Tá foda conseguir não virar lésbica. A qualidade do sexo forte (?) piora a olhos vistos.
Eu no ponto do ônibus depois de um dia PODRE no trabalho (depois falo sobre essa questiúncula). As costas desmoronando-se, as costelas entrando para dentro dos pulmões e eu quase vomito sangue por conta disso. Dói tanto que por duas vezes me agacho e fico lá, de cócoras, esperando que ou o ônibus passe AGORA ou que também AGORA um raio parta minha cabeça em dois hemisférios ocos. Porque nada além dessas duas coisas pode me aliviar o sofrimento.
O primeiro ônibus passa. O motorista from hell passa por mim, me olha na cara e segue adiante com a sucata voadora, sem parar. O segundo faz o mesmo, e depois de UMA HORA às margens da avenida Brasil, tendo dúzias de policiais armados de fuzis circulando à minha volta com a mesma tranquilidade dos vendedores de bala, um motorista finalmente pára. Eu já estava à beira das lágrimas.
Obviamente, depois de ter sido ignorada por dois carros, o terceiro, já bem mais tarde, passa lotado. Sento-me na escada mesmo, só que esse ônibus vai parar em VÁRIOS pontos até me despejar em casa. Ou seja, a porta se abrirá (e permanecerá aberta) em várias localidades às margens da Av. Brasil, onde homens feios, sujos e escrotos olharão minhas pernas, morderão os lábios com os poucos dentes que lhes restam na bocarra pútrida e me chamarão de "gostosa".
Péra. Pára tudo. Eu não quero mais um ônibus. Nem quero ir pra casa. Eu quero aquele raio. AGORA!
Foi exatamente isso o que aconteceu. Com um agravante: dois caras resolveram também ficar na escada, junto comigo. Os dois em pé, minha cara colada às suas bundas suadas e fedidas, o cheiro acre do suor curtido durante um dia inteiro de trabalho empesteando o pouco ar disponível naquele mini espaço, tornando-o praticamente irrespirável.
Para acabar de danar de vez, o mais feio deles ficava com os olhos esbugalhados metidos dentro da minha blusa. O ônibus rodopiou pela Brasil, e eu maldisse mil vezes o fato de ter ido de saia justo naquele dia. Ficava espremendo as pernas uma contra a outra, na vã tentativa de ocultar meus fundilhos. Não adiantava: vendo ou não meus fundilhos, a homarada suja e feia arreganhava dentes ao vislumbrar minhas pernas dando mole na escada do coletivo. Cacete à milésima oitava potência.
Homens têm mais sorte. É possível para um camarada exigente ver fêmeas aproveitáveis durante uma caminhada de 30 minutos. Uma mulher exigente pode caminhar por 30 dias e não encontrar um que consiga não lhe fazer vomitar. O nível anda baixo.
Ainda tenho um pouco de sorte por ter achado um camarada que presta e cuja conversa não me dá vontade de socar a cabeça na parede. Sei lá se eu o amo, provavelmente não - mas querer "paixãozinha" também significaria que eu ando vendo novela demais, ou lendo muito os livros de Mme. Delly. Olho pro namorado de algumas amigas minhas e suspiro aliviada.
É, vai demorar um pouco até eu virar sapatão.
Lésbicas de plantão: chorai.
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