a capacidade de desenvolver essa brilhante teoria, sendo que mal consegue acentuar o que escreve e não tem a mínima noção do que seja concordância. Letra "s" em final de plurais? Que coisa mais ultrapassada... Ao invés de aprender a ESCREVER (e a fazer layouts decentes), vamos xingar a copiquete, que é mais engraçado.

Meio que me arrependi de ter deixado minha opinião no "blog" da idiota. Provavelmente meu site vai amanhecer decorado de comentários lotados de erros de concordância, vindos de estrupícios de 15 anos fãs de hello kitty e coisinhas "Kawaii". Mas sei lá, essa eu não podia deixar passar em branco.

Meu Deus, que gente TRISTE. E é por isso que eu sou esquisita e todo mundo pensa que sou louca. Não é só porque fui OBRIGADA a nascer nesse mundo que tenho que efetivamente VIVER nele.

* * *

Não entreguei o dossiê. Tive um excelente dia de trabalho. Chorei por meia hora no banheiro, sentada na privada, os pés pra cima, encostados na parede. Meu ódio mal cabia dentro do reservado do WC. Ninguém me viu ali. Pus os pés para cima porque eu estava usando coturnos, e seria facilmente identificada por olhos imiscuindo-se embaixo da porta. Eu não queria que ninguém sequer se lembrasse de que eu trabalhava ali. Depois, minha bunda reclamou da posição, voltei com os pés para o chão e as lágrimas gotejavam em cima do coturno colorido. Eu achei graça, porque o ângulo estava realmente perfeito, as cores e a luz estavam fodas e aquilo daria uma foto e tanto... Os sapatos esdrúxulos molhados de lágrimas. Eu sou a esteta da desgraça. Consigo achar beleza plástica no meu próprio sofrimento. O que pode indicar que eu não estivesse sofrendo porra nenhuma - mas não é verdade, eu estava.

A puta evangélica gorda e histérica foi se queixar à supervisora. Disse que eu a destratei. Tinham que ver a cara de vítima que a PUTA arrumou pra apresentar na reunião que a supervisora organizou para deslindar o quiproquó. Em suma, eu saí como a bruxa meméia da história, quando estava simplesmente fazendo o MEU trabalho e fui insultada por um evangélico gordo e arrogante, que tem síndrome de patrão.... Quando sabemos que o patrão de verdade está nalgum motel da Barra gastando em porra, azeitonas sem caroço e whisky o dinheiro que a empresa lucra, enquanto que este verme king size chega no trabalho antes de mim - ou seja, antes das sete da matina - maltrapilho e de ÔNIBUS.

Eu estou com vontade de implodir.
Mas eu não vou implodir.
Vou aproveitar que tenho a PLENA consciência de que, mesmo que o mundo esteja FEDENDO ao meu redor, eu sou uma pessoa limpa. E que meu namorado chato me trouxe ontem latas de skol + biscoito recheado de limão (my fave) + pão de hamburguer + hamburguer + bubaloo e farei a orgia gastronômica da semana.

Desconfie SEMPRE de pessoas que não explodem NUNCA.
NINGUÉM consegue manter o controle todo o tempo. Quanto mais sanguínea e explosiva uma pessoa é, mais você pode confiar nela. Pessoas que reagem quando tomam porrada, e não aquele teu amigo que parece tão legal porque você vive pisando nele e ele faz que não entendeu. Ele entendeu sim, seu babaca, e faz vodu contra você pelas costas, enquanto exibe aquele sorriso-falso-default na cara pra que você não desconfie - e seja pego de surpresa.

Pessoas dissimuladas podem parecer mais fáceis de se lidar, mas aguarde surpresas negativas no final do período.

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Quinta-feira, Agosto 14

hate

Eu estou derretendo por dentro. De ódio. Meu interior parece uma panela fervendo de angu à baiana - sabe como é, né? Aquela polenta mole cheia de pedaços de míudos de porco dentro: coração, pulmão, rins, fígado, tudo picadinho e cozido. Eis Lolla Moon inside... now.

Ódio. A supervisora me incumbiu de uma tarefa pedregosa, fiquei sem tempo para cumprir minhas tarefas de rotina, e ainda tive que ouvir merda por conta disso - não da Raquel (a supervisora), mas das vadias evangélicas que também trabalham pra ela. Detalhe: consegui. por esforço próprio, cumprir TODAS as tarefas, antes do prazo. Eu sou FODA.

A história é MUITO grande e complexa, and i'm not in the fucking mood. O resumé diz que fui injustiçada, que fui destratada, que fui feita de tapete, mas que como eu reajo de forma bastante peculiar às injustiças, resolvi a parada no grito. Não houve uma só alma perdida naquele centro de reparos que não tenha se BORRADO (nem que seja psicologicamente) de medo da minha reação. É. Imbecis não aprendem. Respeito DEVIA ser algo a ser conquistado, mas pelo visto vou ter que impor isso lá na MARRA.

Estou aqui terminando um dossiê. Redação impecável, vou entregar os furos de TODO MUNDO lá nas mãos do DONO da empresa amanhã. Ou eu arrumo uma promoção e demito metade do staff, ou vou pro olho da rua EU mesma. Não posso negar, nunca estive numa encruzilhada tão fácil: AMBOS os caminhos me parecem per-fei-tos.

Só não dá pra ficar lá como estou. Não rola fazer o trabalho de todo mundo porque sou das pouquíssimas criaturas racionais que ali estão, e quando preciso de um help, ver costas se virando. Não posso tolerar ser tratada como se fosse a faxineira (pior do que ela, até) por um cara que trabalha em OUTRA empresa, a quem não devo nenhum respeito hierárquico, e que cuja empresa VIVE falhando com a nossa em mil aspectos. Não dá pra deixar a casca de foda do lado de fora quando entro no trabalho, e passar o dia inteiro a engolir batráquios (crus, vivos e sem água gelada pra acompanhar).

Não dá. Minha alma cantarola por dentro o "Orfeu no Inferno". Felicidade pura. Amanhã ou eu os fodo OU eu os fodo. E, se tudo der errado, EU OS FODO.

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Quarta-feira, Agosto 6

o que corrói é o tédio

update: e O Roberto Marinho morreu.

...

Desculpem, mas isso MERECIA um update.

Cartaz colado na traseira de um ônibus que trafegava à frente do meu, hoje à tarde:

TERMAS COQUETTISH: TÁ NA HORA DE VOCÊ DÁ UMA ENTRADINHA"

Além da grosseria do slogan (pior que cantada de boteco), o imbecil não sabe conjugar verbos. Alguém ligue pra esse puteiro (2290 1054) e expresse sua insatisfação.

E falando em putas, o site da Vila Mimosa é uma merda, hein? Quem vocês acham que acessam aquilo pra saber da "história", ou tomar conhecimento da existência de "salões de cabeleireiro" no local? Não fode. Queremos ver as putas, porque submundo vende, submundo RULES.

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Segunda-feira, Agosto 4

talking in your sleep

Márcio e Paula vieram aqui ontem. Meus amigos very old in their twenties, que ruminam e emulam os anos 80 todo o tempo, como eu. Coisa triste e extremamente patética os três downloadeando lixo no Kazaa com a clara intenção de fazer bedroom dancing depois. Não deu, eu tinha que acordar cedo.

Eu sei lá. Gosto das pessoas, gosto de recebê-las. Mas às vezes me afasto por culpa do capetinha que fica me sussurando bobagens orelha adentro.,. Não tenho muito tempo, e no caso de algumas pessoas em particular (não os citados) eu continuo achando-os o máximo, só não tenho mais tanta vontade de estar com eles. Uma vez por semestre bastaria. Para mim.

Às vezes tenho uma certa vontade de sair pra dançar, mas a vontade se mostra tão efêmera quanto meus ímpetos suicidas ocasionais. A noite está muito fútil, cheia de gente idem, e eu estou tentando ser uma pessoa mais profunda. Voltei até a escrever, e isso não é bom sinal. Predigo uma intensa fase de introspecção elevada, mas que haverá de me fazer voltar a cometer coisas das quais me orgulho. E faz um bom, bom tempo que eu não adiciono coisas assim ao currículo.

Esse seria o set list da bedroom dancing night de domingo. Não foi ontem, mas vai ser hoje. E que se foda o trabalho, PORQUE UMA PORRA DE UM CARTÃO DE PONTO NÃO VAI ME DIZER O QUE EU POSSO OU NÃO FAZER.

01. Too Shy - Kajagoogoo
02. Hurts to be in Love - Gino Vanelli
03. Out of Touch - Hall & Oates
04. You Belong to The City - Glen Frey
05. Harden my Heart - Quarterflesh
06. Steppin' Out - Joe Jackson
07. Illusion - Imagination
08. Trouble - Lindsay Buckingham
09. Don't you want me? - Human League
10. Only when you Leave - Spandau Ballet
11. Formosa - Zero
12. Talking in your Sleep - Romantics
13. Abracadabra - Steve Miller Band
14. Tenderness - General Public

Hurts to be in Love... Meu amigo, se você nunca deu um amasso aos 13 anos numa festinha ao som dessa música, se morra a dentadas, porque você NÃO TEVE adolescência. Yeah, as "rainhas dos cantinhos escuros" ficaram eternamente devendo uma ao Gino Vanelli.

E eu aaaaaaamo "Out ot Touch" do Hall & Oates, amo, amo, amo! Lembro de mim aos nove, dez anos, com meus primos na kombi (oh yeah) do tio Vizinho (era esse o apelido) rumando pela BR040 para Petrópolis ou indo para o Tivoli Park da Lagoa. Both ways, era nóis tudo em cima da carroceria, boca aberta contra o vento, para encher de ar (era divertido), ou cuspindo na estrada para ver a saliva ir ficando para trás, e quem sabe, com alguma sorte, acertar em cheio o pára brisa de algum carro de playboy.

Como era TÃO mais doce ser revoltado.

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Domingo, Agosto 3

dear diary

Ontem fez calor por algumas boas horas. O céu estava lindo, e então, sentada na parte descoberta do terraço, resolvi desenhá-lo. Gosto de tentar guardar na memória as coisas bonitas que se apresentam a mim, mas como a minha é fraca... Dizem que elefantes têm uma memória proporcional ao peso. Se for verdade, e se o peso for mesmo o critério, então eu tenho memória de formiguinha. De plâncton. De serzinho unicelular.

Não havia lápis de cor, então eu desenhei o céu com lápis comum, mesmo. Não pude guardar o azul, o sol branco de tão claro que cegava os olhos e não me deixava ver sua forma para poder desenhá-lo. Nem os raios que escapavam por entre as brechas das nuvenzinhas. Falando em nuvens, a única coisa que ficou realmente perfeita no desenho foram elas, já que são brancas, da cor do papel, e não precisaram ser pintadas. Só que o céu do desenho ficou cinza, a cor do grafite. Cor de tempestade forte chegando. E eu fiquei feliz do mesmo jeito, porque gosto do céu cor-de-chumbo que anuncia trovoadas e gotas grossas e barulhentas. A melodia das tempestades me deixa feliz. A própria palavra, tem-pes-ta-de, me deixa feliz. Ela é forte, poderosa. Um lindo nome para a filha que eu nunca vou ter: Tempestade.

Terminado o desenho, olhei para o céu novamente, e vi que, sem querer, adivinhei o futuro. Um canto do horizonte já estava tomado por uma mancha negra/azulada, linda. Como eu quis ter um lápis dessa cor nesse momento! Não tinha. Fotografei o céu com a retina, mas sabia que não ia durar muito tempo lá. Amanhã não lembrarei da cor, depois não lembrarei da forma e do tamanho da mancha, e por fim não lembrarei de nada. E então fiquei triste pela morte inevitável daquela lembrança, e tive vontade de chorar. Depois me lembrei de que vinha vindo uma tem-pes-ta-de, e isso era motivo para sorrir. E lembrei de “well i wonder” dos smiths, que sempre me lembra chuva, e que gosto de ouvir quando chove. Não só porque tem barulho de chuva começando a cair, no final. Mas porque ela é triste, e gosto de ouvir coisas tristes na chuva.

Por que ela é triste? Porque a história é triste. É um menino tímido que não sabe se a pessoa que ele gosta sabe que ele existe. E ele não quer ser esquecido, mas nem sabe se é lembrado. O que pode ser pior do que ignorarem o nosso amor? É ignorarem a nossa existência. Será que o outro me vê? Será que alguma vez pousou os olhos em mim? E se sim, será que despertei o mesmo interesse que uma pedra? Ou será que sou especial à distância, como ele é para mim? Nossa. Que conversa mais menininha. Eu não estou nessa situação. Não estou. Não estou. Não estou. Quanto tempo leva para algo que a gente repete tornar-se realidade? É só uma dúvida. E eu não estou apaixonada.

Gotas pesadas de água (vindas sabe-se lá de que oceano - ou poça d'água - do mundo) caíram na minha cabeça e fizeram manchas no caderno. Fechei meu desenho e olhei para o céu. Iguais, as manchas do céu e as que vieram parar no meu desenho. Fiquei feliz. Agora, mesmo que morresse a memória da retina, ela ressuscitaria no papel todas as vezes que eu a buscasse. O papel é o baú dos sentimentos e das imagens. Bendito seja você, guardião das memórias fujonas.

Do you hear me when you sleep? I hoarsely cry.
Do you see me when we pass? I half die.
Please keep me in mind.

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